Economia

Economia ainda está morna, à espera das eleições


Crescimento ainda é tímido e afetado pelas incertezas e temores sobre os resultados da sucessão presidencial


  Por João Batista Natali 30 de Agosto de 2018 às 16:50

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


O conjunto dos indicadores econômicos aponta em duas direções paralelas. Em primeiro lugar, o crescimento modesto foi retomado depois da paralisação, em maio, dos caminhoneiros.

E, em segundo lugar, esse mesmo crescimento ainda é tímido e permanece marcado pelas incertezas no plano eleitoral.

São impressões apresentadas nesta quinta-feira (30/8) em reunião mensal do Comitê de Avaliação de Conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). O grupo é coordenado por Edy Kogut, vice-presidente da associação.

Os indicadores de macroeconomia até que estão razoáveis, com o déficit público em 7,3% (já chegou a 10%), um saldo estabilizado na balança comercial, com o crédito da pessoa física ainda em alta (8,3%) e o da indústria ainda em baixa (-8,1%), porcentagens relativas aos últimos 12 meses.

O varejo restrito tem um aumento pequeno, de 1,5%, enquanto o setor de serviços registra uma queda de 1,2%.

Mas um diagnóstico consistente poderá ser dado apenas nesta sexta-feira, quando o IBGE anunciar os resultados do PIB no segundo trimestre.

SETORES ISOLADOS

O setor têxtil permanece com o freio de mão puxado, com queda de 3,8% no setor de confecções, e um índice setorial de confiança de 47,7% (abaixo dos 50%, que é a linha do otimismo).

O varejo de medicamentos teve resultados excepcionalmente bons para julho, com alta de 10,2% em relação ao mesmo mês do ano passado. Isso em razão da inclemência do clima e seus efeitos em moléstias comuns ao inverno.

O comércio eletrônico, por sua vez, fechou o balanço do primeiro semestre. Foram 28 milhões os brasileiros que fizeram suas compras por esse meio, e entre eles 4,5 milhões o fizeram pela primeira vez.

Por mais que o e-commerce corresponda a apenas um décimo de todo o varejo, o setor teve em 2017 um faturamento de R$ 112 bilhões. Uma curiosidade: um terço das vendas foi feita por meio de celulares.

OS NÚMEROS DA INDÚSTRIA

Entre janeiro e abril, a indústria cresceu 4,5% com relação ao primeiro quadrimestre do ano passado. Mas entre maio e junho – efeito dos caminhoneiros – registrou-se queda de 1,5%.

O setor específico dos veículos exemplifica com maior dramaticidade essa queda. Entre janeiro e abril, as montadoras cresceram 21% se comparadas ao período de 2017. Mas no período maio e junho a queda foi de 4%.

O setor de material de construção está praticamente estagnado, indicando uma quantidade pequena ou negativa quando se trata de novos imóveis, mas um crescimento modesto (material de acabamento e elétrico) de compras provavelmente para a reforma de imóveis já existentes.

Os grupos empreendedores do setor sofrem os efeitos da devolução de imóveis já parcialmente pagos. Com dois tipos de consumidores que lançam mão desse recurso: aqueles que perdem o emprego, e não podem mais pagar as prestações,

Mas há em segundo lugar aqueles que buscavam um investimento e não se conformam com o fato de terem pela frente prestações que, ao fim do percurso, farão deles proprietários de um imóvel com valor de mercado inferior ao montante que desembolsaram.

O movimento dos cartões de crédito foi em julho positivo em 0,5%, bem mais que os 4% registrados em maio, quando a paralisação dos caminhoneiros não havia ainda ocorrido.

Há por fim os números da agricultura, onde a soja permanece em expansão e deve ultrapassar, em 2018, a produção dos Estados Unidos. O mesmo otimismo prevalece na cana-de-açúcar.

Não tanto pelo açúcar produzido, mas pelo etanol, que se tornou mais competitivo como combustível, depois do aumento gradativo dos preços internacionais do petróleo.

Continuam a ser incertos os efeitos do tabelamento do frete, decidido pelo governo e aprovado pelo Congresso como forma de pôr fim ao movimento dos caminhoneiros,

O setor da soja, por exemplo, vendeu antecipadamente apenas 20% do que será plantado agora em setembro. No ano passado, a venda antecipada já era de 50%.

O fato se justifica pela impossibilidade de calcular os efeitos do preço dos fretes. Mesmo assim, o setor constata que está ocorrendo uma compra em volume descomunal de caminhões por parte de cooperativas e grandes produtores.

Ou seja, o setor poderá muito em breve dispensar boa parte dos serviços do frete tabelado.

 FOTOMONTAGEM:William Chausse/Thinstock