Economia

Deu a louca nos preços?


A inflação nas alturas revela que a diferença de valores de um mesmo produto em supermercados vizinhos pode chegar a 47%. Economistas explicam esse fenômeno


  Por Fátima Fernandes 09 de Agosto de 2016 às 08:00

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


Houve uma época em que o consumidor brasileiro se dirigia imediatamente ao supermercado após receber o salário porque, ao longo do dia, os preços dos produtos oscilavam bruscamente.  

Foi um período no qual as maquininhas de remarcações não tinham folga nesses estabelecimentos, durante as décadas de 80 e 90, marcadas pela hiperinflação, quando os preços subiam demais e de forma completamente descontrolada.

De 1980 a 1989, a inflação média do país foi de 233,5% ao ano e, de 1990 a 1999, de quase 500% ao ano, de acordo com a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Um batom chegou a custar o mesmo que 20 frangos. 

É claro que, hoje, o brasileiro está longe de reviver aquele período. Apesar disso, a inflação atual, próxima de dois dígitos, tem acentuado a disparidade de preços de um mesmo produto em estabelecimentos praticamente vizinhos. 

Na tarde da última quarta-feira, a reportagem do Diário do Comércio percorreu três supermercados no bairro de Perdizes, na zona oeste de São Paulo, que estão separados apenas por alguns quarteirões.

De uma lista de seis produtos, escolhidos aleatoriamente, foi possível notar que a diferença de preço de um mesmo item chega a ser de 47%. 

Assim, o preço mínimo de um pote de margarina Becel foi encontrado no supermercado Pastorinho, onde custava R$ 5,83. No Dia, o produto podia ser adquirido por R$ 6,39. E no Pão de Açúcar, por R$ 8,59. Abaixo, outros exemplos:

A variação de preços de um mesmo produto em diferentes estabelecimentos é comum e sempre existiu, mas torna-se praticamente imperceptível quando a inflação é baixa. 

Quem frequenta o supermercado deve ter notado que, atualmente, compensa gastar tempo pesquisando preços antes mesmo de colocar qualquer produto no carrinho.

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Procurados, o Grupo Pão de Açúcar informou que não fala sobre a política de preços. A rede Dia informou que não comenta disparidade de preços. A rede Pastorinho não respondeu ao pedido de entrevista.  

Embora o Brasil esteja longe de conviver com a realidade dos anos 80, a inflação incomoda – e muito - porque está resistente. 

Economistas e especialistas no assunto explicam como ela está influenciando a disparidade de preços nos supermercados, que tem sido mais percebida pelo consumidor.

Fábio Silveira, sócio-diretor da MacroSector

A atividade econômica foi fortemente freada no último ano e, com isso, houve um processo brutal de destruição de valor dos ativos. O mercado está tentando se equilibrar e não há força de governo que consiga interferir no quadro de ajuste.

Nessa chacoalhada da economia, o empresário teve de rever a gestão dos estoques. Quantos pacotes de sabão ele deve armazenar para vender neste mês? 100, 500, 800? Os empresários e funcionários do varejo estão atordoados com essas questões. E o que espelha essa sensação de forte mudança de parâmetro são os preços.

O preço é a unidade de medida que mostra o quanto uma economia está organizada ou desorganizada. Assim, quando a diferença de preços de um mesmo produto é pequena entre estabelecimentos de uma mesma região, significa que a economia está em ordem e a sociedade está equilibrada, ajustada.

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Quando há disparidade de preços, revela-se um desequilíbrio e uma falta de rumo para a economia de uma sociedade, situação a qual o país atravessa hoje.

A expectativa é que a inflação oficial, que encerrou 2015 em 11% ao ano, possa terminar 2016 perto de 8%. Apesar desse arrefecimento, o índice ainda é alto e mostra que a economia ainda não encontrou o ponto de equilíbrio. 

