Economia

Descolamento da economia e da política continua em 2018, diz Octavio de Barros


Inflação seguirá baixa e PIB pode crescer mais de 3%, prevê o consultor e ex-economista do Bradesco no Comitê de Avaliação da Conjuntura da ACSP


  Por João Batista Natali 26 de Outubro de 2017 às 14:59

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


O economista Octavio de Barros acredita que em 2018 prosseguirá o descolamento entre a política e a economia.

A seu ver, a campanha presidencial não contaminará a previsão de inflação baixa e um crescimento do PIB até maior que 3%.

Também afirmou ser necessária uma renovação institucional, que leve em conta “o desgaste do modelo analógico de democracia, num mundo que já se digitalizou”. Algo semelhante ao que o presidente Emmanuel Macron está fazendo com a França.

Barros foi por 15 anos economista-chefe do Bradesco e hoje atua com sua empresa de consultoria e dirige um think tank sem fins lucrativos, o Instituto República, cujo projeto é pensar o futuro das instituições.

Foi ele o palestrante, nesta quinta-feira (26/10), do Comitê de Avaliação da Conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

O comitê tem como superintendente o economista Marcel Solimeo. Também estava presente Alencar Burti, presidente da ACSP e da Federação das Associações Comerciais de São Paulo (Facesp).

Para Octavio de Barros, o mérito para o descolamento entre a política e a economia pertence ao ministro da Fazenda Henrique Meirelles, e à equipe econômica coesa que ele montou.

Não se trata de criticar Michel Temer, que o economista qualificou como “o mais reformista” entre os últimos presidentes, pela quantidade de reformas que conseguiu até agora aprovar.

A seu ver, o sucessor de Temer precisará reunir quatro qualidades. Deverá ser inspirador, agregador, politicamente reformista e ter capacidade para articular o Congresso.

Esse último atributo, disse Barros, não está presente em Luciano Huck, uma das únicas menções diretas que ele fez ao atual quadro potencial de pretendentes.

Afirmou que “nossas instituições ainda são analógicas” (sindicatos, partidos políticos) e não respondem à demanda daquilo que ele considera “um desconforto mundial com a representação política”.

A EXPERIÊNCIA FRANCESA

E nesse ponto que Octavio de Barros apela para o atual exemplo francês. “É muito fácil ganhar eleições, o difícil é governar”, disse.

Já em sua campanha eleitoral, no primeiro semestre deste ano, o presidente Macron reuniu, de um lado, valores  da sociedade francesa – direitos individuais, apoio às minorias -, que são o forte do discurso da esquerda, e de outro lado uma visão fortemente liberal da economia.

Na mesma campanha eleitoral de Macron, até a extrema-esquerda tinha uma visão correta sobre o casamento entre a política e as novas tecnologias.

Seu candidato, Jean-Luc Mélenchon, fazia dez comícios simultâneos. Estava presente num só deles. Nos demais, quem discursava era seu holograma.

Sem tomar esse modelo como exemplar, Barros diz que ele reflete a adesão a novas formas digitais de democracia, a exemplo do que fazem as pessoas ao “curtirem” os posts alheios em redes sociais.

As condições brasileiras de 2018 são favoráveis, disse ele. Estaremos com uma taxa Selic de 6,5% e a manutenção da queda no preço dos alimentos que desestimula a inflação.

O país, no entanto, tem alguns graves problemas. Hoje, a idade média da população é de 29,8 anos. Em 2050, ela será de 43 anos. Nenhum outro país dará um salto tão significativo em termos de envelhecimento.

Citou uma geneticista norte-americana, para quem já nasceram crianças que viverão 134 anos. Por aqui, crianças de dois ou três anos poderão chegar a 105 anos.

É por isso que a reforma da Previdência não obedece apenas à lógica do equilíbrio fiscal. Ela precisa ter a perspectiva da longevidade em mente.

A curto prazo, disse ele, a economia se beneficia no Brasil por inexistir um aperto monetário global. “Haverá grande liquidez”.

“A ECONOMIA DIGITAL É DEFLACIONÁRIA”

No início de 2017, diagnósticos pessimistas para a economia global não se confirmaram. Os Estados Unidos estão com inflação e desemprego baixos, o que não era habitual.

Também por lá, “a economia digital é deflacionária”, porque ela joga os preços para baixo.

Por outro lado, em termos globais, entre os 40 países mais ricos o Brasil é aquele que tem a economia mais fechada.

Por isso, Barros se diz defender de uma abertura unilateral da economia em áreas que precisem funcionar com maior produtividade.

Também acredita que estamos no momento de privatizar a Petrobras, em razão do final próximo do ciclo do motor a combustão.

Disse que acabaram os tempos em que, por termos mão-de-obra barata, atraíamos investimentos estrangeiros. “Hoje, com hologramas e impressoras em três dimensões, a Alemanha voltou a produzir tecidos e calçados.

“Não existem barreiras na revolução digital. O Brasil vai precisar trocar o pneu do carro com o carro andando”, afirmou.

Ele disse, por fim, que existem duas características ruins nos setores público e privado brasileiros. Somos “um país que historicamente despreza a restrição orçamentária”, e “há um desprezo à eficiência alocativa de recursos: colocamos dinheiro no lugar errado”.

RECUPERAÇÃO AINDA É LENTA

Antes da palestra de Barros, o Comitê de Avaliação da Conjuntura fez um sobrevoo sintético sobre as tendências setoriais.

No segmento de embalagens, excetuado os setores de medicamentos e higiene pessoal, o quadro ainda é moroso. As exportações, no entanto, estão crescendo.

A indústria deve fechar o ano com um crescimento de 1,5%, encerrando de vez o ciclo recessivo. E com algumas informações setorialmente muito boas.

Uma montadora que produz caminhões cancelou as planejadas férias coletivas, enquanto outra acredita que crescerá 20% em 2018.

No segmento de alimentos e bebidas, ocorreu um aquecimento a partir de agosto (mais 1,4%), contrastando com a estagnação dos meses anteriores.

A perspectiva é que continue a haver um barateamento dos preços, o que tende a aumentar o volume de alimentos vendidos nos supermercados.

FOTO: Thaís Ferreira/Diário do Comércio