Economia

Inseguranças sanitária e econômica dificultam retomada da atividade


Incerteza com andamento da pandemia e da vacinação, mais a queda na confiança do consumidor pela perda na renda, sinalizam cenário difícil, avalia o Comitê de Avaliação de Conjuntura da ACSP


  Por Karina Lignelli 30 de Março de 2021 às 07:01

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


De um lado, o hiato do auxílio emergencial, o aumento nos indicadores de desemprego e quebradeira de empresas, em especial as pequenas, e a consequente diminuição da confiança do consumidor. 

Do outro, o aumento expressivo de casos e mortes por covid-19, que levaram à adoção de medidas restritivas por vários estados, ao mesmo tempo em que a vacinação caminha a passos lentos.  

Um cenário de incertezas e insegurança. É assim que a economia brasileira finaliza o 1° trimestre de 2021, na percepção de empresários e economistas que participaram da primeira reunião on-line de 2021 do Comitê de Avaliação de Conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), realizada na quinta-feira (25/03).  

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Com o endividamento do governo relativo às medidas emergenciais de combate à pandemia beirando os 90%, a distensão do auxílio e do crédito são desafios importantes nesse momento, disse um economista presente..

A inflação acelerada, principalmente nos alimentos (5,2% até fevereiro), que levou o BC a subir os juros em 0,75%, é motivo de preocupação. Além do aumento de demanda, há pressão nos preços devido à alta do petróleo, das matérias-primas básicas e do câmbio, cada vez mais repassados aos preços finais. 

Os índices de desemprego bastante elevados, batendo em 14%, mais a queda na massa de rendimentos (-6,5%), levaram a um recuo significativo nos índices de confiança em março para trabalhadores e também empresários que, segundo o economista, têm enfrentado 'um conjunto de incertezas' em relação à pandemia.

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Em sua avaliação, as políticas erráticas de isolamento levaram a um cenário econômico complicado, com o consumidor manifestando queda importante e generalizada na confiança, devido ao temor pela perda do emprego e da piora das expectativas - o que sinaliza mais cautela nos próximos meses, disse. 

De acordo com outro economista presente à reunião on-line, o que mais preocupa é a 'ignorância' das medidas restritivas adotadas, devido às características próprias de algumas capitais brasileiras 

"Só em São Paulo, há 1.728 favelas com mais de 2 milhões de habitantes, 1.759 cortiços com quase 1 milhão, 450 mil pessoas em habitações coletivas... Quando se sugere isolamento ou lockdown numa situação dessa, parece que estão falando da Suíça, e não do Brasil", destacou.

'FICÇÃO ESTATÍSTICA'

Somados ao fim do auxílio emergencial, esses elementos alimentam as projeções para a indústria e o varejo no 2° trimestre. Sem vender, lojistas já adiam pedidos e tentam postergar pagamentos.

Isso afeta diretamente a indústria, que já mostra sinais claros de desaceleração, segundo um representante do setor (a pedido da ACSP, os nomes dos participantes da reunião de Conjuntura não são divulgados).

Nos 12 meses encerrados em janeiro de 2021, a indústria recuou 4,3%, mas registrou alta de 2% no mês ante igual período de 2020. Já o varejo subiu 1%, ainda sob efeitos do auxílio e das vendas de fim de ano.  

O representante do setor lembra porém que, de janeiro até agora, os dados mudaram completamente, pois o cenário era diferente, com menos restrições. Em março, já se percebe desaceleração e perda de fôlego.  

"Os efeitos virão agora, pois houve uma queda muito forte da atividade. Então, teremos um 1° trimestre negativo", afirmou. Já o auxílio emergencial vai vir 85% menor que o de 2020, então não haverá impacto na demanda, lembrou. "E há as obrigações postergadas para 2021, outro grande desafio desse arrefecimento." 

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Já os serviços, caracterizados pelo atendimento presencial, continuam como os mais afetados pelos protocolos de isolamento, caindo 4,7%, em 2020, e 8,3% em 12 meses, disse um dos economistas.

Ele mencionou a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), que relatou que só o setor perdeu 1 milhão de empregos, e já há temor de quebradeira geral entre os donos desses estabelecimentos. 

"A situação é tão preocupante que representantes de grandes empresas do varejo se manifestaram, cobrando a reedição dos programas de redução de salários e suspensão de contratos para não demitir", afirma. 

Com tudo isso, mesmo com a projeção de alta de 0,2% no varejo restrito no acumulado de 12 meses até março, ao fim desses primeiros três meses do ano a perspectiva é de desaceleração.

Já o PIB, projetado com base no Relatório Focus, do Banco Central, deve ficar positivo em 3,2%, a princípio - uma espécie de 'ficção estatística', segundo o economista, pois a base de comparação de 2020 é baixa. 

"É um momento de grande incerteza com o andamento da pandemia e da vacinação. A situação da economia não é nada boa, e há chance de acarretar queda no PIB já nesse primeiro trimestre", sinaliza. 

FOTO: Karina Lignelli 






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