Economia

"Há muito dinheiro para vir ao Brasil"


Julio Callegari, diretor de renda fixa do J.P. Morgan, diz que o país sairá da recessão com a elevação dos investimentos, após as reformas necessárias na economia


  Por Rejane Tamoto 30 de Setembro de 2016 às 11:30

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


O investidor internacional espera por um sinal concreto de que a economia brasileira caminha de fato para a recuperação antes de voltar a alocar recursos no país. Em outras palavras, pela aprovação de reformas que permitem o ajuste fiscal e a redução da taxa de juros reais no país.

E dinheiro é o que não falta, segundo Julio Cesar Callegari, diretor de renda fixa da J.P. Morgan Asset Management, que responde pela gestão de US$ 45 bilhões em renda fixa para mercados emergentes. No Brasil, responde pela gestão de R$ 11 bilhões nessa classe de ativo.

"Há uma avalanche de recursos que podem vir ao Brasil. Mas será preciso confiança e redução do juro real para que isso aconteça."

Ele fez a declaração em uma palestra sobre o cenário macroeconômico e suas implicações sobre os investimentos, ministrada durante a reunião de conjuntura econômica realizada mensalmente na Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Ao apresentar uma análise a respeito do ambiente econômico brasileiro e implicações advindas das expectativas para as economias dos Estados Unidos, Europa e China, Callegari disse que a retomada do investimento vai liderar o processo de saída da recessão.

Curiosamente, um outro estudo realizado pelo Cemec (Centro de Estudos do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais - IBMEC) mostrou que a queda do investimento privado -pelas companhias que se encontraram sem condições de dar sequência aos planos - capitaneou o início da recessão econômica em meados de 2014.

Dessa vez, segundo o diretor de renda fixa da J.P. Morgan, o investimento será importante simplesmente porque outras variáveis não serão capazes de reverter as condições ruins da atividade econômica.

Nesse sentido, o consumo, por exemplo, não se recupera tão cedo por causa do endividamento (alavancagem) das famílias e da situação do mercado de trabalho.

As exportações também não devem ser capazes de suportar esse processo de retomada diante da fraca competitividade do país na comparação com outros países.

Um estudo recente coordenado pelo Fórum Econômico Mundial mostrou que o Brasil desceu seis posições no ranking mundial de competitividade – está em 81º posição entre 138 países pesquisados.  

REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Callegari diz que a economia brasileira está em uma rota positiva, mas que só se converterá em resultados se houver a aprovação pelo Congresso de reformas importantes, como a da Previdência e a Proposta de Emenda Constitucional (PEC), que limita o teto de gastos públicos.

Segundo o diretor, o cenário para o futuro ainda é binário, ou seja, se a reforma da Previdência não for realizada haverá um viés negativo para a economia brasileira novamente, assim como ocorreu em setembro de 2015, quando o prêmio de risco brasileiro medido pelo Credit Default Swap (CDS) encostou em 550 pontos. Um ano depois, está em 270 mil pontos.

"A PEC dos gastos não é implementável sem a reforma da Previdência. Uma é gêmea da outra. A segunda precisa nascer para que primeira funcione", afirma.

Apenas aprovação da PEC permitiria ao Banco Central um corte na taxa de 0,50 ponto percentual, que passaria de 14,25% ao ano para 13,75% ao ano, na próxima reunião, agendada para outubro.

Isso porque, segundo Callegari, ao menos um indicador já exerce menor pressão sobre a inflação oficial, os preços de alimentos, que caíram 0,01% na leitura prévia feita pelo IPCA-15.

"Somente com a redução dos juros reais o investidor sentirá confiança para tomar riscos e voltando para o país. A crise de 2015 fez o investidor sair completamente de emergentes."

A taxa de juro real (descontada a inflação) brasileira é uma das maiores do mundo e praticamente o dobro da aplicada por seus pares no mundo emergente, como México e Rússia.

Segundo ele, o investidor que manteve os recursos alocados no Brasil é o que tem ativos de países emergentes no benchmark [índice de referência para a rentabilidade dos investimentos].

Apesar de o prêmio de risco ter diminuído e o real ter se fortalecido perante o dólar no Brasil neste ano, a taxa de juros real elevada ainda não faz sentido para o investidor internacional.

Mesmo com uma moeda um pouco mais forte, a economia real está no campo negativo.

E não é para menos: o PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas do país) brasileiro caiu de 7% a 8% desde 2013 até o último ano, de acordo com os cálculos de Callegari - ou seja, duas vezes mais do que o norte-americano na crise de 2009, que ficou negativo 4% do início ao fim da crise.

"A tarefa de aprovar reformas que permitem a redução dos juros está com o Congresso", diz.

IMPACTO DO EXTERIOR

O executivo disse que os indicadores mostram que a ociosidade no mercado de trabalho dos Estados Unidos tem diminuído, indicando que a economia caminha para uma normalização, e consequentemente para um aumento da taxa de juros pelo Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano).

Esse processo, segundo ele, tende a ser gradual, com um primeiro ajuste em dezembro.

Por outro lado, é dissonante ao que tem ocorrido na Europa e no Japão, países nos quais a economia ainda não mostrou sinais de recuperação suficientes para que a autoridade monetária deixe de injetar recursos na atividade.

No caso da China, no auge de estresse no mercado, em 2015, registrou saídas mensais de recursos superiores a US$ 150 bilhões. "Nossa avaliação da China é que não acabou toda a razão de estresse, mas governo está sendo capaz de minimizar. É um cenário que ainda preocupa no médio e longo prazo".

O que esses indicadores mostram é que o Brasil precisa estar preparado para o momento de volatilidade após aumento de juros do Fed.

"Mas não há tendência de piora por causa de estímulos na Europa e no Japão. E na China a situação não é caótica, mas preocupante no médio e longo prazo. Enquanto esse cenário prevalecer, há espaço para países emergentes terem algum alívio", afirma.

FOTO: Rejane Tamoto