Economia

Meirelles e Ilan 'vendem' Brasil a investidores


As ações recentes na área macroeconômica são importantes para que o Brasil volte a entrar no foco dos investidores estrangeiros como um potencial local para alocação de recurso


  Por Estadão Conteúdo 18 de Janeiro de 2017 às 13:30

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


A quarta-feira, 18, é o dia mais importante para o Brasil em Davos. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, estarão frente a frente com investidores interessados em investir no Brasil Business International Group (Big).

Como é fechado, o encontro promovido pelo Fórum dá espaço para que os interessados no País questionem diretamente o governo e cobrem ações também para que direcionem seus recursos ao Brasil.

As ações recentes anunciadas pelo governo brasileiro na área macroeconômica, elogiadas pelo mercado financeiro e observadores internacionais, são importantes para que o Brasil volte a entrar no foco dos investidores estrangeiros como um potencial local para alocação de recursos.

Não há dúvida dentro do governo, no entanto, de que esse esforço, que gera insatisfação da sociedade doméstica em alguns pontos e é visto no exterior apenas como pavimentação de um longo caminho a ser percorrido, é um só passo. O grande impulso da economia virá mesmo do desenvolvimento da infraestrutura do País.

Assim que o presidente Michel Temer assumiu o Palácio do Planalto enviou logo ao exterior seus ministros dessa área para "vender o Brasil". "Vender, vender, vender. Essa a missão dos governantes brasileiros desde que o presidente assumiu", disse uma fonte do governo ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real do Grupo Estado.

Nos Estados Unidos, Europa e Japão, eles foram incumbidos de mostrar que o País estava em outras mãos - bem diferentes do governo anterior - e que agora as regras do jogo seriam mais claras e sem qualquer restrição a margens de lucros maiores.

Também é a primeira vez, por exemplo, que o Ministério de Minas e Energia participa do Fórum Econômico Mundial de Davos. Numa breve passagem pelo evento, de apenas dois dias, o ministro Fernando Coelho Filho teve 12 reuniões com presidentes de companhias do setor, como Shell, Total, Iberdrola, Maersk.

PIB

A previsão da equipe econômica é de um crescimento do País de 2% no quarto trimestre deste ano na comparação com o mesmo período do ano passado.

De acordo com Meirelles, indicadores já mostram que a economia começou sua trajetória de retomada e que o Produto Interno Bruto (PIB), apesar de ainda crescer pouco na média do ano, começará a mostrar sua força no segundo semestre.

"Mas isso só ocorrerá mesmo se conseguirmos atrair todos os investimentos que vêm nos prometendo os investidores que temos consultado no exterior. Eles parecem animados com o novo Brasil e precisamos que essa intenção se transforme em realidade", disse.

GLOBALIZAÇÃO

Meirelles acredita que o Brasil poderá tirar proveito da globalização depois que fizer suas reformas e ampliar sua produtividade.

Em declaração durante coletiva de imprensa em Davos, ele avaliou que o País está num estágio diferente perante países avançados e não consegue aproveitar tanto o ganho de uma integração global. Ele reforçou o que disse mais cedo durante um painel sobre a crise da classe média nos países desenvolvidos: "Essa classe média está incomodada por não dividir os ganhos da globalização."

Meirelles comentou que a classe média dos países mais ricos está incomodada em relação à percepção de que não estão dividindo os ganhos da globalização. "No Brasil agora o desafio é fazer as reformas. O mais importante para o Brasil agora é criar empregos", afirmou.

No debate mais cedo, Meirelles, avaliou que a globalização é um fenômeno que, para o mundo como um todo, trouxe benefícios, tirando mais gente da pobreza e levando para a classe média. Ele participou do painel "Comprimida e irritada: Como reparar a crise da classe média".

"Evidentemente que globalização trouxe pessoas da classe baixa para a classe média. Isso é extremamente positivo", considerou, acrescentando que este é um debate que gira mais em torno das economias desenvolvidas.

Durante sua fala, ele citou que, nos últimos 25 anos, a classe média dobrou no Brasil. Disse também que, nos últimos anos, o País passou por uma recessão, mas que agora voltará a crescer. O ministro da Fazenda brasileiro avaliou também que a globalização tem gerado vencedores e perdedores. Para muitos especialistas, é o movimento dos perdedores que vem gerando inquietação da classe média.

O assunto foi colocado em pauta depois de algumas surpresas, principalmente políticas, vistas no ano passado e que foram basicamente capitaneadas pela classe média.

