Economia

"O Brasil está despreparado para o novo modelo de comércio"


Em palestra na ACSP, o diplomata Rubens Barbosa defende maior mobilização dos empresários brasileiros e a elevação de status do setor para o país dar as cartas no comércio mundial


  Por Inês Godinho 27 de Abril de 2016 às 08:00

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


O que se entendia por comércio exterior até dez anos atrás está agonizando. O mundo dos grandes acordos multilaterais, intermediados pela Organização Mundial do Comércio (OMC) e regidos por negociações de tarifas e controle de fronteiras, vem sendo ocupado pelos interesses de cada país, muito mais preocupados com pactos regionais e regulamentação. 

“O Brasil se isolou e está despreparado para atuar nesse novo modelo de comércio internacional, assim como o Mercosul.” A análise foi feita pelo embaixador Rubens Barbosa durante palestra na Associação Comercial de São Paulo (ACSP) nesta terça-feira (26/04). 

Especialista no tema e presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, Barbosa lembrou que dos 400 acordos firmados nos últimos 10 anos, não mais que cinco envolveram o Brasil e o Mercosul.

O maior de todos, o Acordo de Associação Transpacífico (TPP), que reúne inclusive Peru, Chile e México, já é responsável por 40% do movimento do comércio global.

“O modelo de desenvolvimento baseado em política industrial fracassou e muitos empresários brasileiros estão se dando conta disso”, disse.

PADRONIZAÇÃO E TRANSPARÊNCIA

Quando fala em novo modelo, Barbosa cita as questões regulatórias internacionais que se tornaram imperativas e às quais o país se recusa a endossar por motivos ideológicos –padronização dos produtos, proteção do consumidor, regras de investimento, competitividade, transparência, barreiras técnicas e sanitárias.

São os temas atualmente à mesa das grandes negociações comerciais do mundo. Não se discute mais tarifa, é zero.

Para o especialista, a ampliação da presença brasileira no mercado externo diante de tal cenário “está muito mais na mão dos empresários. Está na hora de mudar a mentalidade e parar de ficar à espera de o governo dizer o que fazer e quanto vai dar de subsídio. Não existe mais dinheiro para isso.” 

E também segundo Barbosa, não existe mais clima no mercado externo. O Brasil começa a ser cobrado duramente pela excessiva proteção à industrial local, a começar pela automobilística.

MEDIDAS INADIÁVEIS

Para começar a mudar seu status internacional, o diplomata indica dois passos obrigatórios. “O comércio exterior precisa fazer parte da estratégia de crescimento do país; até hoje, foi apenas o primo pobre da economia nacional”, disse. “Os empresários brasileiros precisam parar de olhar só para o mercado interno e se inserir no mundo.”

E para isso, será preciso tirar o setor de sua subalternidade na organização econômica brasileira. “Falta construir uma estrutura decisória para o comércio exterior que seja ligada diretamente à Presidência da República. Atualmente, a área ocupa uma posição de terceiro escalão no Ministério de Desenvolvimento e Comércio.” 

Barbosa defendeu que, para que isso aconteça, será necessária a atuação de um grupo organizado em defesa do comércio exterior. “Temos que nos inspirar no modelo americano e inglês. São os empresários quem dizem o que querem no setor e os governos providenciam.”

Como exemplo, citou a situação positiva do agronegócio brasileiro. “Funciona exatamente porque se desenvolveu sem depender da influência do governo e dos seus investimentos.” 

JANELA DE OPORTUNIDADE

Para o diplomata, o Brasil vive um momento delicado. Dois acordos decididos recentemente representam alto risco para a pauta de exportação do país, o da China com a Austrália e o da União Europeia com os Estados Unidos.

“Há uma janela de oportunidade de um ano e meio, até esses acordos se firmarem. Depois disso, o país enfrentará dois competidores com vantagem sobre nossos principais produtos.” 

Na visão de Alencar Burti, presidente da Facesp e da ACSP, “no Brasil, o comércio exterior está submetido a uma legislação do século 19 tendo que competir com quem está no século 21.”

A palestra de Rubens Barbosa foi uma iniciativa do Conselho de Economia da ACSP em conjunto com o Exporta, São Paulo, programa da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp) e da São Paulo Chamber of Commerce/ ACSP.