Economia

O poder de compra no futuro depende do fim da crise política


Três índices de inflação subiram em setembro e devem encerrar 2015 em alta. A expectativa ainda é de pressão nos preços em 2016, mas seu impacto pode mudar de acordo com os sinais de Brasília


  Por Rejane Tamoto 07 de Outubro de 2015 às 17:41

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


A expectativa de que os preços da economia ficassem, gradualmente, mais comportados neste segundo semestre e de que a inflação oficial chegasse perto do centro da meta de 4,5% ao ano em 2016 foi construída e desconstruída de acordo com os sinais de Brasília. Ora elas apontam para a aproximação de um acordo do governo com o Congresso para o ajuste fiscal, ora sinalizam rupturas. 

A manutenção dos vetos às pautas-bombas, os pedidos de impeachment que se acumulam e as negociações em torno da aprovação de medidas provisórias e emendas constitucionais para equilibrar o Orçamento do governo. Esses são os temas que continuam cercados de incertezas.

Os efeitos dessas incertezas no mercado financeiro atingiram o auge em setembro, quando o dólar atingiu a marca de R$ 4,10. Isso, apesar de ajudar as empresas exportadoras, influencia negativamente os preços da economia, elevando a inflação. 

Outubro começou com o esfriamento dos ânimos, com uma reforma ministerial do governo e declarações da agência de classificação de risco Moody's de que a nota do Brasil será mantida até o ano que vem.

Isso trouxe um pouco de calma e - somado aos dados de que a economia dos Estados Unidos não está crescendo num ritmo tão pujante - ajudou o dólar a voltar para abaixo de R$ 4. 

Mas o fato é que as projeções para a inflação ficaram muito dependentes dessa cadeia de acontecimentos, e se distanciaram do centro da meta de 4,5% ao ano para 2016 - que era o principal objetivo do Banco Central neste ano. Agora, espera-se que a inflação fique perto desse número apenas em 2017 e 2018. 

Em setembro, houve aceleração de três índices, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), o INPC (Índice de Preços ao Consumidor) e o IGP-DI (Índice Geral de Preços - Mercado). 

O INPC acelerou em 0,51% no mês passado e acumulou alta de 9,90% em 12 meses.

A inflação oficial medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,54% em setembro e acumula alta de 9,49% em 12 meses até setembro.

A expectativa é de que o índice encerrará este ano acima do teto da meta de 6,5% ao ano, que equivale ao centro de 4,5% mais dois pontos de tolerância. A projeção do relatório Focus é que o IPCA fique em 9,53% no fim de 2015. 

"Com o aumento da gasolina, que aparecerá no índice de outubro, acredito que o IPCA termine o ano em 9,7%", diz Heron do Carmo, professor da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo) e pesquisador da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).

Ele disse que em 2016 o índice pode voltar a ficar em torno de 6%, como tem ocorrido nos últimos anos desde 2010. Para Carmo, o governo precisa resolver o problema fiscal para trazer a inflação para o centro da meta, já que o efeito do câmbio já está na conta. 

"O acerto de preços relativos é bem vindo com a taxa de câmbio. O problema que vivemos hoje é o impasse político em torno do ajuste, que deve ser feito com o corte de gastos. Talvez não dê para escapar do aumento de impostos não-inflacionários. O importante é que o ajuste ocorra pelo fiscal e não pela perda do poder de compra", diz. 

Em 2016, a estimativa do Focus para o IPCA já passou de 5,58% ao ano, há quatro semanas, para 5,94% no relatório divulgado na última segunda-feira (05/10). 

LONGE DA META EM 2016

A avaliação é de que o IPCA não se aproxima mais do centro da meta em 2016 por diversas razões, como o próprio repasse da alta do dólar nos preços da economia, a expectativa de elevação de impostos e a própria inércia (o efeito da inflação passada para os preços atuais e futuros).

