Economia

Empresários estão mais otimistas, mas juros ainda preocupam


Lideranças empresariais do comércio, serviços e indústria estiveram na Associação Comercial de São Paulo para debater a atual conjuntura econômica


  Por Renato Carbonari Ibelli 30 de Junho de 2016 às 17:58

  | Editor ibelli.dc@gmail.com


Em meio à grave desaceleração da economia, despontou um modesto sinal de otimismo neste mês de junho, evidenciado pela melhora na confiança de empresários dos diferentes setores, comércio, indústria e serviços. 

Certamente é cedo para garantir que trata-se da reversão de uma crise que fez 11 milhões de desempregados, fechou milhares de empresas e enclausurou o consumidor. Mas a avaliação de lideranças empresariais que estiveram nesta quinta-feira (30/06) em reunião na Associação Comercial de São Paulo (ACSP), mostra que a equipe econômica trazida pelo governo interino agradou.

Na passagem de maio para junho, pelos dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a confiança do comércio cresceu 2,8%, chegando a 73,7 pontos. Entre os empresários do setor de serviços, o avanço foi de 1,9%, levando o indicador para 72,4 pontos. Na indústria, a alta foi ainda mais emblemática, de 4,2%, para 83,4 pontos.

É importante ressaltar que a melhora na confiança é baseada na expectativa futura desses empresários. Por esse ângulo, é possível compreender que eles apostam que no curto e médio prazos as reformas propostas pelo novo ministro da Fazenda consigam ser emplacadas e surtam efeitos positivos. 

Isso significa fazer a inflação convergir na direção dos 4,5% - hoje ela está em 9,32% em 12 meses -, que o crédito volte a ser oferecido no mercado e que a taxa de juros, hoje em 14,25%, recue. Para os empresários, as privatizações e as exportações devem ser os dois motores da retomada da economia, “mas não serão com essa taxa de juros.”

“É uma das melhores equipes econômicas que já tivemos, que tem o apoio total do mercado, mas se as reformas apresentadas não derem resultado, todos vão se voltar contra. Assim como está acontecendo na Argentina, com o governo de Mauricio Macri”, disse um economista que esteve no encontro na ACSP.

Se a expectativa de melhora deixa o empresário mais otimista, os números que mostram um retrato atual dos seus negócios não são positivos. Dados apresentados por um empresário do setor de eletroeletrônicos mostram queda de 38% no faturamento das indústrias que produzem linha branca e marrom (tv, som e vídeo) no primeiro trimestre deste ano, comparado a igual período do ano anterior. 

O faturamento menor foi consequência das vendas desses segmentos, que recuaram, em igual comparação, de 27 milhões de unidades para 18 milhões de unidades. “Os televisores mais sofisticados continuam vendendo, mas os intermediários não saem. O consumidor das classes mais baixas não está comprando”, revelou um empresário do setor.

Ele também reclamou do aumento dos custos de produção, em especial os gastos com água e com logística. “Por outro lado, a carga tributária e o preço dos componentes estão estáveis.”

A produção de computadores e de celulares também recuou consideravelmente no primeiro trimestre, respectivamente 50% e 33% na comparação com igual período de 2015. Segundo representante desses fabricantes, parte dessa queda se explica pela maior abrangência dos smartphones, que “vêm substituindo computadores e tablets.”    

Ainda assim, para o ano, a projeção é de queda de 17% na produção de celulares e de 28% na de computadores, “sendo que essas quedas serão maiores entre produtos voltados para as classes C e D.”

O câmbio também aparece como um obstáculo aos empresários industriais. Com a valorização do real nos últimos meses, as importações passaram a ganhar força. “Os empresários estavam se reestruturando para a retomada da economia, mas agora com o dólar baixando vão segurar os investimentos porque as importações ganham espaço”, disse um dos presentes à reunião da ACSP.

O câmbio, que traz um dólar valendo R$ 3,20, também deixa o setor do agronegócio receoso. Embora esse setor esteja passando por um bom momento, um empresário da área ponderou que a situação atual é diferente daquela de 2015. “No ano passado compramos os insumos com o dólar em R$ 2,40 e vendemos a produção com o dólar em R$ 4. Este ano mudou, nós plantamos com o dólar em R$ 4 e vamos vender com ele em R$ 3”, analisou.

Ele ponderou que o agronegócio não passa por crise, e que até o setor sucroalcooleiro, que passou por sérias dificuldades por cinco anos seguidos, viveu bons momentos nos dois últimos anos. 

Além do câmbio, outros fatores começam a preocupar o agronegócio, em especial alguns trechos da reforma da Previdência elaborada pelo governo interino que prevê acabar com isenções à exportação previstas na lei Kandir. “Como a lei está dando certo, vamos estragar”, ironizou o empresário. 

Ele ainda revela que há um choque de preços de alimentos no atacado, que inevitavelmente será transferido para o consumidor final, podendo ter impacto no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial. 
 
As vendas do varejo da capital paulista ensaiam uma melhora para o segundo semestre, embora o resultado interanual de maio, coletado pela ACSP, ainda mostre queda forte. Na comparação com maio do ano passado, as vendas a prazo recuaram 8%. No caso das vendas à vista a queda foi maior, de 19,7%.

Mas a boa notícia é que o ritmo de redução da massa salarial diminuiu. Após recuar 4,3% em abril retomou um pouco do espaço perdido caindo 3,3% em maio e isso tem deixado o varejo mais animado e na expectativa de que o consumidor volte a abrir a carteira. 

IMAGEM: Thinkstock







Publicidade




Publicidade






Publicidade