A decisão pela saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), a vitória do republicano Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, a vitória do não na Itália num referendo que propunha a maior reforma constitucional do país nos últimos 70 anos e a ascensão do populismo em várias regiões do globo.

O ministro das Finanças italiano, Pier Carlo Padoan, resumiu durante sua fala no painel o que foi visto nos últimos meses: "A classe média está desiludida com o futuro, não enxerga a possibilidade de um mercado de trabalho para todos, para seus filhos, e optou por dizer não às propostas sugeridas por seus líderes."

Padoan, inclusive, era um dos mais cotados para ser o primeiro-ministro italiano, depois que Matteo Renzi renunciou ao cargo ao perder no referendo de dezembro.

Para Meirelles, é preciso deixar clara a diferença entre problemas que surgem de algumas reações à globalização versus reações mais populistas que se aproveitam da situação. Ele citou como exemplo o que ocorreu depois da Primeira Guerra Mundial, quando a Europa passava por um período de consequências negativas e movimento populistas se aproveitaram da situação para emergirem.

BCs

Questionado sobre se os bancos centrais do mundo podem ser considerados também culpados pela crise da classe média atual, com a disponibilidade de recursos muito baratos, Meirelles disse que "eles são". Ele lembrou que essas instituições percorrem diferentes caminhos ao longo do tempo e considerou que a situação atual pode ser avaliada como "calma". "Os BCs agora não têm que lidar com crise de liquidez e de crédito, mas lidam com inflação baixa", considerou.

SELIC 

O Banco Central elegeu agora quedas de 0,75 ponto porcentual da Selic como o "novo ritmo" de afrouxamento monetário, conforme disse Goldfajn, em Davos. "Entramos num novo ritmo, 0,75 ponto porcentual é o nosso novo ritmo. Mas como vocês sabem, um novo ritmo pode mudar", afirmou.

Se houve necessidade de mudança, de acordo com Goldfajn, isso se dará por causa de expectativas de inflação (do BC, e não apenas do mercado), do nível de atividade e também por causa de fatores de risco, externos e domésticos. "Tudo isso será levado em consideração. Entramos num novo ritmo", reforçou.

Na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu por unanimidade baixar a taxa básica de juros para 13,00%, quando a expectativa majoritária do mercado era de uma redução de apenas 0,50 ponto porcentual (que levaria a Selic para 13,25% ao ano).

Ilan Goldfajn disse que o Brasil está passando por um processo de reformas, citou a área fiscal e microeconômica, também mencionou o interesse em investimentos em infraestrutura. "Do lado do BC, temos trabalhado em reduzir a inflação", afirmou. Ele argumentou que o País passou por um choque e que, ao mesmo tempo que houve uma queda da atividade também foi vista uma elevação da inflação. Este, de acordo com ele, foi o resumo de 2016. "Agora estamos em uma posição melhor do que no ano passado", comparou.

O presidente do BC enfatizou sua tarefa de levar a inflação de 11% em 2015 para 6,3% em 2016. "Isso é uma grande queda e estamos trabalhando nas expectativas." Segundo ele, o BC lutava contra uma inflação elevada e esse trabalho precisa ser feito de forma contínua. "Reduzimos a Selic porque ancoramos as expectativas e a decisão de intensificar veio porque as evidências acumuladas mostraram que poderíamos ir além de 0,5 pp para 0,75 pp", afirmou.

METAS

Ilan Goldfajn disse a jornalistas em Davos que a instituição não trabalha com uma meta para os juros. Ele fez essa observação quando questionado sobre até que nível poderia ocorrer a queda da taxa básica depois da surpresa com o corte de 0,75 pp da Selic, para 13% ao ano, na semana passada.

"Tenho falado e escrito que, com a inflação ancorada, temos espaço para reduzir juros e contribuir para o crescimento econômico. Não é o único fator, é um entre vários e vamos continuar avançando nesta linha", afirmou. "Mas não temos metas para taxas de juros, apenas para inflação", disse em relação à taxa de 4,5% que busca atingir no fim deste ano.

TRUMP

Sobre possíveis impactos negativos do governo de Donald Trump sobre o Brasil, ele ressaltou que a posse apenas se dará no próximo dia 20 e que medidas protecionistas afetam mais países que têm mais relação direta com os Estados Unidos. "Nosso risco é mais indireto", observou. Sobre o aproveitamento do processo de globalização, ele disse que o Brasil é um país relativamente fechado. "Podíamos ter mais benefícios se fôssemos mais abertos", considerou.

Foto: Agência Brasil