Economia

FMI corta projeção para o PIB do Brasil


Crescimento previsto é de 0,2%, e não de 0,5%, para este ano


  Por Estadão Conteúdo 16 de Janeiro de 2017 às 13:54

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


O Fundo Monetário Internacional (FMI) voltou a rebaixar a projeção de crescimento para o Brasil e agora espera expansão de apenas 0,2% este ano, de acordo com relatório divulgado nesta segunda-feira (16/01).

Na previsão anterior, feita em outubro, a expectativa era que o Produto Interno Bruto (PIB) do país fosse avançar 0,5% em 2017.

Para 2018, o Fundo manteve a previsão de crescimento do PIB em 1,5%. Em 2017, a expansão do Brasil será a menor entre os principais países do mundo, e ainda vai ficar bem abaixo da média de crescimento da economia mundial (3,4%), dos emergentes (4,5%) e da América Latina (1,2%).

Em 2018, o Brasil deve seguir com desempenho abaixo da média destes três grupos.

O FMI relatava que a atividade na economia brasileira no segundo semestre de 2016 acabou ficando mais fraca que o esperado. A previsão é que o PIB do país tenha retração de 3,5% no ano passado, também um dos piores desempenhos do mundo.

As previsões do FMI para o Brasil estão mais baixas que dos analistas do mercado financeiro. O Relatório de Mercado Focus divulgado nesta segunda veio com previsão de expansão de 0,5% este ano e de 2,20% em 2018.

O Fundo vinha constantemente rebaixando as projeções para o PIB do Brasil a cada período desde 2012.

No ano passado, com a chegada do presidente Michel Temer no Planalto, o Fundo chegou a melhorar o cenário para o Brasil, prevendo a volta do crescimento.

Este movimento, porém, de acordo com o relatório, tem sido mais lento que o esperado e com isso as estimativas voltaram a ter cortes agora.

Por causa do desempenho fraco da economia brasileira esperado para este ano, o FMI também reduziu a previsão de crescimento para a América Latina.

A região deve ser afetada ainda pelas políticas do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A estimativa do Fundo é que a América Latina cresça 1,2% este ano e 2,1% em 2018. Nos dois casos, houve corte em relação às projeções divulgadas em outubro, de 1,6% e 2,2%, respectivamente.

"Na América Latina, o corte da projeção de crescimento reflete, em grande medida, expectativas mais sutis da recuperação de curto prazo na Argentina e no Brasil, depois de resultados de crescimento mais fracos do que o esperado no segundo semestre de 2016", cita o documento, que destaca ainda a maior incerteza em relação ao México, por causa das políticas de Trump, e a contínua deterioração na Venezuela.

A previsão de crescimento para o México foi cortada para este ano, para 1,7%. Em outubro, a expectativa do FMI era de avanço de 2,3%. Em 2018, o corte foi de 2,6% para 2%.

O documento ressalta ainda que o Brasil, junto com a Rússia e a Índia, conseguiu cortar juros nos últimos meses, enquanto outros emergentes foram forçados a elevar as taxas, principalmente o México e a Turquia.

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PIB MUNDIAL

O FMI manteve a previsão de crescimento da economia mundial em 3,4% este ano e 3,6% em 2018, ambos uma aceleração em relação aos 3,1% esperados para 2016, a pior taxa desde a crise financeira mundial.

Mas o Fundo ressalta em relatório divulgado nesta segunda que ainda há muitas incertezas sobre como serão as políticas do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e em outros locais, como as várias eleições na Europa. Por isso, há um variado quadro de possíveis cenários para a atividade econômica do planeta.

O Fundo acredita que pode ter uma visão mais clara do cenário para a economia mundial em abril, quando faz sua reunião de primavera em Washington. A expectativa é que naquele mês Trump já tenha detalhado o que planeja fazer.

A possibilidade de adoção de estímulos fiscais, como corte de impostos e aumento de gastos públicos, é um dos fatores que contribuiu para o FMI elevar a previsão de crescimento dos países avançados.

Este grupo de países deve crescer 1,9% este ano e 2% no próximo. Em outubro, o FMI previa expansão de 1,8% nos dois períodos.

O FMI revisou para cima projeções de crescimento para 2017 dos EUA, Alemanha, Japão, Espanha e Reino Unido. Ao mesmo tempo, cortou a da Itália, em meio às preocupações causadas pelos problemas dos bancos do país.

Os emergentes devem crescer 4,5% este ano, pouco abaixo dos 4,6% previstos em outubro. Em 2018, a previsão do FMI é de avanço de 4,8%, mesmo patamar estimado anteriormente.

Neste grupo de países, o Fundo destaca que o cenário é mais heterogêneo. A recuperação do Brasil está sendo mais lenta que o esperado, as incertezas para o México são elevadas e a China pode crescer mais que o esperado por conta da política de estímulos de Pequim.

