Economia

Brasil mergulhou na recessão em abril do ano passado


É o que afirma comitê da FGV coordenado pelo economista Affonso Celso Pastore. Outro levantamento mostra que, para a maioria dos brasileiros, recessão será ainda pior que a de 2014


  Por Estadão Conteúdo 05 de Agosto de 2015 às 08:52

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


A economia brasileira está em recessão desde o segundo trimestre de 2014. O veredicto foi divulgado nesta terça-feira (04/08), em comunicado do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace).

Formado por sete membros com notório conhecimento em ciclos econômicos, o comitê é independente e foi criado, em 2008, pela Fundação Getulio Vargas (FGV) para estabelecer uma referência dos ciclos econômicos, com a marcação das datas de picos e vales da produção.

A avaliação deve alimentar as pressões no Congresso para a aprovação de uma agenda do crescimento que possa ajudar na recuperação das contas públicas. E revela o tamanho do ciclo recessivo em relação a outras fases da economia.

O comitê diz que a duração da recessão será de "pelo menos" quatro trimestres e deverá durar mais do que a média dos últimos cinco períodos de retração.

Reunido na semana passada, o comitê identificou a ocorrência de um pico no ciclo de negócios no primeiro trimestre de 2014.

O pico representa o fim de uma expansão econômica que durou 20 trimestres -entre o segundo trimestre de 2009 e o primeiro de 2014 - sinalizando a entrada do país em uma recessão a partir do segundo trimestre do ano passado.

A fase cíclica, marcada pelo declínio na atividade econômica de forma disseminada, é denominada recessão. A fase entre um vale e um pico do ciclo é chamada de expansão. Esse tipo de avaliação independente existe em outros países para garantir isenção na análise técnica.

A duração da expansão de 2009-2014 foi semelhante à anterior, ocorrida entre o terceiro trimestre de 2003 e o terceiro trimestre de 2008 (21 trimestres). O crescimento médio trimestral de 4,2%, em termos anualizados, foi um pouco inferior ao observado nos dois períodos anteriores de expansão, entre o primeiro e o último trimestres de 2002 (5,3%) e entre 2003 e 2008 (5,1%).

CICLOS MAIS CURTOS

Mesmo sem se manifestar sobre o ciclo de recessão atual, o Codace avalia que a duração dos ciclos de negócios vem mostrando historicamente uma tendência de diminuição a partir de meados dos anos 90.

A média de duração das três recessões ocorridas entre 1981 e 1992 foi de 8,7 trimestres. Já a duração média das cinco recessões a partir de 1995 foi de 2,8 trimestres.

No período que vai do início da recessão atual até o primeiro trimestre de 2015, o comitê observou uma taxa média de contração de 1,1% em termos anualizados, valor próximo ao observado nas recessões de 1998-1999 e de 2001.

Essa taxa é significativamente menor do que a observada na curta e intensa recessão de 2008-2009 (-11,2% ao ano). De acordo com a análise do comitê, "levando-se em conta esse mesmo período hipotético", a extensão da atual recessão seria de pelo menos quatro trimestres, portanto mais longa que a duração média das cinco recessões anteriores.

O Comitê de Datação de Ciclos Econômicos é coordenado por Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central.

PESSIMISMO

O pessimismo aumentou entre os brasileiros rapidamente e mais da metade (56%) acredita que a situação da economia neste ano será pior do que foi em 2014.

Em março, a fatia de consumidores que apostavam numa deterioração da conjuntura era bem menor e estava em 47%, segundo pesquisa nacional do SPC Brasil e da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL).

"Em apenas quatro meses houve uma forte deterioração das expectativas do consumidor, o aumento foi de quase dez pontos porcentuais no pessimismo", afirma Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil e da CNDL. A pesquisa consultou cerca de 600 consumidores nas 27 capitais brasileiras na 1ª quinzena de julho.

A piora da percepção do brasileiro em relação à economia foi resultado de um cenário ruim para o emprego, a renda e o endividamento. Entre aqueles que acreditam no agravamento do cenário econômico, 61,3% consideram que a sua situação financeira hoje é pior do que no segundo semestre do ano passado.

E o endividamento encabeça a lista de razões para péssimo desempenho financeiro (30,7%), seguido pela queda na renda corroída pela inflação (15,4%) e pelo aumento do desemprego (15,2%).

Marcela diz que o reflexo desse pessimismo aparece no consumo das famílias que neste ano deve registrar a primeira queda desde 2003.

O comportamento mais cauteloso nas compras fica nítido nas respostas do que os consumidores pretendem fazer para economizar nos próximos meses. Segundo a pesquisa, quase a metade (47,7%) vai deixar de consumir itens tidos como supérfluos. Nas classes mais abastadas, A e B, essa decisão foi apontada por 58,3% dos entrevistados.

Outra saída para atenuar o impacto da crise é reduzir as compras parceladas, apontada em média por 44,7% dos entrevistados, e com destaque para as classes de menor renda, C e D, com 48,3% das respostas.

Substituir a compra de itens de marcas caras por outras mais baratas também aparece como uma alternativa para administrar a crise, apontada por 29,7% dos entrevistados. Essa prática ganha mais relevância especialmente entre as classes A e B, com 36,5% das respostas.

A cautela dos consumidores na hora de ir às compras aparece também quando se avalia os itens que lideram a intenção de consumo neste semestre.

Segundo a pesquisa, sete em cada dez entrevistados planejam comprar algum artigo de vestuário nos próximos meses. Já a fatia de interessados em levar para casa um eletrodoméstico, um eletrônico ou um móvel, geralmente produtos de maior valor, é de 38%, aponta a pesquisa.

"Trata-se de um circulo vicioso: os consumidores compram menos e isso gera queda nas vendas e amplia o desemprego na economia", diz Marcela.

 

*FOTO: Felipe Araújo/Estadão Conteúdo