Economia

Crise obriga brasileiro a comprar carro velho


Sem condições de financiar um veículo zero, ou até mesmo comprar um seminovo, o jeito é apelar para o “velhinho”, de até doze anos de uso


  Por Wladimir Miranda 24 de Abril de 2019 às 09:10

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Houve uma queda de 21.9% nas vendas de veículos com até três anos de uso, nos três primeiros meses de 2019, em relação ao mesmo período de 2018. Os chamados seminovos ficaram fora dos planos dos brasileiros.

Sem dinheiro no bolso para adquirir um carro quase novo, o consumidor está tendo de se contentar com o veículo mais antigo.

“O que cabe no bolso do consumidor neste momento é um carro com nove, e até doze anos de uso”, afirma Ilídio dos Santos, que é presidente da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto).

A volta ao passado, aumentou em 1,5% a procura pelos “velhinhos”, isto no último mês de março.

É um dado negativo para o setor, mas Ilídio consegue ver neste movimento pelo menos um aspecto positivo.

ZERO HOJE, SEMINOVO AMANHÃ

“O zero que sai a concessionária hoje, amanhã já será um seminovo. Ou seja, virá para o nosso mercado”, afirma.

Segundo Ilídio, as condições oferecidas pelas montadoras atualmente favorecem e muito quem quer comprar um veículo novo e tem condições de pagar à vista ou até mesmo enfrentar um financiamento.

“As montadoras vieram agressivas. São muitas as opções de modelos e preços oferecidos aos consumidores. Cresceu o número de vendas feitas por financiamento. Até três, quatro anos atrás, 20% dos carros comprados no Brasil eram financiados. Hoje, 45% dos negócios feitos com as montadoras são concretizados por intermédio de financiamento”, lembra.

O fato é que a procura por veículos mais antigos, provocou o envelhecimento da frota nacional.

Uma outra possibilidade para o cliente adquirir seu carro novo, além do financiamento e da compra à vista, lembra Ilídio, são os consórcios.

“Os consórcios representam hoje 11, 12% das vendas de veículos no Brasil. Mas quem optar pelo consórcio, tem de saber que o que vale é a carta de crédito. Com a carta na mão, o consumidor pode comprar tanto um carro novo, como um seminovo ou usado”, avisa.

O que, na avaliação de Ilídio, precisa ser feito rapidamente para que a economia brasileira volte a crescer é a reforma da Previdência.

“Temos de resolver a questão política. Esta indefinição afeta a economia. O país precisa gerar mais empregos e isto só vai acontecer quando houver um consenso político e a Reforma da Previdência finalmente sair do papel”, disse ele.

A Fenauto, com sede em São Paulo, agrega 48.545 lojas de veículos seminovos e usados em todo o Brasil.

Relatório da entidade dá conta que, no geral, levando-se em consideração veículos seminovos e usados, as vendas no mês de março de 2019, na comparação com fevereiro, recuaram 7.1%.

Estudo divulgado pelo Sindipeças revela que a idade média dos veículos em circulação no país é a maior em 18 anos.

CARNAVAL EM MARÇO

O que pode ter contribuído para a queda, de acordo com a Fenauto, foi o fato de o Carnaval ter ocorrido em março. “A aceleração da atividade econômica, normalmente, se faz sentir após o Carnaval”, afirma Ilídio.

Houve um recuo de 8.9% no movimento de vendas entre março de 2019 e março de 2018.

O relatório ressalta que o dado positivo é que, no acumulado do ano, há um avanço de 1,5%, mostrando que o segmento de seminovos e usados dá sinais de recuperação.

“O segmento dá sinais de que está refletindo o índice de Confiança do Consumidor. Em março, o ICC da Fundação Getúlio Vargas teve um recuo de 5,1 pontos em relação a fevereiro, caindo de 96,1 para 91,0 pontos, o menor valor desde outubro de 2018. Com essa expectativa no desempenho da economia, por parte do consumidor, é razoável aceitar esse recuo de vendas”, analisa Ilídio dos Santos.

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