O FMI elevou a previsão de crescimento da China e agora espera expansão de 6,5% este ano, acima dos 6,2% previstos em outubro.

Já para 2018, a estimativa foi mantida em alta de 6%. A Índia deve continuar com uma das maiores taxas de crescimento do planeta, de 7,2% em 2017 e 7,7% no ano que vem.

O número para este ano, porém, foi cortado em relação ao relatório de outubro, que previa avanço de 7,6%.

Os riscos para a economia mundial continuam pendendo para o lado negativo, ou seja, o PIB pode crescer menos que o esperado, destaca o economista-chefe do FMI, Maurice Obstfeld.

"Vemos uma dispersão mais ampla de riscos para estas projeções de curto prazo. A incerteza se elevou". Mas o relatório alerta que também há chance de a atividade surpreender, dependendo dos estímulos adotados por Trump e pela China.

"A atividade mundial pode se acelerar de forma mais forte se os estímulos na política econômica se tornarem maiores do que o atualmente projetado nos EUA e na China", afirma o relatório.

Entre os riscos para o cenário, o FMI cita a possibilidade de aumento do protecionismo, as várias eleições este ano na Europa, além de questões geopolíticas, alto endividamento de empresas, sobretudo nos emergentes, e possibilidade de os juros subirem mais que o esperado.

EUA

O FMI elevou a projeção de crescimento para os Estados Unidos este ano e em 2018 em meio às expectativas de que o novo presidente do país, Donald Trump, adote um conjunto de estímulos fiscais e outras medidas pró-crescimento.

Ao mesmo tempo, o processo de alta de juros no país pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) pode ser mais acelerado do que se esperava anteriormente.

Os EUA devem crescer 2,3% este ano e 2,5% em 2018, ambos acima dos 1,6% estimados para 2016. Em outubro, a previsão do FMI era que a maior economia do mundo fosse crescer 2,2% em 2017 e 2,1% no ano que vem.

O relatório ressalta que, depois de um fraco primeiro semestre de 2016, a economia dos EUA ganhou força na segunda metade do ano passado e o país está próximo do nível de pleno emprego.

"Os mercados notaram que a Casa Branca e o Congresso estão nas mãos do mesmo partido pela primeira vez em seis anos, e essa mudança aponta para menor imposto e possivelmente maior gasto com infraestrutura e defesa", afirma Maurice Obstfeld.

"Mas neste estágio inicial, contudo, as especificidades da futura legislação fiscal permanecem sem clareza, assim como o grau de aumento do gasto governamental."

Sem maiores detalhes da política de Trump, o FMI alerta que as projeções para o PIB dos EUA estão sujeitas a mais incertezas do que em outros momentos. Por isso, há uma variedade de cenários possíveis, dos quais Obstfeld destaca dois.

O primeiro seria o aumento sustentado do crescimento sem gerar inflação, marcado pelo aumento da força de trabalho, da infraestrutura e do mercado de capitais.

Neste caso, o Fed poderia subir os juros de forma mais moderada. No segundo cenário, em que a política fiscal gera inflação maior, o Fed aceleraria ainda mais a alta de juros, o dólar teria valorização adicional e a expansão real do PIB seria menor.

STANDARD & POOR'S ESTIMA 0,93% PARA 2017

A Standard & Poor's estima que o Brasil crescerá 0,93% este ano, com o ritmo de expansão se acelerando para 2,00% em 2018 e 2,30% em 2019. Segundo a agência de classificação de risco, a economia brasileira deve se estabilizar este ano, após dois anos de contração.

"A nova administração do presidente Michel Temer foi capaz de aprovar uma emenda constitucional no fim de 2016 que limita o crescimento dos gastos do governo, um passo significativo em direção a controlar e eventualmente corrigir uma deterioração substancial nas finanças soberanas", diz a S&P em relatório sobre as tendências para a América Latina este ano.

A agência lembra que o governo também apresentou uma ousada proposta de reforma da Previdência, que é essencial para combater o déficit público. "A capacidade do governo de aprovar essa reforma pode ser afetada pelas atuais investigações sobre corrupção que já envolveram altos políticos", afirma a S&P.

A última vez que a agência alterou o rating do Brasil foi em fevereiro de 2016, quando cortou a nota do País para BB, com perspectiva negativa. Naquela altura, o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff nem havia sido aprovado pela Câmara ainda.

Em novembro último, a diretora de ratings soberanos Lisa Schineller comentou em evento no Rio que um retorno do País para o grau de investimento até 2018 era "improvável". "Realisticamente é muito difícil pensar que o País poderia recuperar (o grau de investimento) antes das próximas eleições", afirmou na ocasião.

Foto: Thinkstock

Atualizado às 15h