Economia

Brasil é rebaixado pela S&P e perde grau de investimento


Para agência, o Brasil está mais longe de uma mudança para um crescimento positivo até que algumas incertezas políticas sejam resolvidas


  Por Estadão Conteúdo 09 de Setembro de 2015 às 19:16

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


A agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P) rebaixou o rating do Brasil de BBB- para BB+ e manteve a perspectiva negativa da nota. 

Com o rebaixamento, a nota de classificação de risco de crédito do país passa a ser de grau especulativo pela agência.

Na prática, isso significa que o Brasil deixa de ser um país seguro para investidores institucionais e globais. Isso deve provocar uma saída de dólares do país, o que fará a cotação da moeda norte-americana voltar a subir. Nesta quarta-feira (09/09), o dólar caiu 0,52% e fechou cotado a R$ 3,79. 

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O rebaixamento da nota do Brasil pela S&P ocorre pouco mais de um mês depois de a agência ter revisado a perspectiva do rating do país de estável para negativo. O Brasil ainda é considerado grau de investimento pelas agências Moody's e Fitch. 

"Os desafios políticos do Brasil continuam a aumentar, pesando sobre a capacidade e a vontade do governo em apresentar um orçamento para 2016 ao Congresso coerente com a correção política significativa sinalizada durante a primeira parte do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff", disse a agência em nota. 

A S&P disse também que espera que a recessão econômica do Brasil seja mais profunda e longa e que o país deve enfrentar dois anos consecutivos de retração do Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas do país).

Para 2015, a agência projeta que o PIB irá recuar 2,5%. Em 2016, a retração deve ser de 0,5%. A S&P acredita que o Brasil somente voltará a crescer, ainda que modestamente, em 2017.

"Acreditamos que o perfil de crédito do Brasil enfraqueceu ainda mais desde 28 de julho, quando revisamos a perspectiva do Brasil para negativa", afirmou. 

Naquele momento, a agência sinalizou riscos maiores de execução para as mudanças políticas corretivas já em andamento, resultantes principalmente das dinâmicas fluidas no Congresso associadas ao alastramento dos efeitos das investigações sobre corrupção na estatal de energia Petrobras.

"Nós agora vemos menos convicção, dentro do gabinete da presidente, sobre a política fiscal", diz o comunicado da S&P.

O comunicado também diz que "sem um desempenho inesperadamente melhor, a meta fiscal proposta no Orçamento geraria três anos consecutivos de déficits fiscais primários e uma elevação contínua da dívida líquida geral do governo."

A S&P não tem expectativa de um superávit primário em 2015 ou em 2016. Também espera uma carga de juros elevada (e em declínio lento), tendo em vista taxas de juro elevadas e o impacto de um real mais fraco nos swaps cambiais em poder do mercado, o que contribui para o déficit grande.

"Temos a expectativa de que a dívida geral do governo, descontados os ativos líquidos (sem incluir as reservas internacionais), vá crescer para 53% do PIB neste ano e para 59% no próximo ano, de 47% em 2014. Também temos a expectativa de que os juros sobre as receitas permaneçam acima de 20% neste ano e no próximo, de 15% no ano passado, e uma moderação lenta, tendo em vista a depreciação do real e as taxas de juro mais altas. Avaliamos os passivos contingentes do setor financeiro e de todas as empresas públicas não financeiras, inclusive a Petrobras, como 'limitados', do modo como nossos critérios definem o termo."

A agência disse ainda que as perspectivas de crescimento para o Brasil são inferiores às de países em um estágio semelhante de desenvolvimento, apesar dos esforços do governo com o ajuste fiscal e a aproximação dos setores produtivos.

"Nós não vemos que estas medidas tenham melhorado o sentimento empresarial. Parece agora que o Brasil está mais longe de uma mudança para um crescimento positivo até que algumas incertezas políticas sejam resolvidas", diz a agência.

Desta forma, a agência espera que a vulnerabilidade externa do Brasil suba nos próximos anos e que o investimento estrangeiro direto seja incapaz de cobrir integralmente o déficit em conta corrente do Brasil.

REBAIXAMENTO É RETROCESSO

Para a economista-chefe da XP Investimentos Zeina Latif, o rebaixamento foi uma dupla resposta ao retrocesso da situação fiscal e econômica no último mês.

A S&P rebaixou o rating do Brasil de BBB- para BB+ e, mesmo assim, manteve a perspectiva negativa para o rating do Brasil.

Zeina lembrou que, quando a agência colocou em negativa a perspectiva do Brasil, deixou bem claro que via esforço do país em promover o ajuste fiscal, mas que vislumbrava dificuldade na sua execução.

"Com o envio ao Congresso de um orçamento negativo, o governo confirmou a previsão da S&P de que o Brasil mostrava dificuldade de executar o ajuste fiscal", disse a economista. Para ela, o governo não encaminhou nenhuma medida que seria tomada para corrigir o orçamento deficitário.

De acordo com Zeina, se cogita elevar impostos para tentar melhorar o lado fiscal, mas o governo parece não saber por onde começar.

Hoje, em evento organizado pela Consultoria Falconi, fechado à imprensa, o ministro teria expressado sua preocupação com a possibilidade de perda do grau de investimento, disse ao Broadcast uma fonte que participou do encontro.

Na avaliação do economista-chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks, que esperava o downgrade para o final do ano, o rebaixamento do Brasil pela S&P para abaixo do grau de investimento - e com perspectiva negativa - veio bem antes do esperado e mostra que a situação do país é grave e que o governo está encurralado.

Segundo ele, a "gota d'água" para a tomada de decisão da S&P certamente foi a previsão de déficit de R$ 30,5 bilhões em 2016, o que agravou uma situação já delicada desde as revisões das metas de superávit anunciadas em julho.

"Com a divulgação da previsão de déficit, a S&P refez as contas e percebeu que a trajetória do país não estava condizente com uma situação de investment grade", afirmou o economista.

Weeks lembrou que a S&P vem se antecipando às demais agências de classificação de risco e que em geral a Moody's não costuma demorar muito a se manifestar após uma movimentação da S&P.

Segundo o economista da Garde, o rebaixamento, somado à manutenção da perspectiva negativa, é uma indicação de que a situação do país continua bastante grave e que o governo não consegue avanços na redução da relação dívida/PIB principalmente devido ao imbróglio político. 

Na avaliação do economista da Garde, os mercados devem reagir de maneira bastante negativa nos negócios da quinta-feira (10/09), devido ao fato de a decisão ter sido tomada antes do esperado e a perspectiva ter se mantido negativa.

Foto: Thinkstock

Atualizado às 20h30