Economia

'Importante é arrumar a casa e manter o clima de confiança'


É o que afirma o economista Vladimir Fernandes Maciel, professor do Mackenzie, que nesta entrevista analisa como os brasileiros reagiram frente à crise


  Por Mariana Missiaggia 28 de Dezembro de 2018 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Estamos na reta final de 2018 e o desemprego elevado é uma das maiores preocupações no País. Com base em dados de outubro do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), faltam vagas para 12,2 milhões de pessoas, sendo que 4,7 milhões desistiram de procurar uma colocação diante da ausência de perspectivas

Entretanto, o mercado projeta a criação de 1,7 milhões de empregos em 2019 e mais 1,8 milhões de empregos para 2020 – setor público e privado (vagas formais e informais).

Em 2017, a renda média mensal do brasileiro foi de R$ 1,2 mil, de acordo com IBGE. Em São Paulo, o valor sobe para R$ 1,7 mil.

Nos últimos dois anos, a movimentação de alguns indicadores, como o controle da inflação e o leve crescimento do PIB foram fatores que impactaram diretamente no bolso e na perspectiva do consumidor. Mas, afinal, seriam esses os sinais para uma retomada gradual do consumo?

MACIEL, DO MACKENZIE: GREVE DOS CAMINHONEIROS INIBIU O CONSUMO

Conversamos com o economista e coordenador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica, Vladimir Fernandes Maciel, para entender como os brasileiros administraram suas rendas e gastos neste ano, quais serão os desafios financeiros de 2019 e o papel do novo governo para melhorar o desempenho da economia.

Faltando poucos dias para encerrar o ano, qual o balanço de 2018 em relação ao consumo?

O consumo ainda ficou abaixo do esperado. Não foi um tombo grande, mas esperávamos mais. Contudo, atribuo isso ao efeito da greve dos caminhoneiros, em maio. Aquele movimento afetou o consumo até a última ponta – pela falta de produtos e o encarecimento de vários itens, que não necessariamente, tiveram seus preços reduzidos. Foi algo muito imprevisível, que inibiu o consumo. Ninguém imaginaria uma greve daquela proporção.

Neste ano, foram inúmeras notícias relatando que o consumo das famílias estava perdendo o fôlego. O modelo de crescimento econômico puxado pelo consumo ainda é possível?

Não acredito. Tudo que poderíamos esperar do consumo das famílias já se esgotou. Elas se endividaram muito no ciclo anterior, especialmente com bens de consumo duráveis -são muitas prestações ainda a serem pagas.

Na sequência, houve uma queda na atividade econômica de emprego, que dificultou a capacidade de endividamento da população. Em seguida, veio a recessão e dificultou ainda mais todo o cenário.

Não há mais fôlego para recuperação de emprego e de renda, como havia antes da crise. Tudo isso impede o consumo de ser o carro-chefe da retomada econômica.

Os consumidores enxugaram a lista de compras, substituíram produtos e passaram a comprar em atacarejos. O que será determinante nesse próximo ano para que essas mudanças de hábito sejam modificadas?

Toda vez que a renda das famílias cai, como toda a crise pela qual passamos, a tendência é exatamente essa. Substituir, fracionar e diminuir para manter o consumo.

Ou seja, apertar o cinto sem doer tanto. É uma mudança conjuntural, a economia está retomando lentamente o nível de atividade e de emprego.

Porém, é importante destacar que índice de desemprego caiu apenas porque a informalidade cresceu e novas relações de trabalho  surgiram, como os motoristas do Uber.

São atividades que não oferecem uma renda estável, que não levará os brasileiros de volta ao patamar anterior. Portanto, esse comportamento irá predominar ainda por alguns anos.

Qual será o reflexo da recessão dos últimos anos no consumo em 2019? Como a posse do novo governo pode influenciar nisso?

O mais importante, neste momento, é não haver grandes sustos na economia. Pois, o clima de maior otimismo entre os empresários pode vir a se refletir em novas oportunidades de emprego, projetos de investimento produtivo e retomada de investimento em infraestrutura.

Tudo isso, porém, será balizado pelo setor privado. E provavelmente, o movimento será liderado pelo capital estrangeiro porque as empresas nacionais ainda estão muito endividadas.

O setor público não tem força para puxar o motor do crescimento econômico.

A esperança é de que em um ano, tenhamos a percepção de que a retomada finalmente engrenou e que 2019 seja superior a 2017 e 2018.

Tudo sinaliza que será um governo mais liberal, que vai trabalhar para o ajuste das contas, mesmo sem nenhum grande plano.

No entanto, algumas medidas econômicas já bastam para retomar a confiança. O importante é não fazer nada que assuste o consumidor, e arrumar a casa. Viemos de um baque muito grande, vagas de trabalho foram fechadas e não voltarão mais.

Há uma série de serviços que já apostam em um consumo colaborativo, desde aluguel de roupas até serviços de caronas. Estamos começando a repensar nossa relação com o consumo e o desperdício?

Gostaria muito de dizer que sim. Mas, repensar o consumo ainda é uma coisa restrita a um pequeno grupo de elite, de pessoas esclarecidas, conectadas com o mundo, descolado da massa. São pessoas em busca de um padrão de consumo menos cumulativo, mais sintonizado com a experiência. O Brasil é predominantemente pobre, a massa ainda precisa ter, construir patrimônio, ter moto, carro e afins.

FOTO: Pixabay e Reprodução de vídeo