Economia

"Há incapacidade política para aprovar medidas fiscais"


Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco, diz que a volta da confiança na economia e a retomada dos investimentos dependem do apoio político em torno do ajuste fiscal


  Por Estadão Conteúdo 14 de Outubro de 2015 às 17:55

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


O economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, destacou nesta quarta-feira (14/10) que "há incapacidade política de aprovar medidas fiscais necessárias", devido ao nível de fragmentação que existe no Congresso. 

"A volta da confiança na economia precisa do ajuste fiscal. E o fiscal necessita do apoio político", ressaltou. "Mas se ficar claro que o problema fiscal começa a se resolver, o investimento para de cair. (O investimento) que está em queda há nove trimestres."

A retração da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) é um dos fatores que levam a economia à atual recessão, destacou Goldfajn. Para ele, o recuo do nível de atividade deve levar a uma queda do PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas do país) de 3% em 2015 e de 1,5% no ano que vem.

O economista estima que neste ano e no próximo o governo vai registrar déficit primário (saldo negativo), o que significa que a meta fiscal (economia para pagar os juros da dívida) de 0,7% do PIB para 2016 não será alcançada.

Ele projeta que o indicador deve atingir um resultado negativo de 0,3% do PIB em 2015 e de 0,7% do produto interno bruto no ano que vem.

De acordo com Goldfajn, em 2015 e no próximo ano a economia será marcada por uma inflação alta, atividade baixa e câmbio depreciado. Ele projeta que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subirá 9,7% neste ano e 6,5% em 2016.

Em relação ao dólar, ele prevê a cotação de R$ 4,00 para dezembro e de R$ 4,25 para o encerramento no próximo ano. "Há em curso um processo de ajuste de contas externas. Com o dólar a R$ 4,00, o déficit de contas correntes deve chegar a zero em dois ou três anos", destacou.

O economista-chefe do Itaú afirmou também que a taxa de desemprego deve atingir 8,6% neste ano e subir para 10,2% no próximo.

Contudo, ele ressaltou que a melhora na área fiscal será positivo para a recuperação das expectativas na economia, o que poderá conter a trajetória de retração dos investimentos e gerar efeitos positivos para atenuar a retração do nível de atividade.

RESERVAS INTERNACIONAIS

Goldfajn disse ainda que o volume de reservas internacionais, próximo a US$ 374 bilhões, é uma grande proteção para o país. "Agora não é o momento de vender reservas. Elas só se usam para conter corridas, pânicos e movimentos completamente excepcionais", destacou.

Na avaliação de Goldfajn, como a economia tem graves dificuldades de contas públicas, caso o Banco Central aumentasse a taxa Selic no momento isso não resolveria.

"O BC subir os juros agora não ajuda a resolver o problema na área macro, que precisa de ajuste fiscal. Essa questão é muito importante. Para não perder o grau de investimento, basta ter um primário positivo em 2016", disse.

RETRAÇÃO DE 0,8% EM AGOSTO

A atividade econômica teve retração de 0,8% em agosto na comparação com julho, quando houve alta de 0,2%, após ajuste sazonal, conforme o Pibiu, calculado pelo Itaú Unibanco.

O resultado, de acordo com o banco, confirma que a leitura positiva de julho não se tratava de uma estabilização da economia. Em relação ao oitavo mês de 2014, o Pibiu recuou 4,2% e acumulou queda de 1,5% em 12 meses finalizados em agosto.

A expectativa da instituição é de que o Pibiu volte a cair em setembro, podendo ceder 0,4% na comparação mensal.

Por atividades, o Itaú Unibanco mostra que, em agosto, houve declínio de 2,3% na produção de insumos da construção civil, queda de 1,2% na indústria de transformação e retração de 2,0% nas vendas do varejo ampliado. Do lado oposto, o banco destaca a alta de 0,6% na indústria extrativa e crescimento de 0,5% nos serviços ligados à administração pública

FOTO: Estadão Conteúdo