O Banco Central, que havia se comprometido a trazer a inflação para perto do centro da meta ou para 4,8% em 2016, em junho, também revisou essa projeção para 5,4% em setembro. 

"A expectativa para a inflação dos anos posteriores (2017 e 2018) ainda estão em patamar razoável. Então, se esse descolamento inicial de expectativas de 2016 for para as projeções de 2017, o Banco Central deve se preocupar", diz Samuel Kinoshita, sócio e economista da MVP Capital, uma das instituições que participam do top 5 (grupo das cinco casas que mais acertam as estimativas).

Para ele, O IPCA encerra este ano em 9,80%. A estimativa para os índices de atacado IGP-DI (Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna) e IGP-M (Índice Geral de Preços - Mercado) é que fiquem próximos de 8,5% no fechamento de 2015.

A alta do dólar afetou principalmente esses índices calculados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), cujas formações têm forte participação do IPA (Índice de Preços por Atacado), que mede os preços de produtos agropecuários e industriais.

O IGP-DI subiu 1,42% em setembro, ante alta de 0,40% em agosto. Em 12 meses acumulou 9,31%. 

O fato é que o dólar influencia, em primeiro lugar, a inflação do atacado. Posteriormente, o aumento pode ou não ser repassado pelo varejo.

O que deve conter um pouco esse repasse, na opinião de economistas, é justamente a recessão econômica, que já elevou a taxa de desemprego e reduziu as vendas do varejo e a produção da indústria

"O efeito do dólar deve ser atenuado pelo cenário recessivo, mas a desvalorização do real foi forte. Assim, essa transmissão para a inflação será significativa. Mas precisamos acompanhar a trajetória da taxa de câmbio", afirmou o economista da MVP Capital. 

Emílio Alfieri, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), diz que a incerteza sobre o desfecho da crise política ainda pode influenciar a cotação do dólar para cima - e ameaçar a inflação. 

"No período de 12 meses, que é aquele que indica uma tendência, o IPCA desacelerou para 9,49% ante 9,53% em agosto. Se as incertezas da crise política continuarem a influenciar o dólar, a inflação do atacado pode acabar indo para o varejo e atrapalhar essa desaceleração no aumento do IPCA", afirmou. 

A indefinição sobre o ajuste fiscal atrapalha o trabalho do Banco Central, que já elevou os juros a um patamar alto, de 14,25% ao ano para combater a inflação. 

A Tendências Consultoria espera que o IPCA encerre este ano em 9,60%, mas que fique em 6,5% ao final de 2016.

Para o ano que vem, a expectativa é ainda de aumentos nos preços administrados, com mais dois reajustes de combustíveis, considerando que a Petrobras terá de repassar a alta do dólar ao consumidor, até mesmo por estar enfrentando problemas de caixa.

Além disso, Márcio Milan, analista da Tendências Consultoria, diz que espera elevação de R$ 0,15 na Cide (imposto que incide sobre combustíveis).

"Revisamos a projeção para os preços de energia, com uma alta média de 12% no ano que vem, considerando as tarifas da bandeira amarela", diz. A instituição trabalha com a projeção de R$ 4,20 para o dólar em 2016. 

"Entendemos que a trajetória de inflação depende do Banco Central. No entanto, é preciso sintonia com a política fiscal. À medida que o ajuste se dá pelo fim de políticas heterodoxas como o incentivo ao crédito a taxas subsidiadas, a ideia é que as pressões sobre a inflação sejam reduzidas", diz. 

Milan diz que a perspectiva é que a inflação fique em 4,7% em 2017 e caia para 4,5% em 2018. 

Segundo o analista, as incertezas sobre o ajuste fiscal influenciam para cima as projeções para a taxa básica de juros (Selic), que hoje é de 14,25% para 2015 e de 12% para o fechamento de 2016. “Nosso número tem um viés de alta. E o movimento de redução de Selic pode ser menos intenso do que o mercado espera no ano que vem”, afirma.

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