Economia

É surpreendente: 70% dos brasileiros se opõem a novas privatizações


Pesquisa do Datafolha indica que apenas a população de maior renda é favorável à venda de estatais à iniciativa privada. Nem os eleitores do PSDB aporiam majoritariamente a medida


  Por João Batista Natali 26 de Dezembro de 2017 às 12:40

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A constatação é espantosa: 70% dos brasileiros se opõem à privatização de empresas públicas ou sob o controle acionário do Estado.

É o que constata pesquisa Datafolha, divulgada nesta terça-feira (26/12). De acordo com o levantamento, a maioria contrária às privatizações deixa de existir em apenas um extrato da população: aquele com renda familiar superior a 10 salários mínimos.
No caso, 55% apoiariam a transferência dessas empresas para o capital privado.

Nos outros segmentos de entrevistados a privatização é defendida apenas por grupos minoritários.

A pesquisa indica -de maneira indireta, mas evidente –que as pessoas acreditam de maneira difusa que as estatais fazem parte do patrimônio de toda a nação, o que transformaria cada cidadão no proprietário de uma minúscula fração dessas empresas.

E ainda, de forma ainda um pouco mais ambígua, comprova-se o apego a uma concepção de Estado que passou a ser difundida abertamente durante a ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945).

A ideia embutida nessa concepção era de que o nacionalismo protegeria o país economicamente contra as ameaças estrangeiras e seria a única doutrina que possibilitaria o progresso interno.

Em verdade, o que ocorreu naquele período da história republicana era a iniciativa estatal em investimentos para os quais a poupança privada era escandalosamente insuficiente.

Tal evidência justificaria a aparição da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda, ou a Petrobras, de início no Recôncavo Baiano.

A ERA DOS NACIONALISMOS

Na tendência oposta, no entanto, o país se beneficiava com investimentos externos na produção de energia. O capital canadense criou a Light & Power, que eletrificou São Paulo.

O nacionalismo foi um dos pivôs da vida política brasileira durante a redemocratização do pós-Guerra (1945-1964), opondo partidos como a União Democrática Nacional (UDN), favorável aos investimentos externos, ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), dentro do qual atuava o Partido Comunista, colocado na clandestinidade em 1947.

O curioso é que a mentalidade nacionalista sobreviva à globalização, consagrada a partir de 1990, e à existência de blocos – União Europeia, Mercosul – em que os interesses nacionais se diluem em nome do crescimento econômico do conjunto de seus integrantes.

O nacionalismo, em seu retrato mais atrasado, acredita que o mundo está dividido entre núcleos de interesses geopolíticos, e que é preciso escapar ao máximo deles para não se correr o risco de se submeter a uma espécie de servidão.

É uma visão que constrói o modelo de “esferas de poder”, como a dos países supostamente subordinados aos Estados Unidos (América Latina), Alemanha (Europa) e Japão (Ásia).

Essa maneira anacrônica de enxergar ignora a integração dos mercados por meio do comércio, em que todos participam do jogo com mercadorias que trazem tecnologia e valor agregado em determinados setores.

O nacionalismo também ignora a emergência econômica da China, que não exerce influência política entre os mais de 130 países que a têm como maior parceira comercial.

O que os chineses querem é acesso à energia e às matérias primas, sem para tanto exercer um poder indireto na política interna de seus parceiros comerciais.

Em outras palavras, a economia mundial tem hoje um perfil bem diferente da segunda metade do século 19, em que o nacionalismo formatava as identidades nacionais e produzia economias de mercado que eram fechadas em si mesmas, para efeitos de mercado interno, mas que se expandiam para controlar países que lhes eram periféricos.

Por fim, a persistência desse "nacionalismo de botequim" não leva em conta as estatais como fonte de corrupção na recente história política brasileira. Mas isso já é um outro capítulo sobre a involução das mentalidades.

MENOS ESCOLARIDADE, APEGO MAIOR ÀS ESTATAIS

Apesar disso tudo, é no mínimo estranha a opinião majoritária dos brasileiros, tal qual constatada pela pesquisa do Datafolha.

Por meio dela, ficamos sabendo que quanto menor a escolaridade (73% para quem tem apenas o ensino fundamental, e 62% para quem tem o ensino superior), maior a proporção dos que se opõem às privatizações.

O mesmo ocorre com as faixas de renda. Famílias com renda de até 2 salários mínimos são mais apegadas às estatais (75%) que aquelas com 10 salários mínimos ou mais (39%).

Quando se pergunta aos entrevistados especificamente sobre a Petrobras, 21% são favoráveis à privatização, contra 70% que são contra e 9% dizem não ter opinião formada.

Em termos regionais, opõem-se com maior peso às privatizações os brasileiros das regiões Norte (78%) e Nordeste (76%).
Em termos partidários, opõem-se mais às privatizações os simpatizantes do PT (83%), seguidos dos que preferem o MDB (75%) e dos que se identificam com o PSDB (55%).

Esse último dado é bastante curioso. O PSDB foi o partido que, com Fernando Henrique Cardoso, privatizou a telefonia, permitindo a expansão magnífica do celular e da telefonia fixa.

Mesmo assim, entre os que dizem que votarão em outubro no tucano Geraldo Alckmin 54% não querem privatizar as estatais.
Ainda em termos de candidaturas, aprovam as privatizações apenas 10% dos eleitores de Lula, 35% dos eleitores de Bolsonaro e 17% daqueles que votarão em Marina Silva.

A conclusão permitida pela pesquisa é surpreendente.

Em sua maioria, os brasileiros acreditam que são coproprietários das estatais e têm por elas um apego semelhante ao que demonstram pelo automóvel que compraram ou pelo imóvel do qual são proprietários.

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