Economia

Britânicos optaram pelo suicídio econômico. Decidiram deixar a Europa


Em referendo, saída do bloco da União Europeia levou 52% dos votos. Bolsas e moedas têm maior queda desde a crise de 2008. É provável que nova recessão mundial esteja a caminho


  Por João Batista Natali 24 de Junho de 2016 às 04:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O que muitos temiam aconteceu. Os eleitores do Reino Unido decidiram em referendo, nesta quinta-feira (23/06), abandonar a União Europeia. Foram 17,4 milhões de votos (52%), contra 16,1 milhões. 

O primeiro-ministro David Cameron anunciou na manhã desta sexta-feira que irá renunciar. Mas a crise política britânica é um detalhe pequeno, dentro de um quadro imprevisível de instabilidade na esfera mundial.

O mercado, que na véspera apostava na permanência do Reino Unido no bloco de 28 países, registra nesta sexta quedas históricas. A bolsa de Tóquio fechou em queda de 7,9%. Londres abriu em queda de 7,5%, e Frankfurt em 10%. A Bolsa de Madri abriu em pânico, com - 15%, estabilizando-se em seguida com - 8%. As ações dos bancos caíam de 10% a  30%.

A libra esterlina atingiu seu menor valor desde 1985, a 1,34 por dólar.

Estes fortes indícios de desorganização do mercado poderão provocar a curto prazo um forte recuo da produção industrial na Europa e em todos seus parceiros internacionais.

O Brasil não sairá sem fortes arranhões, o que comprometerá o processo de saída da recessão e prejudicará os planos da sociedade brasileira e do presidente em exercício Michel Temer.   

O pessimismo em dimensão mundial começou pelos mercados asiáticos, onde a libra esterlina passou a ser negociada em forte queda com a abertura das urnas no Reino Unido e a persistência de uma pequena vantagem da votação pela saída da UE.

Os eleitores desmentiam o otimismo da última pesquisa, publicada ao meio-dia de quinta (em Londres) pelo instituto Populus, que informou que 55% dos britânicos rejeitariam o “Brexit”, contração das palavras Britain e exit (saída).

O efeito político a médio prazo desse resultado eleitoral será o risco de esfacelamento institucional do bloco europeu. O presidente da França, François Hollande, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, já convocaram reunião de emergência em Berlim, nesta sexta, com seus principais parceiros da UE.

Os países europeus e os de fora do bloco, como o Brasil, deverão renegociar acordos comerciais com Londres, já que os britânicos não estarão mais cobertos pelos tratados feitos pela Europa.

O Reino Unido compra somente 1,5% das exportações brasileiras e é apenas o 15º parceiro comercial. A União Europeia é o principal mercado para o Brasil, com trocas de US$ 70,6 bilhões anuais.

Mas os cálculos de maior impacto seriam outros. O FMI prevê que, com a saída, a economia britânica recue 5,5%, retração bem maior que os 3,8% que o IBGE registrou no Brasil em 2015.

Haveria uma desorganização como um todo da economia europeia, com evidentes repercussões na Ásia e nos países do continente americano. 

Não se sabe se a crise nas instituições europeias permitirá o prosseguimento das negociações da UE com o Mercosul (o Brasil não negocia separadamente). O Tratado para o Livre Comércio e as normatizações de produtos não saiu do papel depois de 16 anos de parto.

Essas negociações teriam no mínimo um grupo nebuloso de interlocutores do outro lado da mesa. É mais que provável que alguns dos países da UE tentem agora renegociar seus termos de adesão ao bloco e à moeda conjunta, o euro.

A divisão dos britânicos com relação à permanência na UE foi muito nítida. Os motivos econômicos e de mercado eram sobrepostos pelos partidários da saída, que insistiam quase unicamente  nos “riscos” da imigração.

Não são imigrantes sírios ou sudaneses. A xenofobia atingia a imigração de poloneses, romenos, gregos ou portugueses, que pelas regras da UE têm o direito de trabalhar em qualquer país da comunidade.

Um levantamento doFinancial Times revela que, dentro do G7 (grupo dos mais industrializados), o Reino Unido registrava a sétima taxa de crescimento do PIB antes de seu ingresso na União Europeia. Mas passou a ter a média de maior crescimento depois que aderiu ao bloco.

INSULARES

Pode-se perguntar, então, que razões levaram à convocação do referendo, já que as coisas andavam tão bem, ou, ao menos, em velocidade cruzeiro, dentro de uma Europa de crescimento modesto durante a última década.

A grande razão é cultural. Os britânicos jamais se sentiram verdadeiramente europeus. A aliança com “o continente”, como eles chamam a Europa a partir da ilha em que moram, foi sempre circunstancial.

Os laços verdadeiramente históricos eram mantidos com os países que constituíram o antigo Império, que adquiriu dimensões insuperáveis no final do século 18 e se solidificou como potência mercantil durante o período da rainha Vitória (1837-1901).

Em razão disso, ainda nos anos 1950 e 1960 os parceiros comerciais britânicos com maior peso sentimental eram países como o Canadá e a Austrália, que integram ainda hoje uma comunidade em que Elizabeth 2ª é a chefe de Estado conjunta.

De certo modo, essa cultura da “insularidade” entrou sistematicamente em atrito com as regulamentações minuciosas que a União Europeia passou a fixar para o bloco como um todo.

O Reino Unido sentiu-se desconfortável ao abdicar sua soberania em questões como a legislação sobre colorantes para alimentos ou regras para a segurança do trânsito.

Na França e na Alemanha, inimigos no século 20 em duas guerras mundiais, a UE constituium projeto de paz. Trata-se de inviabilizar o ressurgimento de um nacionalismo agressivo, pelo qual um país seria levado a bombardear algum outro país em que estão seus clientes e fornecedores.

O Reino Unido não participou desse mecanismo de interligação de interesses, iniciado em 1953 com a Comunidade do Carvão e do Aço e acelerado em 1958, com o Mercado Comum Europeu. 

IMAGEM: Thinkstock