Economia

Lojistas enfrentam alta de preços e falta de produto


E as incertezas sobre a capacidade financeira das famílias em meio à pandemia do novo coronavírus fazem deste final de ano um dos mais instáveis e imprevisíveis dos últimos tempos


  Por Fátima Fernandes 12 de Novembro de 2020 às 07:00

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


A 45 dias do Natal, os lojistas brasileiros têm de lidar com um dos piores cenários para qualquer empreendedor: a instabilidade e a imprevisibilidade dos negócios.

No momento em que deveriam receber as mercadorias para vender em dois grandes eventos, a Black Friday e o Natal, os comerciantes travam discussões exaustivas com fornecedores.

O principal motivo é o aumento de preços em proporções que remetem a 2015, um ano antes do impeachment da presidente Dilma Rousseff, quando a alta do dólar chegou a 42%. Neste ano, o dólar subiu 32%. 

A falta de matérias-primas e produtos prontos é outro problema enfrentado pelo comércio, justamente quando se aproxima o melhor período de vendas do ano.

E como será este final de ano? As famílias terão renda para ir às compras? Eis outra dúvida que tem tirado o sono dos comerciantes.

“A pressão está fora do normal. A indústria apresenta reajustes absurdos, de até 50%”, afirma José Domingos Alves, superintendente da Lojas Cem.

“Não pagamos o que eles pedem, mas não compramos pelo preço que queremos.”

Os eletro-portáteis, como liquidificadores, ferros elétricos e misturadores, diz ele, são os que apresentam os maiores aumentos, seguidos por televisores, produtos de informática, móveis e colchões.

A situação se repete em todas as áreas do varejo.

Os aumentos de preços de matérias-primas utilizadas pelas confecções subiram de 10% a 40%, de acordo com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do Bom Retiro.

“As negociações estão muito difíceis, principalmente no caso de tecidos importados”, diz Nelson Tranquez, vice-presidente da CDL, e diretor da Loony, confecção especializada em jeans.

O preço do tecido jeans, de acordo com ele, subiu de 25% a 30% depois da pandemia.

No atacado, os preços de calças jeans da Loony custam R$ 89 e R$ 99, dependendo do modelo. Como tem tecido em estoque, diz Tranquez, dá para manter os preços.

“Vamos tentar segurar o máximo que der, até porque o consumo continua fraco.”

O fio de algodão que custava R$ 12 o quilo antes da pandemia, agora custa R$ 23. O preço da caixa de papelão subiu entre 20% e 30%.

O levantamento foi feito por Tito Bessa, presidente da Ablos, associação que reúne as lojas satélites de shoppings, e sócio-diretor da rede TNG.

“A cadeia toda está comprometida. Os preços subiram e há falta de produtos.”

ALIMENTOS

Os alimentos são disparadamente os produtos que mais tiveram aumentos de preços neste ano.

Supermercadistas e donos de padarias informam que novas listas de preços são apresentadas quase todo o mês pelos fornecedores.

Com 13 lojas, a rede Veran criou um índice interno de custos, e o número deste ano chega a ser aproximadamente o triplo do da inflação oficial do governo.

De janeiro a outubro deste ano, a inflação de custos do supermercado bateu em 12,79%. O IPCA dos últimos 12 meses terminados em outubro foi de 3,9%.

Os custos de produtos de açougue subiram 29,47% de janeiro a outubro deste ano no Veran, de frutas, legumes e verduras, 11,5% e, de padaria, 19,69%, por exemplo.

“O pior é que não vejo recuo, podendo ocorrer no caso de um ou outro produto, como aconteceu com o leite. Faz tempo que não existe uma pressão de custos como esta”, afirma Sandro Benelli, presidente do Veran.

Uma das justificativas pelos elevados reajustes é a alta de preços das commodities agrícolas no mercado internacional. A outra é a subia do dólar.

Alguns produtos que compõem o IPCA tiveram grandes elevações de preços nos últimos 12 meses terminados em outubro.

O preço do arroz subiu 60,8%, do feijão carioca rajado, 47,5%, do tomate, 40%, e do contrafilé, 57%.

No caso dos importados, alguns itens chegaram a dobrar de preço.

O presunto cru espanhol vendido na padaria Nova Charmosa, em Perdizes, por exemplo, custava R$ 99 o quilo antes da pandemia. Agora, R$ 180.

O preço do quilo da muçarela subiu de R$ 50 para R$ 70.

As listas de preços de fornecedores da padaria exibem reajustes de até 95%, como é o caso de plástico filme.

Os proprietários da Nova Charmosa também estão com dificuldade para repor alguns tipos de embalagens, além de misturas para a fabricação de produtos.

ELETROELETRÔNICOS

Apesar de o consumidor já sentir no bolso a alta de preços de eletroeletrônicos, a inflação neste grupo de produtos é menor do que a do setor de alimentos.

A alta de preços de aparelhos eletrônicos foi de 1,2% nos últimos 12 meses terminados em outubro. No caso de máquina de lavar roupa, de 3,4% e, de fogões, de 8,5%.

“Muito provavelmente, os grupos varejistas deste setor estão segurando os preços porque esses produtos não são de primeira necessidade”, afirma Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores.

O consumidor deverá sentir os reajustes de preços, no caso desses produtos, na medida em que os estoques das lojas forem acabando.

AUXÍLIO EMERGENCIAL

Para Silveira, não há dúvida que o período de Natal deste ano será chocho para os comerciantes.

E, não somente por conta da alta de preços e da falta de produtos, mas também pela indefinição em relação ao auxílio emergencial oferecido pelo governo aos mais pobres.

“Não há visibilidade no que vem pela frente. As previsões estão mais difíceis até para o curtíssimo prazo”, diz.

Os aumentos de preços, de acordo com Silveira, estão diferenciados e desproporcionais.

“E quando há incerteza em relação a preços, há incerteza em relação a volumes vendidos.”

Parte do aumento de preços de alimentos, em sua avaliação, foi sustentada pelo auxílio emergencial, que não se sabe se será estendido para 2021.

Se não houver mais injeção de recursos na economia, diz ele, é provável que a pressão sobre os preços diminua.

Com tanta incerteza no cenário macroeconômico, diz Silveira, fica difícil fazer projeções, mas, infelizmente, existe uma certeza: muitas lojas ainda devem fechar as portas até o início de 2021.

 

IMAGEM: Fátima Fernandes/DC





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