Economia

"Brasil precisa de visão de longo prazo"


Para Armínio Fraga (foto), ex-presidente do Banco Central, a economia do país está na UTI. Em um eventual convite, disse que não assumiria um cargo no governo por razões pessoais


  Por Estadão Conteúdo 12 de Abril de 2016 às 17:00

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


O sócio fundador da Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, disse que o Brasil está na UTI, mas não é um paciente terminal. "Não vejo o Brasil como um paciente terminal, mas não tenho uma visão positiva do quadro do Brasil", afirmou nesta terça-feira (12/04) durante o Summit Imobiliário, realizado pelo Estadão em parceria com o Secovi-SP.

Fraga pontuou que o país vive a maior crise de sua história, apontando para a queda do PIB dos últimos dois anos. "Estamos vivendo o caso de corrupção mais impressionante de nossa história, que não só envolve atos ilícitos, mas acoplados a um projeto de poder", disse.

Segundo Fraga, o Brasil precisa de uma resposta clara e uma visão de longo prazo. "Vivemos neste momento e, a partir disso tudo, uma descrença na política e nos políticos do Brasil", disse.

"Precisamos de uma visão de longo prazo para encontrar saída para essa situação em que nos encontramos", afirmou.

Fraga disse que, no momento, não é hora de assumir um cargo no governo em um eventual convite, caso o impeachment da presidente Dilma Rousseff se materialize. Admitiu que é difícil dizer "nunca mais vou fazer isso", mas que por várias razões não deveria dar tal passo.

"Já fui do governo três vezes: um jovem diretor do BC, presidente do BC e fiquei por um ano assessorando o Aécio Neves (PSDB). É difícil dizer nunca mais vou fazer isso. No momento, não acho que eu possa ir, por várias razões. Muito de natureza pessoal. Não é hora para mim", afirmou ele.

De acordo com Fraga, o que ele pode fazer é passar sugestões. "Posso fazer sugestões ao governo, de longe, e isso eu farei", afirmou.

Fraga afirmou não ter sido convidado para participar de um novo governo e negou ter jantar agendado com o vice-presidente Michel Temer esta noite. "Não fui convidado a participar de um novo governo", afirmou em conversa com jornalistas após palestra no evento.

Ele acrescentou que já havia sinalizado que neste momento não poderia compor o governo, por razões pessoais, que envolvem, por exemplo, a recém-recompra da Gávea Investimentos. Há especulações de que Fraga ocuparia o Ministério da Fazenda em um eventual governo pós-impeachment da presidente Dilma Rousseff, com o atual vice, Michel Temer ocupando a presidência.

Fraga reiterou, no entanto, que gostaria de colaborar como o que fosse possível e que suas políticas estariam próximas do que havia elaborado na composição da chapa do então candidato à presidência pelo PSDB, Aécio Neves, em 2014.

TRAJETÓRIA PERIGOSA

A volta da CPMF não será suficiente para corrigir a rota do déficit fiscal no Brasil, na opinião de Fraga. "A coisa chegou em um jeito que não é suficiente só a volta da CPMF, fazer um esforço curto. Não é uma questão cíclica. Nossa máquina não está preparada para crescer. Vive hoje certa paralisia", afirmou ele.

De acordo com Fraga, o Brasil vive hoje uma trajetória "muito perigosa", que combina queima de caixa, PIB encolhendo e juro real "astronômico".

Destacou ainda que a relação dívida/PIB, de 72%, não incorpora prejuízos a olho nu, como a necessidade de capital para a Petrobras, a Caixa Econômica Federal e o FGTS. É necessário, na sua visão, uma "reviravolta importante na área fiscal".

"Nossos Estados estão péssimos do ponto de vista de finanças. O Rio de Janeiro vive um momento particularmente difícil", acrescentou o sócio-fundador da Gávea.

Ele vê a relação dívida/PIB do Brasil chegando perto dos 80%, crescendo entre 7% e 8% por ano. Para Fraga, alinhar a trajetória da dívida pública no país requer uma reforma de Estado.

Segundo Fraga, para reverter a situação econômica do Brasil seria preciso, de maneira mais imediata, atuar sobre a trajetória da dívida pública. O executivo disse que essa iniciativa seria um passo inicial numa reforma do Estado.

Fraga afirmou que, atualmente, o orçamento nacional é muito difícil de ser administrado, uma vez que os valores vão subindo e ficam parados em patamares elevados. Ele mencionou ainda que seria preciso fazer uma reforma da Previdência e atuar sobre a produtividade em geral no país.

Os comentários foram feitos no evento após o ex-presidente do BC ser questionado sobre possíveis medidas a serem tomadas no caso de uma mudança de governo. Fraga também afirmou que a nomeação de um grupo ministerial forte seria uma sinalização importante para a economia.

O executivo também ressaltou que o Brasil está diante de um cenário binário, no qual a economia pode continuar a piorar ou pode dar sinais de recuperação.

De acordo com Fraga, independentemente do resultado da votação sobre o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff no plenário da Câmara dos Deputados no domingo, se a economia parar de piorar "já é bom".

MERCADO IMOBILIÁRIO

O mercado imobiliário é um reflexo da situação econômica enfraquecida, de acordo com o ex-presidente do BC. O executivo fez uma comparação do setor com o mercado de ações, uma vez que existem ações de qualidade mais baixa, mas que continuam com demanda.

Os compradores enxergam nesses ativos a possibilidade de evolução e há perspectiva de ganho numa eventual recuperação da economia. "No mercado imobiliário, é parecido", disse, ao apontar que no médio prazo a situação pode melhorar. Mas no curto prazo ainda é difícil. "O mercado pode demorar um pouco para dar uma aliviada", afirmou o executivo.

Ainda sobre o setor de imóveis, Fraga apontou que o programa habitacional federal Minha Casa Minha Vida ainda precisa passar por ajustes para se tornar um programa de Estado, em vez de ser uma iniciativa de governo.

O ex-presidente do BC alertou que o Brasil pode piorar muito se não acontecerem as mudanças que o mercado espera. "Os mercados estão relativamente estáveis porque há expectativa de mudanças, mas a trajetória pode ser muito mais apavorante", disse Fraga.

Segundo ele, se o impeachment vier acompanhado de uma proposta clara para o futuro do Brasil, a economia pode reagir, mas não em um salto, porque os problemas são muito difíceis. "Saindo Dilma o país pode crescer", disse.

Fraga notou que a situação hoje é inversa à de 2002, quando o governo tentou administrar a crise que era, no fundo, de expectativa. "Havia medo do que aconteceria com o Lula eleito", disse.

Agora é o inverso, de acordo com ele, com o receio sendo quanto à permanência do governo atual. "Existe pouca dúvida, pois o governo teve toda a chance de melhorar e não melhorou. Com a economia afundando, pode ser um circulo vicioso contra nós. Tenho muito medo desse cenário", disse.

FOTO: Sergio Castro/EC

 





Publicidade





Publicidade









Publicidade