Economia

É incrível, mas Europa quer mais inflação para economia crescer


Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu, quer elevar inflação anual de 0,2% para 2% na Zona do Euro; UE faz previsão de ligeira queda do crescimento do PIB do bloco


  Por João Batista Natali 04 de Fevereiro de 2016 às 11:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


 

O presidente do BCE (Banco Central Europeu), Mario Draghi, fez nesta quinta-feira (04/02) uma declaração inusitada para os padrões brasileiros. Afirmou que pretende aumentar a inflação para o crescimento da economia.

Ele pretende puxar a taxa inflacionária para 2% ao ano, em lugar dos 0,2% atuais.

Se as coisas ficarem como estão, argumenta, a tendência é mergulhar o bloco na deflação (queda generalizada de preços), o que afeta os investimentos e a produção.

Com os preços em queda, os consumidores, investidores e empreendedores não fecham negócios, esperando para fazê-lo depois, por preços menores.

O BCE é o dono da política monetária nos 19 países da União Europeia que adotam como moeda o euro. A EU tem 28 membros. Estão fora do euro países como o Reino Unido, Dinamarca ou Romênia.

A atual taxa referencial de juros na Eurozona é de 0.05% ao ano.

Mario Draghi, 68 anos, preside o BCE desde 2011. Já foi diretor executivo do Banco Mundial e governador do Banco da Itália.

Preocupação semelhante inspirou em 29 de janeiro o Japão, onde o Banco Central local passou a pagar por seus títulos públicos uma taxa negativa (–0,1% ao ano).

A economia japonesa tem sido prejudicada por duas décadas de deflação, o que leva os consumidores a atrasarem suas compras, pela mesma lógica agora temida pela Zona do Euro.

Na Europa e no Japão o raciocínio é oposto ao que vigora, por exemplo, no Brasil, onde a taxa básica de juros de 14,25% procura puxar para baixo uma inflação anual que se aproximou em 2015 de 11%.

Mario Draghi tem sido criticado por alguns efeitos de sua política monetária.  Segundo o Financial Times, uma das consequências seria o barateamento do crédito imobiliário, com o crescimento da demanda por moradias e, por isso mesmo, uma inflação puxada pelo setor da construção civil.

Mas o presidente do BCE rejeitou a crítica, em pronunciamento nesta quinta-feira em Frankfurt, na Alemanha. Argumentou que não existem tais indícios no mercado imobiliário.

Draghi afirmou ainda que forças na economia global “conspiram” para manter a inflação baixa, mas que a tendência poderá a médio prazo se inverter.

O BCE adotou um programa de estímulo ao consumo para permitir um ligeiro aumento da inflação. Trata-se da injeção mensal de 60 bilhões de euros por mês (US$ 67,3 bilhões) no mercado de crédito dos países membros.

CRESCIMENTO MENOR NA EUROPA

A Zona do Euro anunciou nesta quinta que o crescimento econômico do bloco será ligeiramente menor que o previsto. Ele será de 1,7%, em lugar dos 1,8% anunciados em novembro.

Para 2017 a economia também crescerá pouco, 1,9%.

Essa taxa será inferior à da União Europeia, bloco de 28 países. A estimativa é de que ela cresça 1,9%, um pouco abaixo dos 2% que estavam previstos para 2016.

Segundo o serviço noticioso Dow Jones Newswires, o baixo crescimento é explicado sobretudo pela inflação excepcionalmente baixa – o que explica a obsessão do Banco Central Europeu de produzir mais inflação para, com isso, permitir maior crescimento econômico.

Com a economia debilitada, o desemprego na EU será de10,6% este ano e 10,5% em 2017, taxas consideradas excepcionalmente elevadas.

Relatório da Comissão Europeia divulgado nesta quinta-feira em Bruxelas revê ligeiramente para baixo a previsão de crescimento do Reino Unido, Alemanha, França e Itália e Portugal.

Fogem a essa tendência a Espanha e a Grécia, o que fornece, em conjunto, um retrato pouco estimulante para mercados aos quais se destina parcela importante das exportações brasileiras.

Para a Alemanha, a União Europeia reduziu a estimativa de crescimento para 1,8% este ano e em 2017, ante projeção de 1,9% feita em novembro.

Segundo o relatório quadrimestral, este crescimento será apoiado pelo consumo privado e pela despesa pública adicional para integrar o fluxo recorde de imigrantes.

A comissão prevê que o PIB espanhol crescerá 2,8% este ano e 2,5% em 2017, ante 2,7% e 2,4% anteriormente.

Segundo a comissão, a criação de empregos, condições favoráveis de financiamento e os preços baixos do petróleo continuam a alimentar o forte consumo doméstico na Espanha.

No ano passado, a economia espanhola cresceu 3,2%, seu melhor desempenho desde que saiu de uma grave recessão, em 2013, segundo estimativa da UE.

Em relação à Grécia, a comissão projeta que o PIB do país terá contração de 0,7% este ano, menor do que o declínio de 1,3% estimado anteriormente. O número está em linha com a previsão incluída no orçamento grego de 2016.

A UE acredita que a implementação de reformas e o relaxamento mais ágil de controles de capital adotados em meados do ano passado podem melhorar a confiança e fortalecer o desempenho econômico da Grécia.

Quanto a Portugal, a UE cortou sua projeção de crescimento para 2016, de 1,7% para 1,6%. O governo português é mais otimista e prevê expansão de 2,1%, de acordo com seu orçamento.

*Com Estadão Conteúdo

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