Economia

‘Inflação deve perder fôlego a partir de abril’


Para o economista Heron do Carmo (foto), professor da FEA/USP, fim de efeito El Niño, menor pressão de commodities e crescimento do desemprego devem frear a alta de preços


  Por Fátima Fernandes 24 de Fevereiro de 2016 às 10:00

  | Editora do site Varejo em Dia


A economia brasileira vive uma situação paradoxal. Na medida em que a previsão de queda do PIB (Produto Interno Bruto) se acentua, a expectativa de inflação aumenta.

Segundo levantamento da FGV, divulgado nesta quarta-feira (24/02) 60,2% dos consumidores entrevistados preveem inflação acima de dois dígitos nos 12 meses a partir de fevereiro, menos do que em janeiro (61,2%).

Porém, quase metade deste contingente aposta em taxas acima de 12%, fatia que avançou no período. Apenas 3,4% acreditam em uma inflação que se restrinja à meta perseguida pelo governo, cujo teto é 6,5% ao ano.

Por faixas de renda, as famílias com ganhos mensais de até R$ 2,1 mil são as mais pessimistas em relação à inflação e determinaram a piora neste mês. A expectativa para os preços saltou de 11,6% em janeiro para 12,0% em fevereiro.

O Relatório de Mercado Focus, divulgado nesta semana, aponta para uma queda de 3,4% do PIB neste ano. Há quatro semanas, a projeção era de retração de 3%.

A prévia do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) atingiu 1,42% em fevereiro, 0,5 ponto acima da taxa de janeiro, de 0,92%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Normalmente, a inflação está mais relacionada com as políticas fiscal, monetária e internacional, clima, emprego. Numa economia enfraquecida, o que se espera é uma tendência de queda de preços. Se não há consumo, a inflação tende a perder força.

Não é o que se vê no Brasil neste momento. Por que? Existe um componente a mais além de todo o conjunto de fatores que, normalmente, tem relação com a inflação: a crise política.

“Isso explica a questão paradoxal de uma crise que se agrava em termos de atividade econômica com inflação em alta”, afirma o economista Heron do Carmo, professor da FEA/USP e conselheiro do Conselho Regional de Economia de São Paulo.

Esta fase de alta acentuada nos preços, porém, na sua avaliação, tem data para acabar: a partir de abril.

“Existe uma confusão entre IPCA e inflação. O IPCA é uma indicação da inflação. Na minha avaliação, há uma superestimação da inflação para este ano. Muito provavelmente, a inflação ficará abaixo do previsto pelo mercado”, diz.

O Relatório de Mercado Focus aponta para uma inflação de 7,62% neste ano e de 6% em 2017. Para Heron, a inflação em 2016 deve ficar mais próxima do teto da meta, em torno de 6,5%.

Veja os principais trechos da entrevista com o economista Heron do Carmo.

SOBRE A ALTA DO IPCA...

O IPCA subiu devido ao efeito do El Niño, que provocou muitas chuvas na região Sul do país e, como consequência, a elevação nos preços dos alimentos. Houve choque de preços de produtos hortifrutigranjeiros, reajustes de preços administrados e de tributos, desvalorização da taxa de câmbio. Em janeiro e fevereiro tiveram aumentos de preços de escolas. E tem também a questão política.

...TENDÊNCIA PARA A INFLAÇÃO...

A partir de abril a tendência é que o El Niño deixa de existir, com impacto importante sobre os hortifrutigranjeiros. Na medida em que o clima melhora, a produção aumenta e os preços caem.

No caso da taxa de câmbio, a perspectiva é que, com a mudança do cenário internacional, não ocorra uma alteração significativa. O mundo está passando por um processo deflacionário. Os preços das principais commodites estão caindo.

E, mesmo que os preços subam um pouco, na média, em dólar, estarão abaixo dos preços do ano passado. Se a taxa de câmbio ficar em R$ 4,30 não é algo que causará grande impacto na inflação. E tem ainda o efeito do desemprego, que deve aumentar, reduzindo o poder aquisitivo dos consumidores.

...PREÇOS DOS SERVIÇOS...

Com a diminuição do poder de compra dos brasileiros, os preços dos serviços, como cabeleireiros, médicos, costureiras, barbeiros, devem subir, porém, num ritmo menor. Isso vale também para restaurantes, aluguéis, serviços domésticos.

O excesso de demanda que havia agora já beira o excesso de oferta. Tudo isso contribui para deprimir os preços. Não é que os preços vão cair, mas haverá menor fôlego para aumentos.

...CRISE POLÍTICA...

Se houver encaminhamento da crise política, isto é, vamos supor que comece um processo de impeachment da presidente Dilma ou que haja um acordo do Legislativo para que algumas reformas, como a da Previdência, passem.

Isso pode levar à uma diminuição da instabilidade, melhorar a perspectiva econômica e do PIB, e resultar numa inflação menor. Quando foi aberto o primeiro passo do impeachment pelo Eduardo Cunha (presidente da Câmara), a avaliação foi positiva. Se a crise continuar, a democracia pode virar descrédito.

...DRIBLAR A ALTA DE PREÇOS..

 O lojista deve ficar atento e, se perder cliente, deve procurar saber a razão da perda. Para compensar a alta de preço, ele pode oferecer um serviço melhor, um pós-venda melhor, um atendimento melhor e ver a possibilidade de aumentar o seu mercado. Precisa rever processos, reduzir custos.

Às vezes, o lojista manda um vendedor embora e acaba ficando em uma situação pior. É claro que, às vezes, chega um ponto que não tem jeito, mas é bom pensar em treinamento.

Agora, o consumo esteve bem nos últimos anos, alguns empresários ainda têm gordura, pode mudar mix de produtos, procurar novos fornecedores.

...RECESSÃO QUE O PAÍS VIVE

A inflação não é o maior problema do país. Se ficar em 7,6%, como prevê o Relatório Focus, ainda assim não chega perto da inflação que o país já teve, de 100% ao mês.

Claro que inflação não é bom, mas, no momento atual, o problema é a queda do PIB. Em dois anos, o país pode ter uma queda de PIB de 8%, a maior da história. Tem empresa saindo do Brasil. Este é o lado sério.

Outro aspecto bastante doloroso dessa crise é o desemprego, que pode passar de 12%. Com um desemprego deste tamanho não dá para imaginar que a inflação continue crescendo em ritmo elevado.

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Foto: Divulgação