Isso é explicado por alguns fatores, como a própria crise política, o desemprego elevado e a indústria perdendo força. Tudo contribui para aumentar a insegurança de empresas e consumidores, afetando tanto a política de compras quanto os preços praticados pelo varejo.

Ulisses Ruiz de Gamboa, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP)

Com a aceleração da inflação, a disparidade de preços fica mais evidente porque os custos aumentam de forma diferenciada. Além disso, a política de preços das empresas é mal conduzida na maioria das empresas brasileiras, pois acaba seguindo um critério de padaria.

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O país enfrenta uma crise e os empresários aumentam os preços. A inércia inflacionária nunca deixou de existir no Brasil. Por isso, quando o dólar sobe, o aluguel aumenta. 

Um terço do IPCA é determinado pela correção monetária. Sabe quantos índices de inflação existem hoje no Brasil? 29 até meia-noite de hoje (03/08).

Outro fator que explica a disparidade de preços é que algumas empresas estão mais preparadas do que outras para operar. Uma rede como o Walmart, por exemplo, pode conseguir mais descontos de fornecedores do que o mercadinho de bairro.

Heron do Carmo, professor da FEA/USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo)

A disparidade de preços sempre existiu porque um estabelecimento realiza promoção de um produto e outro não. Muito provavelmente, quando há um produto mais barato em um supermercado, ele compensa outro de preço maior. 

O que explica a disparidade é a política de compra e de preços do supermercado. O combustível, por exemplo, é uma commodity. Não era para existir uma forte diferença nos valores praticados pelos postos, mas isto ocorre porque o preço depende do serviço oferecido, do tamanho e da localização do estabelecimento e de seus custos.

No caso de um produto importado, vendido em supermercado, o preço também vai depender da taxa de câmbio usada e da saída do produto.

Emílio Alfieri, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP)

Quanto maior a inflação, maior tende a ser a disparidade de preços, pois os reajustes feitos pelas empresas ocorrem em momentos diferentes e não coincidem.

Outro aspecto a ser considerado é a logística do negócio. Há comerciantes que compram no atacado e outros, diretamente da indústria. Algumas empresas fazem compra centralizada e outras não.

No passado, na época da hiperinflação, o reajuste era feito na hora. O comerciante comprava e remarcava e não havia código de barras.

O perigo de uma inflação em torno de 10%, como a atual, é a inércia inflacionária (que ocorre independentemente do aumento de custos, já que os preços são reajustados com base na inflação passada e na expectativa para o futuro). 

É por isso que o governo quer que a inflação fique mais perto de 5% e não de 10%. Os produtos que apresentam maior disparidade de preços geralmente são aqueles afetados por condições climáticas, como os derivados de leite, queijo e iogurtes.

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Patrícia Costa, supervisora da área de preços do Dieese  

Quando a inflação aumenta perde-se a referência de preço relativo. O que está acontecendo é uma série de choques de ofertas. Quando o consumidor vê que o quilo do feijão custa R$ 15, R$ 16, R$ 20, acaba perdendo a referência do que o dinheiro pode comprar.

Alguns supermercados tendem a fazer promoções de alguns produtos, mas aumentam os preços de outros. Assim, o consumidor perde a noção dos valores. A dispersão de preços pode estar mais evidente, atualmente, em produtos oligopolizados.

Cristina Martinussi, supervisora de pesquisa do Procon

A disparidade de preços sempre existiu. A diferença é que é mais perceptível porque os produtos estão mais caros, e o orçamento do consumidor, mais apertado. O Procon orienta o consumidor a sempre fazer pesquisa de preços.

O que tem pesado mais sobre a inflação são os preços dos alimentos, devido a efeitos climáticos e instabilidade econômica dentro e fora do país.

De 5 de janeiro a 30 de junho, os preços de 39 produtos que compõem a cesta básica subiram 8,78% em relação a 30 de dezembro de 2015. 

Do grupo alimentação, o feijão foi o que mais pressionou a inflação da cesta no período, com alta de 137,59%. 

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