Economia

Há muita fumaça e pouco fogo nas previsões de recuperação


Comitê de Avaliação da Conjuntura da ACSP constata que existe apenas uma expectativa sugerida pelos índices de confiança de empresários e consumidores. Mas são poucos os números que confirmam o otimismo, mesmo moderado


  Por João Batista Natali 28 de Julho de 2016 às 15:40

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


As previsões sobre o desempenho da economia podem ser resumidas da seguinte forma: há uma expectativa de melhora, mas ao mesmo tempo são quase inexistentes os indicadores para que isso aconteça.

Foi com esse pequeno paradoxo que se reuniu, nesta quinta-feira (28/07), o Comitê de Avaliação da Conjuntura da ACSP (Associação Comercial de São Paulo).

Os representantes de duas dezenas de setores foram unânimes em apontar um clima mais satisfatório depois do afastamento de Dilma Rousseff.

Também acreditam que Michel Temer terá melhores condições a partir do momento em que se tornar definitiva a saída da governante eleita pelo Partido dos Trabalhadores.

No entanto, o que existe por enquanto é uma piora menor dos índices de confiança. Com base neles, por exemplo, espera-se a diminuição da queda até o final do ano nas vendas do varejo, de -6,6% para -4,9%. São números ainda negativos, embora menos ruins.

Ainda com relação ao comércio varejista, o frio intenso no mês de junho foi positivo para as vendas no comércio de vestuário.

Mas em pouco afetou a venda de alimentos, em que a maior inflação foi puxada pelo feijão ou pela duplicação internacional dos preços do milho, produto que entra em pouco mais de dois terços na composição da ração animal (com impacto direto na carne de aves).

O frio também afetou de modo positivo o comércio farmacêutico, que em junho cresceu quase 15% com relação ao mês anterior.

Mas é uma exceção circunstancial ao lado do comportamento constante e positivo da agricultura, onde a boa notícia também vem da cana-de-açúcar.

As usinas do setor, em que pesem suas dívidas – provocadas pela manutenção irresponsável do preço baixo da gasolina durante o governo anterior, prejudicando o etanol – voltaram a ter uma operação rentável.

As vendas por cartão são sempre um termômetro sobre o desempenho do comércio e dos serviços.

Elas registravam em abril uma queda de 5,2% com relação ao mesmo mês de 2015. Em maio, a queda foi de 6,1% e em junho 3.1%. Piorou menos, mas não há ainda crescimento. Os setores que mais sofrem são os bares e restaurantes.

O setor de embalagens traz um dado curioso. O de melhor desempenho foi o papel ondulado (que serve para produtos em pequena quantidade). De janeiro a junho, a queda foi de 2,1%. Mas o mês de junho, isoladamente, teve uma melhora de 1,54% com relação a 2015.

Dois produtos se destacam, as embalagens de iogurtes, devido à queda, e as de cremes dentais que não sentiram os efeitos da crise.

O mercado de crédito, previu um dos participantes, parece ensaiar uma recuperação para o segundo semestre.

Isso é visível na queda da inadimplência e na melhora do índice de confiança das empresas (menor que o índice de confiança dos consumidores).

O problema, no entanto, é que os índices futuros de confiança são uma medição de comportamento. Não se refletem em termos imediatos.

Mas ao mesmo tempo se somam a pequenas sinalizações, como o fato, por exemplo, de ter aumentado em 1,6%, em junho, o número de consultas de vendas a prazo do SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito). O que indica que o comércio está menos paralisado.