Economia

China volta a balançar, e cresce o medo no Brasil


Bolsa fechou em meia hora de pregão, despencando pela segunda vez nesta semana; país é maior cliente do Brasil em soja e ferro


  Por João Batista Natali 07 de Janeiro de 2016 às 11:55

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


A interrupção do pregão de ações na China pela segunda vez nesta semana, em razão de queda superior a 7%, afetou nesta quinta-feira (07/01) as bolsas europeias, que caíram em até 3%, com fortes consequências para os indicadores do Brasil.

O índice Bovespa caia na abertura 2,26%, com destaque para a Vale (mais de 3%), diretamente afetada por ter na China seu principal mercado para o escoamento do ferro.

O dólar subia quase 1%, superando novamente o patamar dos R$ 4,05. O petróleo, que na véspera havia rompido para baixo o patamar de US$ 35 o barril, caia mais de 4%, cotado a US$ 33,34 para o barril do brent (de maior qualidade).

A crise chinesa afeta a economia brasileira pela nova previsão em queda na compra de soja e ferro pelo gigante asiático. Um outro fator está na desvalorização do yuan para tornar as exportações da China mais competitivas, o que torna os produtos chineses mais baratos – ou menos caros, já que o real está perdendo valor – no Brasil.

Não é verdadeira, no entanto, a tese do governo brasileiro de que a atual recessão tenha sido provocada por fatores externos, sobretudo pela queda das compras da China. A desaceleração daquele país começou em 2012, e o PIB brasileiro passou a cair no segundo trimestre do ano passado.

As razões do crescimento negativo, por aqui, estão no desequilíbrio fiscal, provocado pelo excesso de gastos públicos e pelo plano de reeleger a qualquer custo, em 2014, a presidente Dilma Rousseff.

A situação da economia chinesa é delicada por um conjunto de fatores. Os mais imediatos, que afetaram as bolsas, estavam na determinação do governo em proibir até o final de dezembro último que grandes investidores institucionais, como os fundos locais de pensão, de se desfazerem de suas ações.

A medida foi agora suspensa, diante da perspectiva de uma venda maciça de títulos que, inevitavelmente, levaria as cotações a despencar ainda mais.

Mas há também fortes dúvidas quanto ao verdadeiro crescimento da economia do país. O governo anunciou que em 2015 o PIB cresceria 6,5%, mas ele deverá ser inferior, conforme demonstram os índices menores de produção industrial, anunciados nesta quarta-feira (06/01).

Considera-se hoje plausível que a economia fechará em 5%, embora as consultorias ocidentais considerem que o fechamento de qualquer previsão é dificultado pela falta de transparência dos indicadores.

A BBC afirma que os governos provinciais têm inflado as previsões de crescimento enviadas a Pequim. Os orçamentos das províncias, por sua vez, são afetados pela política do governo central de combate à corrupção, o que se traduz pela suspensão ou adiamento de investimentos.

Há por fim um desequilíbrio fiscal, que será de 2,3% do PIB, pouco maior que os 2,1% registrados em 2014. A solução consistiria, para o governo, em gastar menos, o que repercutiria na taxa menor de crescimento.

Em termos estruturais, a China procura passar gradativamente de um modelo baseado nas exportações para uma valorização maior do mercado interno, afrouxando as amarras dos salários que permanecem num patamar internacionalmente baixos.

Um dos indícios de que o plano está funcionando é dado pela expansão do setor de serviços, que, ao contrário do industrial, segue em linha ascendente.

Há também a necessidade de superar a bolha imobiliária em que o país mergulhou, em razão da construção de moradias em quantidade bem superior à capacidade do mercado em comercializá-las.

Essa questão seria quase irrelevante se falássemos de um estoque de 40 ou 50 mil apartamentos não vendidos. Mas em escala chinesa (com 1,3 bilhão de habitantes) são milhões os imóveis encalhados, o que afeta um setor financeiro, responsável pelos financiamentos que se expandiam sem qualquer perspectiva de crescimento baixo.

Existe, por fim, o temor sobre os efeitos de um aumento das taxas de juros nos Estados Unidos. Isso atingiria as empresas chinesas endividadas em dólar.

Mas é um fator de certo modo paradoxal, porque o Tesouro chinês sairia ganhando, na medida em que parte de suas superlativas reservas cambiais (US$ 3,3 trilhões) está investida em títulos da dívida americana.

De qualquer modo, o investidor americano George Soros disse em palestra no final do ano que a China estava às vésperas de enfrentar um problema imenso para ajustar sua economia. E disse que isso poderia provocar uma crise ainda maior que a de 2008, quando a imensa crise no mercado imobiliário americano se espalhou pelo conjunto de instituições financeiras.