Economia

Grécia: hora de os credores pagarem o preço do risco


Depois do resultado do referendo grego desponta a constatação de que, ao endurecer com a Grécia, os credores esticaram a corda das políticas de austeridade até o ponto de rompimento


  Por Estadão Conteúdo 06 de Julho de 2015 às 08:51

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Por José Paulo Kupfer

Duas palavras de origem grega resumem o atual momento histórico vivido pela Grécia. Ao decidir pelo "não", no referendo popular sobre a negociação de suas dívidas com a União Europeia e o FMI, os gregos superaram o dilema em que se encontravam, mas não a crise econômica em que estão envolvidos. Entre a descrença numa solução conhecida e a esperança de uma aposta no imprevisível, ficaram com a segunda opção.

Como em todo dilema - da palavra grega que significa "duas premissas" -, nenhuma das duas alternativas oferecidas teria o condão de solucionar a crise - da palavra grega que significa "momento decisivo à espera de um desfecho". A bola agora está com os credores, a exemplo da anedota clássica, segundo a qual, o devedor transfere o incômodo da insônia ao credor quando o avisa de que não pagará a dívida.

Não se trata de um problema meramente econômico, questão minimizada pelo baixo peso específico da Grécia no conjunto das economias europeias. O que sempre esteve em jogo e agora exigirá respostas concretas das lideranças do continente é o alto "risco moral" vinculado às quebras recorrentes da economia grega desde a eclosão da grande crise global de 2008.

São duas as faces dessa moeda, que lançam a zona do euro em novos dilemas. De um lado, as consequências de um "efeito demonstração" do calote grego para outros países altamente endividados da União Europeia, considerando, inclusive, a hipótese do abandono da moeda única. De outro, os desdobramentos da eventual "premiação" de devedores supostamente irresponsáveis com o perdão de parte das dívidas pendentes.

Depois do resultado do referendo grego, em meio a esse quadro complexo, desponta a constatação de que, ao endurecer com a Grécia, os credores esticaram a corda das políticas de austeridade até o ponto de rompimento. A ascensão de partidos antiausteridade, nos países obrigados a executar duríssimos programas de contração fiscal, já deveria ter deixado claro que há limites para políticas baseadas exclusivamente em cortes de despesas públicas.

A evolução da crise grega leva à conclusão de que passou da hora de os credores pagarem o preço pelos riscos que assumiram na Grécia e aceitar organizar o calote.