Economia

Depois do susto, o que esperar de Trump, o novo presidente dos EUA


Vitória do candidato republicano deverá impor o protecionismo e a desestimular o comércio internacional, o que preocupa o Brasil. Se cumprir promessas, Trump denunciará o Nafta (acordo com México e o Canadá) e se aproximará de Moscou


  Por João Batista Natali 09 de Novembro de 2016 às 11:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Governantes, empresários e simples cidadãos acordaram nesta quarta-feira (09/11) sob os efeitos de um enorme susto, com a eleição de Donald John Trump, de 70 anos, como o 45o presidente dos Estados Unidos.
 
O candidato do Partido Republicano oscilou com tamanha frequência em seus discursos de campanha que o horizonte político que ele desenha é contraditório e, por vezes, carente de seriedade.

Suas propostas, no entanto, têm como denominador comum a ideia de que é preciso recuperar a antiga prosperidade da classe média de baixa escolaridade, que foi justamente a que perdeu espaço com os ganhos da globalização.

É claro que essa visão tosca acaba demonizando o comércio internacional, como se fosse ele – e não a tecnologia – o responsável pela perda de empregos menos especializados na economia americana. 

A importância dos ganhos tecnológicos nesse processo no plano global tem sido bastante estudado pela Organização Mundial do Comércio (OMC) e por economistas alheios ao simples senso comum.

Para Trump, no entanto, os Estados Unidos devem denunciar imediatamente os acordos de livre comércio que ele herdará da administração do democrata Barack Obama.

Entre eles, o Nafta (EUA, México e Canadá) e a Parceria TransPacífica (TPP), que ainda não está em vigor e que uniria Japão e tigres asiáticos e mais algumas economias latino-americanas, além, é claro, de canadenses e americanos.

O efeito mais imediato dessa visão anti-mercantil modifica o papel ds Estados Unidos como a principal economia global – também em suas exportações e importações.

O protecionismo com o qual Trump acenou é a porta de entrada para o declínio de um longo ciclo de crescimento mundial, interrompido brevemente em 2008 pela crise das hipotecas imobiliárias americanas (subprime).

Na prática, o novo presidente americano pretende retaliar a China, o Japão, o Vietnã e a Índia por terem acesso ao mercado americano por meio de, segundo ele, moedas artificialmente subvalorizadas.

Em determinado momento da campanha, Trump anunciou que imporia aos produtos chineses uma tarifa alfandegária de 45%.

É pouco provável. A economia americana depende da China, que subscreve dois terços de seus títulos da dívida pública. Caso Pequim – numa hipotética retaliação – queira de desfazer de uma hora para outra desses títulos, os chineses quebrariam o dólar.


EFEITOS NO BRASIL

É difícil prever desde já os efeitos de medidas que Trump ainda não anunciou e que poderão ser até moderadas, dependendo do perfil técnico e político da equipe de governo que ele irá montar.

Mesmo assim, o Brasil não passará a ser uma prioridade na agenda de Washington, a exemplo do que já ocorria sob Barack Obama.

O ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Rubens Barbosa, assinalou recentemente que os brasileiros não integram nenhuma das 15 questões principais que a Casa Branca define para o comércio e a diplomacia.

Nesta quarta-feira, o presidente Michel Temer afirmou que as relações de seu governo com Trump seguiriam inalteradas, já que os dois países têm instituições estáveis e um longo histório de políticas entre Estados.

Seus assessores mais próximos, no entanto, expressaram sólidas preocupações sobre a possibilidade de queda nas exportações brasileiras de produtos agrícolas e industrializados. Os EUA são o segundo parceiro comercial do Brasil, logo depois da China.

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Outra questão bilateral delicada é a da imigração. Em cifras redondas, moram nos Estados Unidos 1 milhão de brasileiros, e entre eles 600 mil de maneira irregular.

Trump prometeu expulsar esses chamados imigrantes clandestinos. Referia-se prioritariamente aos mexicanos e centro-americanos (os hispânicos).

Não está muito clara a logística para tão superlativa expulsão. Mas se o presidente eleito colocar a ameaça em prática, mesmo de maneira parcial, criará atritos com seus vizinhos do sul e  provocará problemas sérios nos mercados locais de trabalho.

Pode-se argumentar que há uma longa distância entre promessas de campanha e medidas efetivas de governo. Mas o fato é que Trump foi tão enfático em sua retórica anti-imigração que precisará fazer alguma coisa para saldar essa dívida contraída com o eleitorado.

Construirá um muro na fronteira com o México, ao custo de US$ 12 bilhões? Bloqueará o acesso de imigrantes legais muçulmanos? Impossível, por enquanto, saber.

Mas Trump poderá, com menores polêmicas, tornar mais rígidas as normas para a concessão de vistos de entrada, triplicar os agentes dos serviços de imigração e aplicar a tolerância zero para imigrantes que cometerem crimes.

MUDANÇA RADICAL NA DIPLOMACIA

O Departamento de Estado dispõe de 6 mil diplomatas altamente qualificados. Eles sabem a diferença entre diplomacia própria a um governo democraticamente eleito e os compromissos permanentes do Estado americano.

É por isso que são por enquanto cuidadosas as reações sobre a aplicação das promessas de Trump. Algumas delas, no entanto, são preocupantes.

Com uma sofrível simplicidade, o então candidato republicano disse que se aproximará da Rússia para eliminar, na Síria e no Iraque, o grupo radical terrorista Estado Islâmico.

Essa aliança com Moscou significa, no entanto, abandonar como prioridade a derrubada do ditador sírio Bashar Al-Assad e a própria ideia de favorecer a democracia no Oriente Médio.

Ao se associar com o presidente russo Vladimir Putin, Trump também romperá o cerco que os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU acabaram por impor a Moscou, depois de seu conflito com a Ucrânia e com a inadmissível anexação pelos russos da Crimeia.

Trump também propôs em campanha que o Japão, Alemanha, Coreia do Sul e Arábia Saudita arquem com parte dos custos da proteção militar que os Estados Unidos prestam nessas regiões.

REVIRAVOLTA NO AQUECIMENTO GLOBAL

Por fim, Donald Trump acredita – contrariamente ao consenso existente na comunidade científica internacional – que o aquecimento global não é o produto de ações provocadas pelo homem.

Ele promete se retirar do Acordo de Paris (2015), que estipulou metas para a diminuição da emissão de gases de efeito-estufa.

Disse que estimulará nos Estados Unidos a indústria do carvão e retomará o projeto, engavetado por Obama, de construir o oleoduto de Keystone, que ligaria o Golfo do México ao Canadá.

São promessas assustadoras, tanto quanto quase todo o conjunto da obra do presidente eleito dos Estados Unidos.

FOTO: Mark Taylor/Creative Commons