Economia

Estímulos à economia esbarram no desemprego elevado


É essa a percepção dos empresários presentes ao encontro mensal de conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP)


  Por Renato Carbonari Ibelli 22 de Março de 2018 às 18:13

  | Editor rcarbonari@dcomercio.com.br


O mercado projeta um crescimento próximo a 3% para o PIB de 2018, mas já surge o sentimento entre o empresariado de que a alta será mais modesta.

O engavetamento da reforma da Previdência e a falta de condições do governo federal de realizar investimentos frustraram as expectativas de representantes de diversos setores da economia, que participaram da reunião mensal de conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), realizada nesta quinta-feira, 22/03.

Além desses dois fatores, mesmo com a taxa de juros em 6,5% ao ano - o menor patamar histórico - e a inflação em queda, o otimismo do consumidor ainda não foi reestabelecido. O Índice Nacional de Confiança (INC), da ACSP, está em 75 pontos, bem abaixo da linha divisória do otimismo, 100 pontos.

A conclusão dos empresários que estiveram na reunião é que o desemprego elevado, que atinge cerca de 13 milhões de brasileiros, acaba mascarando os indicadores positivos da economia. Quase todas as famílias têm um membro sem emprego ou conhece alguém que esteja nessa situação.

As quedas no desemprego ocorrem, mas os postos de trabalho gerados nos últimos meses foram basicamente informais. Esses trabalhadores sem carteira assinada, afirmaram os empresários, são menos propensos a comprar, pois a renda tende a ser menor e o acesso ao crédito mais complicado.

Outro ponto destacado foi a inflação. Embora o Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA) esteja em patamar baixo, acumulando 2,84% nos últimos 12 meses fechados em fevereiro, ele já esteve em nível muito mais elevado ao longo de 2017. Por esse motivo, a queda dos preços para o consumidor será gradual, afirmaram.

VAREJO

Diante desse cenário, a recuperação do varejo se mantém lenta. A projeção da ACSP para as vendas do varejo nacional aponta para uma alta de 4,6% ao final do ano, crescimento que não repõe as perdas acumuladas nos últimos dois anos de crise.

Os empresários do comércio falaram que os números do setor estão positivos porque são puxados pelos grandes grupos, que têm capital para investir em inovação e estão conseguindo acompanhar as novidades da economia digital. Mas a realidade dos pequenos e médios ainda é complicada.

O varejo fica cada vez mais concentrado nas mãos de grandes empresas, disseram os empresários. 

Nos shoppings, a vacância elevada é um grande problema. Apenas oito empreendimentos desse tipo devem ser inaugurados no país este ano, mas não há certeza.

“Há shoppings que seriam inaugurados este ano, mas ainda não têm cinema instalado. Demora nove meses para implantar um cinema, ou seja, alguns empreendimentos irão ficar para 2019”, disse um representante do varejo durante a reunião na ACSP.

INDÚSTRIA

A produção industrial começou o ano com alta de 2,8%, de acordo com o resultado de janeiro apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Mas como a capacidade ociosa ainda é grande, poucos industriais arriscam fazer investimentos.

A queda de 9,8% nas operações de crédito envolvendo esse setor nos últimos 12 meses reforça essa realidade.

Um representante da indústria da construção civil falou que a recuperação desse segmento será lenta. Segundo ele, o único estímulo que as construtoras tiveram nos últimos anos foram os projetos do Minha Casa Minha Vida. 

Outro motivo para a lenta recuperação do setor da construção é a vacância elevada no setor imobiliário. Segundo o empresário, muitos imóveis foram devolvidos ao longo da crise porque o comprador perdeu a capacidade de quitar a dívida. Esses imóveis voltaram para as construtoras e incorporadoras.

Nessa situação, as incorporadoras que possuem terreno comprado e pronto para construir, estão adiando as obras até desovarem os imóveis vagos.

AGRONEGÓCIO

Os empresários do agronegócio esperam para este ano a segunda maior safra do país. Poderia ser melhor. Segundo eles, há menos tecnologia empregada na soja este ano, e a área de milho plantada é menor na comparação com 2017.

Porém, a crise hídrica pela qual passou a Argentina prejudicou consideravelmente a safra de soja do país vizinho, o que fez os produtores brasileiros ganharem mercado. Para grãos, tudo indica que este será o décimo ano seguido de bons resultados.

Projeções do IBGE apontam que a safra de soja em 2018 deverá atingir 112,3 milhões de toneladas, a de arroz será de 11,7 milhões de toneladas e as duas safras de milho deverão ficar em 26,6 milhões e 57,9 milhões de toneladas, respectivamente.  

Parte do sucesso do setor, de acordo com os empresários, está no fato de a tecnologia ser mais democrática no campo. Os pequenos e médios produtores têm acesso aos mesmos recursos produtivos que os grandes produtores.  

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