Economia

Como prever o futuro? Aqui vai uma rápida história desse enigma


O futurólogo americano Alvin Toffler acaba de morrer. Mas, bem antes que ele fizesse suas previsões (computador pessoal, clonagem de seres), a humanidade já se preocupava em saber o que virá amanhã


  Por João Batista Natali 30 de Junho de 2016 às 15:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Tentar prever o que acontecerá no futuro é uma chave fundamental em qualquer campo de atuação humana. Vale para os negócios e para a política, para prever cotações do mercado ou até mesmo para o desfecho de aspirações amorosas.

É algo velho como andar para a frente. Mas é uma questão momentaneamente relevante, com o anúncio, nesta quarta-feira (29/06), da morte do futurólogo norte-americano Alvin Toffler (1928-2016), autor do já clássico "Choque do Futuro" (1970).

Com uma interpretação correta das tecnologias que evoluíram rapidamente no pós-Guerra, ele fez previsões luminosas sobre a clonagem de seres vivos, a aparição de computadores domésticos e a interconectividade global da internet.

É um best-seller, ao lado de uma boa centena de conhecidos autores que se entregaram ao assunto. Mas o atraente não é tanto discutir se o tempo deu razão a Toffler e a seus colegas de pensamento.

TOFFLER: DESVENDANDO O FUTURO

O verdadeiramente curioso é descobrir como a questão é antiga dentro da história da humanidade. E como o ser humano, por meio de processos de antecipação do futuro, traduziu, por sua inteligência, o inconformismo com a posição cronológica – o presente - à qual está confinado.

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O mais antigo conjunto de técnicas de previsão está na astrologia, que nasceu há mais de 4 mil anos, na Índia, China e, um pouco mais tarde, entre os Maias, na América Central.

As técnicas de observação dos astros e o desenho que eles faziam do futuro são conhecimentos aperfeiçoados na antiga Mesopotâmia, em torno do século 18 antes de Cristo, que foram em seguida exportadas para Grécia e Roma e, depois, para o mundo árabe e Europa Central.

Vieram também os oráculos, templos “frequentados” por deuses que, por serem imortais e transitarem em todos os sentidos pela linha do tempo, eram capazes de prever e de intervir no desfecho de guerras ou na fertilidade do solo, informação fundamental porque dela dependiam os alimentos e a sobrevivência de uma população.

Mas o politeísmo dos oráculos foi-se extinguindo com a prevalência do monoteísmo judaico-cristão. Que conviveu com a astrologia, e ela ainda atrai até hoje multidões.

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Um exemplo do passado remoto. Na Inglaterra, o advogado de um homicida no século 17 poderia pedir ao juiz uma pena amenizada se conseguisse comprovar, com a ajuda de mapas, que seu cliente estava no inferno astral no momento do crime.

A mistura de métodos de adivinhação com a intervenção ativa no futuro – uma das promessas da feitiçaria – compõe todo um outro capítulo histórico. A grande repressão às feiticeiras não foi medieval, mas começou já na Época Moderna (século 16), como demonstrou o historiador francês Jules Michelet (1798-1874), o primeiro grande pesquisador do tema.

Mas a questão do futuro passou a ser analisada de outro modo, bem mais racional e inequívoco, no terreno da filosofia. Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) fundou a dialética, pela qual a história possuía movimentos próprios.

Não era um método de previsão, mas a aceitação do princípio de que certas leis regiam historicamente a evolução da humanidade. A tese foi apropriada por Karl Marx (1818-1883), para quem a dialética havia gerado o capitalismo, mas trazia em seu bojo o socialismo como antítese que viria à tona por meio da luta de classes.

Dentro da própria filosofia, um conjunto de pensadores consistente contestou essa visão mecânica da história – e do futuro -, e no final do século 20 uma concepção bem mais livre daquilo que seria o homem já afirmava, sem pudor nenhum, que somos todos fruto de circunstâncias aleatórias, do acaso.

Ou seja, não dava mais para prever grandes segmentos do futuro.

E, com a evolução e sofisticação do capitalismo, a questão do futuro se tornou bem mais pragmática, uma necessidade de curto prazo. Em 1886, por exemplo, surge a consultoria de gestão, com Arthur D. Little.

A consultoria que ele fundou, e que ainda hoje funciona em 30 países, foi a primeira a se referir a uma cultura pela qual determinada empresa cresce e sobrevive no mercado caso se organize internamente para tomar decisões corretas.

Existem hoje milhares de autores e estudiosos acadêmicos que se encaixam nessa lógica. Em todas elas, no entanto, é claro que não se trata de “prever o futuro”, segundo a lógica dos astrólogos e feiticeiros.

E por meio de consultorias financeiras, de relações humanas ou marketing, temos em mãos instrumentos modernos de gestão que nos permitem construir nosso próprio futuro. E não depender de um futuro produzido por forças metafísicas, astrológicas ou sobrenaturais.

IMAGEM: Thinkstocks