Economia

Goldstein: País volta a crescer em 2021, mas em ritmo lento


Para o economista, efeitos da pandemia foram parcialmente compensados pelos indicadores fortes do fim de 2020, mas ritmo da vacinação determinará aceleração da atividade


  Por Karina Lignelli 30 de Abril de 2021 às 12:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


A recuperação da economia no fim de 2020 com a flexibilização das medidas restritivas, somada ao avanço da vacinação, sinalizam uma retomada robusta da atividade a partir do segundo semestre. Porém, a evolução da pandemia e o ritmo dessa vacinação é que vão determinar como será essa aceleração. 

A análise, menos pessimista, foi apresentada pelo economista Sérgio Goldenstein na live "Perspectivas para a Economia Brasileira para 2021 e 2022", realizada na última terça-feira (27/04) pela Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais). 

"O país volta a crescer em 2021, mas em ritmo lento", afirma. 

A rápida retomada da atividade no 4° trimestre, que gerou forte expansão fiscal, deu gás para o fortalecimento dessa demanda, explica Goldstein, que foi consultor da diretoria de Política Monetária e chefe do Departamento de Operações do Mercado Aberto (DEMAB) do Banco Central entre 1994 e 2005.  

LEIA MAIS:  Vacinação ditará o ritmo da recuperação econômica

Assim como o aumento do consumo das famílias que, puxado pelo auxílio emergencial, saiu de -5,5% ao longo do ano passado, para 3,5% no 1° primeiro trimestre de 2021. Com o bom resultado das exportações (6,1% em dezembro), o mercado externo também gerou contribuição positiva para o PIB, de 1,1 ponto percentual. 

Com isso, lembra, a projeção de queda da economia brasileira em 2020, que era de -8% a -10%, deve ficar em -4,1%. Ou seja, bem abaixo das estimativas iniciais do Banco Central (BC), devido à retomada da atividade. 

Essa visão otimista do BC sinaliza uma repercussão significativa ao longo do 2° semestre por conta do 'carrego' estatístico positivo, diz Goldstein. 

A nova rodada do auxílio emergencial, e a reedição da MP que flexibiliza medidas trabalhistas para evitar o desemprego, também devem contribuir para esse resultado. "Ainda que todos os trimestres sejam negativos, a projeção é de que a economia cresça 3,6% em 2021", afirma o economista, que já foi consultor do Fundo Monetário Internacional (FMI), e hoje atua como consultor especializado em mercado de capitais.

CENÁRIO DEPRIMIDO

Mas há fatores conflitantes. O especialista lembra que março foi um mês bastante negativo com o agravamento da pandemia, e isso levou a uma deterioração dos indicadores de confiança, que vinham melhorando. Isso pode apontar para uma probabilidade de contração do PIB até o fim deste 1° semestre.   

"Há riscos de atraso no calendário vacinal, como já vem acontecendo, e da chegada de uma terceira onda, com novas variantes. E se a redução do isolamento social for muito acelerada, pode voltar a agravar o quadro."  

O desemprego, cuja taxa chegou a 14,1% em janeiro de 2021, também deve continuar elevado. O mercado de trabalho está frágil, e o aumento da informalidade restringem o consumo das famílias, assim como o auxílio emergencial menor (de R$ 330 bilhões em 2020, para R$ 44 bilhões este ano), concedido para menos pessoas. 

Outros fatores a observar são as políticas fiscal e monetária menos expansionistas, e riscos fiscais e políticos, que permanecerão altos afetando atividade, câmbio e inflação, e reduzirão indicadores de confiança. 

Quanto à política monetária, o BC já iniciou um novo ciclo de ajuste na taxa Selic em março, elevando-a de 2% para 2,75%. A projeção é fechar 2021 em 5,5%, e encerrar 2022 em 6,13% para tentar ancorar as expectativas de inflação, afirma Goldstein que, em seu período no BC, participou de mais 40 reuniões do Copom. 

Em 2020, a disparada dos preços, principalmente dos alimentos, por conta da depreciação de 32% do real frente ao dólar, mais a alta das commodities, afetou profundamente o poder de compra da população. 

"Há um aumento do risco de a inflação em 2021 furar o teto da meta chegando a 5,25%. E uma inflação mais alta representa perda de renda real", explica. Em 2020, a queda na renda das famílias chegou a -6,9%.  

Para 2022, um ano eleitoral marcado por incerteza política, o efeito-base será ainda mais deprimido do que em 2021 - o que tende a atrapalhar mais decisões de consumo e investimento, avalia o economista. 

"A perspectiva é de poucos avanços estruturais ou até retrocessos em certas áreas (como educação, inovação tecnológica e estrutura tributária, entre outros), que limitam avanços sociais e econômicos", sinaliza.

 

FOTO: Divulgação






Publicidade






Publicidade









Publicidade