Economia

Investimento em infraestrutura recuou ao patamar de 2003


É de apenas 1,5% do PIB, a mesma proporção de 14 anos atrás, segundo o economista Venilton Tadini (foto), em palestra na ACSP. Ele é o presidente da ABDIB, entidade das empresas do setor de infraestrutura


  Por João Batista Natali 25 de Outubro de 2017 às 12:48

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Em dez anos, os investimentos anuais em infraestrutura, com recursos da União, caíram de R$ 31 bilhões para R$ 25 bilhões. Mas as empresas estatais não seguraram essa tendência de queda.

Os investimentos delas, no mesmo período (até outubro de 2017) e também em infraestrutura, caíram de R$ 40 bilhões para R$ 30,3 bilhões.

Com a persistência dessas curvas, o Brasil se afasta ainda mais de seus principais parceiros internacionais. Estará fazendo “um voo de galinha com asas cada vez mais curtas”.

É o que alertou nesta quarta-feira (25/10) o economista Venilton Tadini, professor da Fundação Getúlio Vargas e presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB).

Ele fez palestra no Conselho de Economia (COE) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

O conselho é coordenado pelo economista Roberto Macedo, e da sessão também participou Alencar Burti, presidente da ACSP e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp).

Tadini não entrou em questões controvertidas, como o fato de o presidente Michel Temer ter aberto mão da privatização do aeroporto de Congonhas, em troca do apoio dos deputados do PR para o arquivamento da segunda denúncia apresentada contra ele pela Procuradoria Geral da República.

“O que o governo precisa definir é se a Infraero será ou não privatizada”, disse ao Diário do Comércio. Se for o caso, ela poderia ser preservada com algum conteúdo regulatório de sua área.

Em sua exposição de 90 minutos Tadini insistiu nos investimentos insuficientes que a infraestrutura tem merecido da área governamental.

Não há um planejamento estratégico, disse ele.

A questão fiscal tem sido enfrentada sem o foco desse tipo de investimento, o mesmo ocorrendo com relação ao câmbio, fator preponderante quando se trata de atrair investidores externos.

AS CURVAS SEMPRE DESCENDENTES

Para os padrões de um país com as carências brasileiras, afirmou, os investimentos em infraestrutura – portos, estadas, aeroportos, telecomunicações, mobilidade urbana, saneamento básico, produção e transmissão de eletricidade – deveriam estar em torno de 5% do PIB.

Uma percentagem inferior, de 3%, seria necessária para cobrir a depreciação da infraestrutura já existente.

Os atuais números estão bem longe disso. Representavam 1,5% em 2002. E permanecem nos mesmos 1,5% em 2017, depois de terem chegado a 2,4% entre 2012 e 2014.

Esse retrato é irrisório se comparado aos emergentes. A China é de longe o país que mais investe, com 13,4% do PIB. As percentagens são de 6,2% no Chile, 5,8% na Colômbia e 4,5% na Índia. Quem mais se aproxima dos brasileiros são as Filipinas, com 3,6%.

Com isso, num ranking que relaciona 138 países, o Brasil ocupa o lugar de número 116 quando se trata de infraestrutura como um todo.

Está no lugar 114 em portos, 111 em rodovias, 93 em ferrovias e 91 em energia elétrica.

As duas posições mais elevadas que o país ocupa são relativamente modestas. É a de número 48 em telefonia fixa, e 51, em telefonia celular.

INVESTIMENTOS PRIVADOS

Parte desses investimentos são obviamente privados. Mas a participação estatal é ainda preponderante, e o transporte rodoviário é um bom exemplo disso.

Apenas 10% das rodovias pavimentadas são administradas e mantidas por empresas privadas. E o poder público é responsável por 98,6% da malha rodoviária em expansão.

Entre 22 países europeus, o setor público de infraestrutura é preponderante, com mais de 50%, em apenas quatro países: Eslovênia, Malta, Hungria e Grécia. Nos demais, a proporção é bem inferior. O setor público responde por menos de 20% nos investimentos na Irlanda, Bélgica, Espanha e Alemanha.

LINHA VERMELHA E METRÔ

Venilton Tadini discorreu sobre experiências de sua própria carreira profissional. A mais bem-sucedida foi a Linha Vermelha, via expressa do Rio de Janeiro.

Entre a concepção e a entrega, o prazo foi de apenas oito meses, em 1991, com financiamento do BNDES, e a seguir do Banco do Brasil e do Tesouro.

Citou também o caso do metrô de Brasília, também no início dos anos 90. Ele tinha sido visto como uma obra desnecessária, em razão do adensamento urbano pequeno da cidade.

A lógica em termos de transporte, no entanto, é outra. O metrô passou a disciplinar o próprio adensamento.

Também mencionou o metrô de São Paulo, que partiu da estaca-zero ao lado da Cidade do México. Mas enquanto a capital mexicana tem hoje 235 quilômetros de rede, em São Paulo a rede chega a 72 quilômetros.

“O Estado teve durante seis anos um orçamento superavitário, e mesmo assim construiu apenas nove quilômetros de metrô”, concluiu.

FOTO: Thaís Ferreira/Diário do Comércio