Economia

'Imagino crescimento de 2,2% este ano. Ainda é pouco'


Para o economista José Roberto Mendonça de Barros, se a reforma da Previdência não for aprovada, o Brasil retorna à recessão


  Por Estadão Conteúdo 01 de Março de 2019 às 09:56

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


A aprovação de reformas estruturais, como a da Previdência, e o avanço nas concessões de infraestrutura devem definir se o Brasil vai entrar em um ciclo de crescimento sustentável a partir de 2020 ou voltar para a recessão, avalia José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Para o economista da MB Associados, o crescimento de 1,1% da economia em 2018 foi desanimador, sobretudo se comparado às experiências anteriores em que o País se recuperou de crises. Para 2019, ele espera crescimento de 2,2%. A seguir, trechos da entrevista.

Como avaliar o crescimento de 1,1% em 2018? O segundo ano após a crise não deveria ter sido de crescimento mais robusto?

É desanimador. No começo do ano passado, todo mundo esperava algo entre 2,5% e 3% de crescimento. O País saiu de uma recessão tão profunda e a experiência de crises anteriores era de saídas vigorosas, mas tivemos uma sucessão de decepções.

Ainda no primeiro trimestre, a demanda estava mais fraca e demorou para recuperar. Além disso, a greve dos caminhoneiros, em maio, e o enfraquecimento político do governo Michel Temer, que acabou não permitindo colocar em votação a reforma da Previdência, postergaram um maior fôlego na recuperação.

Havia uma onda de otimismo em relação a 2018. A dimensão da crise foi subestimada?

Sim. Um terceiro fator, que só o tempo foi capaz de mostrar, é que o colapso dos Estados era maior do que se imaginava. Muitos deles passaram a não pagar salários e fornecedores corretamente, o que significa corte de demanda e menos dinheiro em circulação para consumo e pagamento de dívidas.

A indústria teve a primeira alta, de 0,6%, após quatro anos de queda. Mas ainda não é pouco?

Sim. A indústria foi atingida fortemente no segundo semestre, com o colapso da Argentina. O único choque positivo foi com o resultado das eleições, que criou expectativas de continuidade de uma política econômica que não aumentasse despesas. O ano de 2018 não foi perdido, se completou de vez a saída da recessão, mas ainda não pegou tração, porque não tem investimento.

Mesmo com o avanço do consumo das famílias em 2018, a situação das famílias ainda é difícil?

O cenário ainda é muito difícil quando se olha para a vida real. O consumidor ainda está muito temeroso, mesmo quem conseguiu manter o emprego está cauteloso e há um exército de pessoas que ficaram desempregadas e aceitaram uma outra vaga ganhando menos do que antes.

A autoestima do consumidor fica pior, o desejo de comprar e fazer novas dívidas desaparece. Do lado das empresas, também tem um monte apenas em 'modo sobrevivência'. Elas enxugaram quadros, diminuíram turnos, pararam de investir e começaram a atrasar impostos.

Passadas as incertezas das eleições, 2019 deve ser um ano melhor para a economia?

Acredito que sim. Imagino um crescimento de 2,2% para este ano, o que ainda é pouco para o terceiro ano de recuperação após uma crise, mas acima do resultado de 2018. Agora, se o governo conseguir aprovar a reforma da Previdência e fizer concessões de infraestrutura, o jogo vira. O Brasil pode entrar em um crescimento sustentável, na faixa dos 3%.

E caso a reforma da Previdência não seja aprovada?

O Brasil volta para a recessão, o esboço de recuperação vai embora e haverá um desânimo enorme. O dado de ontem mostra que o PIB per capita, que mede o padrão de vida, recuou ao patamar de oito anos atrás. Nunca tivemos nada parecido com isso. Com a reforma da Previdência, a parte fiscal começa a caminhar, a taxa de formação bruta de capital aumenta e a arrecadação real cresce mais rapidamente. Por enquanto, a expectativa é boa, mas que pode se frustrar.

FOTO: Arquivo/Diário do Comércio