Economia

Economia ainda calcula as perdas que caminhoneiros provocaram


Só no Estado de São Paulo, arrecadação industrial caiu em 23%; comércio eletrônico deixou de faturar R$ 407 milhões. São dados coletados por comitê da ACSP


  Por João Batista Natali 28 de Junho de 2018 às 15:30

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


As feridas deixadas na economia pela recente paralisação dos caminhoneiros estão sendo aos poucos contabilizadas. O governo paulista, por exemplo, registrou 23% de queda na arrecadação do setor industrial.

A queda nas vendas do comércio varejista foi de 6%. No comércio eletrônico, a previsão de vendas era de uma alta de 20%, em razão da Copa do Mundo, acabou não se confirmando. O setor cresceu metade disso e deixou de faturar R$ 407 milhões.

Cerca de 37% das entregas atrasaram, e apenas se normalizaram a partir de 7 de junho.

Na balança comercial brasileira, os números do IBGE sinalizam uma perda de R$ 2 bilhões com a paralisia do transporte.

São informações apresentadas nesta quinta-feira, 28/6, em reunião mensal do Comitê de Avaliação de Conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). O grupo é coordenado por Edy Kogut, vice-presidente da associação.

Excetuado o desastre logístico que representou o movimento dos caminhoneiros, a produção e o comércio ainda registram uma recuperação muito lenta e ainda distante de seus patamares anteriores à recessão.

O desempenho do varejo ampliado (que inclui veículos e material de construção), continua inferior em 11,5% do pico alcançado em agosto de 2012.

As vendas de vestuário e calçados estão 17,2% abaixo do faturamento registrado em abril de 2014. E a venda de automóveis, motocicletas e veículos permanece 31,6% menor que o número de junho de 2012.

O índice de confiança da indústria, que estava em 54 em abril, caiu para 49 em maio. Nessa escala, o índice estava ligeiramente positivo, e agora desceu para o negativo.

AGRICULTURA

O setor agrícola está submetido aos efeitos da guerra comercial dos Estados Unidos, que afeta a cotação das commodities na Bolsa de Chicago, e também ao aumento do dólar, que repercute no preço de máquinas e defensivos.

A soja, por exemplo, já caiu em cerca de 20% em dólares. Para o mercado interno, o setor registra queda nas vendas de carne bovina, que o consumidor substitui por frangos.

Nos laticínios, em lugar do iogurte, mais caro, o comprador passa a consumir apenas o leite.

Em razão da paralisação dos caminhoneiros, o preço do frango chegou a subir 42%. Mas isso pela oferta bem inferior à demanda, e não ao aumento dos lucros, num quadro que agora se normalizou.

Um dos participantes do encontro discorreu sobre a dificuldade dos varejistas franqueados. Existem hoje no país 140 mil lojistas com esse estatuto.

Com a queda nas vendas, eles de início deixam de honrar seus compromissos com os royalties das marcas, em seguida não pagam pelos produtos que recebem e, por fim, deixam de pagar aluguel aos shoppings de que são inquilinos.

Uma rede de shoppings do Nordeste registrou entre maio e junho uma queda de 30% de seu faturamento.

CONSTRUÇÃO CIVIL

No setor, a novidade vem do Congresso, com projeto já votado pela Câmara e que será aprovado pelo Senado.

Pelo texto, o comprador que desiste do imóvel que comprou em construção deixa de ter o direito de ser reembolsado pela quantia integral que pagou.

Ele receberá de 25% a 50%, em razão dos custos de corretagem e publicidade.

O projeto, disse um dos participantes do encontro na ACSP, será “um tiro no pé” das empresas de incorporação, por supor mudanças radicais no sistema de vendas que não serão necessariamente benéficas para a construção civil.

O setor varejista de medicamentos e perfumaria cresceu em maio 5,5% com relação a abril. Mas o resultado beneficiou sobretudo as grandes redes. Os pequenos estabelecimentos autônomos continuam a enfrentar dificuldades.

CENÁRIO ELEITORAL

Não há uma convergência de previsões sobre a eleição de outubro, da qual sairá o novo presidente da República.

Eis algumas das constatações.

1 – Isoladamente, Fernando Haddad (PT) oscila em torno de 2% das intenções. Mas se ele for abertamente apontado como o candidato de Lula, seu nome subirá para 11%. É um dado que se deve levar em conta para os cálculos do segundo turno.

2 – Está provavelmente se desenhando um cenário com dois grupos de candidatos. De um lado, aqueles que se apoiam em tempo de TV e no dinheiro do fundo partidário. É uma característica do PT, PSDB e MDB. De outro lado, os que apostam na desintegração partidária (Bolsonaro).

3 – Esses dois conjuntos não sinalizam a adesão de 30% a 40% do eleitorado. Há, portanto, uma parcela significativa de brasileiros sem candidatos, mas não se sabe ao certo que direção o voto deles poderá tomar.

FOTO: Marcelo Pinto/APlateia/Fotos Públicas