Economia

Petrobras vai afundando e arrasta a economia do país


Sem saída para contornar a crise provocada pela imperícia e pela corrupção, estatal cortou investimentos e virou até piada


  Por João Batista Natali 14 de Janeiro de 2016 às 13:57

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O site humorístico O Sensacionalista noticiou esta semana que as empresas de ônibus urbanos brasileiras tinham sido autorizadas a dar de troco aos passageiros ações da Petrobras.

Era uma brincadeira patética com a queda vertiginosa do valor da estatal, cujas ações abriram novamente em baixa nesta quinta-feira (14/01).

A ação preferencial valia R$ 5,25, valor 10,85 vezes menor que em maio de 2007, quando a empresa, no pico de sua avaliação pelo mercado, chegou a ultrapassar a Apple e ser por algumas horas a mais valiosa do Planeta.

De uma das maiores no mercado mundial de energia, a Petrobras é hoje apenas uma empresa global de médio porte, ultrapassada até por outras petrolíferas latino-americanas.

O mesmo Sensacionalista, jornal eletrônico “isento de verdade”, cita um suposto investidor com o seguinte desabafo: “Quem compra Petrobras começa na Bolsa de Valores e acaba no Bolsa Família. ”

Por trás dos últimos capítulos dessa contínua tragédia estão novas denúncias de corrupção, apuradas pela Operação Lava Jato, e o anúncio, na terça-feira, de um novo corte no plano de investimentos da empresa.

Ela revelou que, dos projetados US$ 130 bilhões para o quinquênio 2015-2019, investiria US$ 98,4 bilhões. O objetivo anterior era de US$ 200 bilhões. E disse também que, até 2020, reduziria a meta de produção de 140 mil a 100 mil de barris por dia.

A queda de investimentos afeta diretamente a economia brasileira (apenas US$ 4,9 bilhões iriam para investimentos no exterior). Seria uma média de US$ 6 bilhões a menos por ano, o que significa uma forte desaceleração do dinheiro injetado sobretudo no Estado do Rio de Janeiro (Bacia de Campos) e São Paulo (Bacia de Santos).

Ou seja, menos dinheiro em encomendas, em salários diretos ou indiretos e uma fortuna que deixará de circular no país, que enfrenta em 2016 o segundo ano seguido de forte recessão.

A saúde financeira da estatal inspira mais que cuidados. Ela registrou no terceiro trimestre de 2015 – últimos dados oficiais – uma dívida líquida de R$ 402 bilhões (eram R$ 282 bilhões no final do ano anterior).

Os números dentro dela são sempre superlativos. Há um ano, quando a empresa não conseguia fechar seu balanço do terceiro bimestre anterior, a então presidente, Graça Foster, apresentou ao conselho de administração uma estimativa de que os prejuízos dificilmente contabilizáveis, sobretudo os da corrupção, teriam atingido R$ 88,6 bilhões.

Entram nesse bolo as propinas apuradas pela Lava Jato, como a entrega da Petrobras Distribuidora pelo então presidente Lula ao ex-presidente Collor, segundo denúncia desta quarta-feira (13/01) do procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Há outros negócios desastrados que acobertaram a distribuição de propina. Um deles foi a compra da refinaria em Pasadena, no Texas, que, segundo o Tribunal de Contas da União, em documento divulgado em março de 2014, gerou à estatal prejuízo de US$ 792 milhões.

Entra ainda no mesmo pacote a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, cujas obras foram lançadas com um orçamento de US$ 2,5 bilhões e que deverão custar US$ 20 bilhões.

Com a agravante de ela ter sido projetada para ser uma parceria com a Venezuela de Hugo Chávez para refinar petróleo pesado venezuelano.

Mas, estranhamente, o governo brasileiro não exigiu que o governo de Caracas assinasse um compromisso que, por isso, permaneceu verbal e foi facilmente rompido.

Os dois empreendimentos são alvo da Lava Jato, deflagrada em 17 de maio de 2014 no Distrito Federal e em sete Estados, e que, com investigações centradas na Petrobras, pelo último balanço já condenou 57 empreiteiros, políticos e ex-diretores da estatal.

Dois últimos capítulos, igualmente graves, encerram essa novela. O primeiro é o do populismo na política de preços de derivados do petróleo no varejo.

A partir de 2010, já com Dilma Rousseff presidente, e numa tendência que se acelerou em 2014, ano da campanha pela reeleição, a Petrobras não repassou o preço internacional do óleo cru aos postos de distribuição. Com isso, se o barril custava US$ 120, ele poderia estar sendo vendido a US$ 80.

Foi uma espécie de subsídio que a Petrobras pagou do próprio bolso para que a gasolina e o diesel não afetassem a inflação. Além de desestimular o etanol e quebrar as usinas de destilagem, dados de uma consultoria dizem que o petróleo artificialmente barato custou à estatal em torno de R$ 60 bilhões. É muito dinheiro. Dá o equivalente a dois anos e três meses de Bolsa Família.

O segundo capítulo é o do pré-sal, descoberto em 2007 e que gerou decisões que, com o tempo, resultaram em prejuízos pesados para a estatal.

Foi o regime de exploração, em que a empresa deveria estar necessariamente com uma participação em todos os contratos. E, a seguir, a cláusula de nacionalização, pela qual a Petrobrás precisou desprezar parcerias externas e fechar parcerias internas mais caras e com menor tecnologia.

O pré-sal também foi o pretexto para a “recapitalização” da empresa, numa operação em que o governo, em lugar de entrar com dinheiro, presenteou a Petrobrás com as reservas ainda enterradas do pré-sal.

E recebeu, em troca, uma participação maior de ações ordinárias (com direito a voto). Foi uma reestatização de parte do capital.

Os preços internacionais do petróleo, em torno de US$ 100 em junho de 2014, caíram agora para US$ 30. A informação que corria no mercado era de que o barril extraído do pré-sal custava US$ 40 para a empresa.

Mas ela anunciou há dias que o custo real era bem menor, de apenas US$ 8. O que não é uma excelente notícia pela simples razão de que o mercado mundial está saturado na ponta da oferta.

Nesta semana a direção da Petrobras enviou carta aos funcionários anunciando que apertaria os cintos para economizar US$ 12 bilhões até 2019. Mais uma vez é um dinheiro que deixará de entrar na economia.

Quanto aos credores da estatal, eles estão preocupados porque, com parte dos empréstimos contraídos no exterior, a dívida sobe na proporção em que também sobe o dólar.

E desde fevereiro de 2015 a Petrobras não tem mais grau internacional de investimento. Se precisar renegociar dívidas, precisará pagar juros maiores.

Por fim, a ANP (Agência Nacional do Petróleo) anunciou nesta quinta-feira que, diante do corte nos investimentos e na produção, os royalties distribuídos – sobretudo para municípios fluminenses e para o Estado do Rio – caíram em 25% em 2015. Serão R$ 14 bilhões, ou R$ 3,5 bilhões a menos que no ano anterior.

Mais uma vez, menos dinheiro para o setor público atrelado ao petróleo, menor orçamento e um êmbulo suplementar na máquina da recessão.

FOTO: Fábio Motta/Estadão Conteúdo