Economia

|PODCAST| Economista que viveu em SP até a adolescência relata o drama grego


Conheça a história do executivo Michael Panagiotopoulus, que deixou o Brasil aos 13 anos para residir em Atenas, e ouça seu depoimento sobre a crise em que a Grécia está mergulhada


  Por Nelson Blecher 05 de Julho de 2015 às 13:00

  | Superintendente editorial do Diário do Comércio


Caro Amigo Nelson,
Durante estes últimos 5 anos, período que grandes dificuldades vêm gradualmente crescendo aqui na Grécia, e especialmente nestes anos da minha vida em que eu esperava descansar e passar o tempo que me resta um pouquinho mais "folgado" e menos ansiosamente, longe dos problemas do tráfego aéreo, é que os meus pensamentos voltam ao passado, tendo lembranças e saudades da pátria da minha infância. Penso então que talvez meus pais fizeram um grande erro retornando à Grécia...”
No fim de setembro, minha esposa Maria e eu vamos nos aposentar e não sabemos mais em que moeda nos vão pagar e qual será o valor do dinheiro (se receberemos...)
.”

Foi com essa mensagem via Linkedin que retomei contato, na semana passada, com um de meus melhores amigos de adolescência, Michael Panagiotopoulus, 63 anos, economista e diretor de Finanças e RH da HANSA, congênere de nossa Infraero. Antes disso, ele havia trabalhado durante 25 anos como controlador de voo.

MICHAEL PANAGIOTOPOULUS/Arquivo pessoal

Não o via há exatos 50 anos, quando seu pai, o engenheiro Menelaus, decidiu regressar com a mulher, Helena, e os dois filhos para Atenas, em setembro de 1964.

Formavam uma família adorável e simpática, que sempre nos presenteava, ainda crianças, com o Máscate, uma espécie de goma de mascar proveniente da seiva de uma pequena árvore.

Michael chegou ao Brasil com apenas um ano de idade, tinha 13 naquele tempo e mal conhecia o grego. Seu português é quase fluente, praticamente sem sotaque, uma vez que foi alfabetizado e educado no Colégio Rio Branco. Nós nos sentávamos próximos na sala de aula do primeiro ano do então ginásio. Michael me disse que o retorno à Grécia foi difícil, levou quase três anos para se “adaptar à mentalidade” e aprender o idioma natal.

Jamais retornou ao Brasil, embora sempre tenha alimentado o sonho de mostrar para a mulher e os dois filhos sua “pátria da infância”, como costuma dizer.

Em nossa nova conversa, via Skype [parte do depoimento está no podcast abaixo], Michael revelou preocupação com a possibilidade de o plebiscito, que dividiu a nação grega entre o ‘sim’ e o ‘não’ em relação à receita de austeridade e ajuda da União Europeia possa vir a provocar uma cisão irreversível na população. “Em quase todas as famílias, como na minha própria, o plebiscito dividiu opiniões”, disse.

A propósito da decisão paterna hoje questionada por Michael, argumentei que, embora com outra proporção, o Brasil também está igualmente mergulhado em uma séria crise política e econômica. Fiz isso porque a distância e o tempo poderiam ter cristalizado uma imagem idealizada da pátria da infância.

Mas o economista está bem ciente de que, lá como por aqui e em outros países, crédito fácil, abundante e artificial para o consumo mais dia, menos dia, cobra a conta.

APOSENTADOS GREGOS FAZEM FILA PARA RETIRAR DINHEIRO EM AGÊNCIA BANCÁRIA/Foto: Thinkstock

O depoimento de Michael Panagiotopoulus começa exatamente em resposta a uma questão que propus: o que acontecerá se a Grécia abandonar o euro e adotar um novo dracma, a antiga moeda nacional?

Ouça: