Economia

Cercada de incerteza, recuperação da economia será lenta


Para economistas, retomada depende de consenso político. Brasil pode levar 10 anos para reconquistar selo de bom pagador da S&P


  Por Estadão Conteúdo 11 de Setembro de 2015 às 18:16

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


A perda do selo de bom pagador - o grau de investimento da agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P) - nesta semana reforçou a tese de que a crise econômica será longa e se estenderá além do próximo ano. Pelo menos é o que avaliam os economistas. 

 Para o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, o desafio do ministro da Fazenda Joaquim Levy é evitar novos rebaixamentos a partir de agora. 

"Eu acho que o Brasil só recupera o grau de investimento daqui a uns 10 anos. O governo tem a ilusão, e talvez o ministro Levy tenha também, de que, se houver reformas, o grau será restaurado rapidamente. Mas isso não vai acontecer. São raros os casos em que isso acontece. Em geral os países levam de 5 a 6 anos para restaurar o selo de bom pagador", disse, após palestra para membros da Ordem dos Economistas do Brasil nesta sexta-feira (11/09).

Segundo Mailson, a retirada do grau de investimento do Brasil por parte da agência de classificação de risco S&P deve acionar o senso de urgência do governo e do Congresso para enfrentar a crise econômica. "Esse é o efeito positivo", pontuou.

"O cenário se agravou com o rebaixamento e vai continuar se agravando com o amadorismo do governo. Diante disso, nós não teremos outra saída nos próximos dois ou três anos que não seja aumentar tributos", disse.

Para o ex-ministro, a economia brasileira não volta a crescer em um patamar de 3% ou 4% antes de 2019.

Já para o economista Gesner Oliveira, professor da FGV e ex-presidente da Sabesp, o programa de investimento em infraestrutura (PIL) anunciado pelo governo em junho pode ajudar a economia a voltar a crescer em 2017, mas isso depende de um consenso político mínimo para implantar o ajuste fiscal.

Em outro evento - o XXI Congresso Brasileiro de Economia, promovido pelo Conselho Federal de Economia (Cofecon), em Curitiba - Oliveira apresentou um estudo da consultoria GO Associados, da qual é sócio, que calcula que dos R$ 198 bilhões do PIL, cerca de 40%, ou R$ 80 bilhões, são factíveis. 

Se esses investimentos de fato se concretizassem, teriam um impacto de R$ 256,4 bilhões na economia, considerando o efeito renda.

"Se a gente conseguir o mínimo de tranquilidade no país para pôr esse programa de pé, a economia retoma lentamente a partir de 2017, criando as bases para um crescimento melhor. Mas é preciso ter cabeça fria e o mínimo de consenso político", comentou.

Para Oliveira, o cenário mais favorável para a economia brasileira é de um acordo em torno de um programa mínimo de ajuste. "É preciso corrigir os desequilíbrios das contas públicas, porque aumentar imposto não é suficiente nem a sociedade tolera mais", disse.

Considerando todos os componentes do cálculo do PIB, Gesner apontou que os únicos pontos de onde se pode esperar resultados positivos são nas exportações líquidas e nos investimentos, já que o consumo das famílias está caindo e o governo precisa controlar suas despesas.

Imagem: Thinkstock