Economia

Com a eleição de Macron, a globalização agora respira aliviada


Marine Le Pen, a adversária derrotada no domingo, queria retirar a França da União Europeia -o que provocaria uma fratura irrecuperável nos mecanismos de integração dos mercados


  Por João Batista Natali 08 de Maio de 2017 às 14:39

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Os 66% dos votos que elegeram Emmanuel Macron para a presidência da França, neste domingo (07/05), significam, no plano comercial, que a União Europeia (EU) será mantida e, com ela, sobrevive um dos territórios fundamentais da globalização.

Essa imensa máquina de integração dos mercados, que passou ao primeiro plano das relações internacionais com as redes informatizadas de finanças e com o fim do comunismo no Leste Europeu (1989), correu sério risco com a candidata da extrema direita francesa, Marine Le Pen.

Duas ameaças de cunho protecionista emergiram em 2016, com o plebiscito, em junho, que decidiu pela saída do Reino Unido da EU, e a eleição, em novembro, de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos.

Mas esses dois episódios são, por enquanto, menos trágicos que aparentavam de início. O Brexit começa a ser negociado, mas com a primeira-ministra Theresa May na defensiva.

Ela não conseguiu impor às instituições de Bruxelas um calendário que privilegiava a manutenção do livre comércio com seus ex-26 parceiros de EU.

Para tanto, Londres precisará dar garantias para os cidadãos de países europeus que vivem e trabalham no Reino Unido e não obterá garantias automáticas para o estatuto dos britânicos que residem no Continente.

É um tema complicado, acompanhado por negociações das dívidas pendentes do Tesouro britânico com Bruxelas e, a rigor, nada que implique um suicida isolacionismo comercial do Reino Unido.

Com relação a Trump, tudo indica que estão funcionando os freios e contrapesos institucionais que impedem que um presidente norte-americano tome decisões menos responsáveis.

A respeito, vejamos dois exemplos. A ideia de impor uma sobretaxa às importações chinesas foi em definitivo esquecida. À defesa da globalização, feita em janeiro pelo presidente Xi Jinping, em Davos, seguiu-se de conversações informais por três dias, entre os dois presidentes, na Florida.

O segundo exemplo é o México. O projeto hediondo de um muro “a ser pago pelos mexicanos” deu lugar à promessa de renegociação do Nafta, o acordo de livre comércio para a América do Norte, para a qual, em abril, disseram estar abertos o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, e o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto.

O conflito comercial foi então colocado em banho-maria. Prevalece por enquanto a lógica que levou a indústria norte-americana a diversificar suas fontes de fornecimentos de peças e produtos, em troca de exportações sem direitos alfandegários.

O TAMANHO DO FANTASMA EUROPEU

Mas o perigo que pairou na Europa foi incomparavelmente maior, porque ele não dizia respeito apenas ao comércio.

Atingiria, também, as instituições que nasceram em 1957, com a criação do Mercado Comum Europeu, e que se radicalizaram em 1992, com o surgimento da UE, pelas mãos do Tratado de Maastricht.

Marine Le Pen, a candidata ultranacionalista derrotada neste domingo, queria que a França se retirasse da Europa e readotasse o franco francês, em lugar do euro, que está em vigor desde 2002 em 17 países do bloco.

Em termos políticos, a União Europeia tem como espinha dorsal a Alemanha e a França. Foram os dois países que se enfrentaram em três guerras, entre 1870 e 1945, e entre os quais a interdependência de interesses econômicos e culturais é hoje uma sólida garantia para a manutenção da paz regional.

A aloprada Le Pen não provocaria esses dois recuos por Medida Provisória. Convocaria referendos. Durante sua campanha, ela tentou vender a ideia de que o isolacionismo era o caminho para a prosperidade.

Tratava-se, no entanto, de uma fantasia com seu tecido cheio de buracos grotescos, o que se evidenciou no debate pela televisão da última quarta-feira (03/05), da candidata da Frente Nacional com Emmanuel Macron.

Um único exemplo. Com a possível retirada francesa da moeda comum, as empresas francesas seriam obrigadas a manter duas contabilidades paralelas, uma em franco, para pagar seus assalariados, e outra em euro, para seus fornecedores europeus de insumos ou clientes não-franceses para seus produtos.

E quem é que garantiria que o franco teria sua paridade mantida? Alguns estudos de consultorias indicavam que a antiga moeda, se ressuscitada, perderia um terço de sua paridade. Que seria também a perda do mercado interno francês, já que a poupança dos consumidores iria derreter.

Em outras palavras, o binômio inflação/desemprego se abateria sobre a França, ao lado da fratura da União Europeia.

OS INTERESSES EUROPEUS DA RÚSSIA

Num segundo momento, a Europa deixaria de ser ela mesma. Não que ela seja hoje um conto de fadas com invejável harmonia institucional. A crise da Grécia (2015) e os frequentes xiliques diplomáticos da Polônia são provas dos muitos problemas existentes.

Mas a radical integração europeia significa que – em termos comerciais, industriais, financeiros e culturais – estão todos no mesmo barco, com vínculos cuja ruptura só interessa os mal-intencionados terceiros.

E quem são esses terceiros? Em primeiríssimo lugar, a Rússia, cujos planos de expansão e de grandeza passam pelo enfraquecimento econômico e militar do bloco europeu.

Prova disso está na intervenção do Kremlin na Ucrânia (e em seguida na anexação da península ucraniana da Crimeia), tão logo cresceu naquele país o projeto de se aproximar do bloco europeu para neutralizar a tutela oficiosa de Vladimir Putin.

É claro que a divisão europeia também satisfaz interesses estratégicos da China. E isso apenas não ocorre com os Estados Unidos porque, desde a Guerra Fria, os norte-americanos são os principais sócios do guarda-chuva militar que se abre sobre o continente e que se chama Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Há algumas semanas a revista The Economist evocou um seriado para a televisão dos anos 1880, em que um personagem comicamente assinalava que, nos últimos 500 anos, os britânicos tiveram uma única e constante obsessão em política externa: estimular a desunião entre os europeus.

FOTO: Facebook/EnMarche