Economia

Bolsa de Xangai é só um sintoma de crise que faz mal ao Brasil


FMI diz que crescimento chinês será mais baixo neste ano, o que exige quantidade menor das matérias primas que o Brasil exporta para lá


  Por João Batista Natali 02 de Setembro de 2015 às 16:19

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


São 123 os países que têm na China o maior parceiro comercial. O Brasil é um deles. Nada mais compreensível que o recente estouro da bolha da Bolsa de Xangai – e seus reflexos no mercado global de ações – passe a ser visto como o sintoma de que algo bem mais preocupante está a caminho.

A economia chinesa chegou a engordar acima de 10% ao ano, caiu para 7,8% em 2014, mas antes disso se abriu às duas mais importantes commodities brasileiras (ferro e soja). Agora, a possibilidade é de crescer em 2015 algo entre 5% e 6%, o que provoca apreensão nas previsões do comércio global. O FMI é ligeiramente mais otimista e prevê um crescimento do PIB local de 6,8%.

Internamente, o mercado chinês já está se desacelerando. Há uma queda de preços dos novos imóveis como reação à construção de centenas de milhares de unidades que, por insuficiência de crédito, não têm hoje compradores. A produção de veículos do atual maior fabricante mundial está em queda de 17%.

Some-se a isso as desvalorizações do yuan, iniciadas em 11 de agosto. Elas podem chegar com o tempo a mais de 5%, de acordo com Martin Wolf, principal analista econômico do Financial Times.

Wolf não acredita, no entanto, que o recurso cambial esteja sendo manipulado pelos dirigentes chineses com o propósito de conquistar com agressividade novas fatias do mercado interno de seus parceiros. Seria, como escreve o economista, bastante arriscado.

Para ele, o modelo chinês é hoje insustentável, com grave endividamento e com o risco de colapso da demanda.

O FMI diz que, sem reformas no modelo, a China se aproximará cada vez mais dos padrões internacionais de crescimento. Em decorrência, não ocuparia com a arrogância de há alguns anos o papel de carro-chefe do comércio internacional de bens primários.

O problema é que não se sabe de que maneira o governo mexerá no modelo, já que, com um regime fechado, as discussões não são compartilhadas com o meio acadêmico, com os agentes do mercado interno ou com a própria sociedade. A BBC afirma que o establishment partidário chinês está dividido, embora não conheçamos maiores detalhes.

O diagnóstico do FMI é de que o mercado de trabalho está conformado com a desaceleração, enquanto a economia interna passa a favorecer setores de maior apetite por mão-de-obra. Mas há um desaquecimento do crédito aos consumidores, e a situação fiscal se mostra moderadamente equilibrada.

A verdade, no entanto, é que a máquina econômica chinesa está em processo de frenagem. Se a mão-de-obra industrial é bem qualificada, sua remuneração se distancia das praticadas no Japão ou na Coreia do Sul. E parte da “nova classe média” transformou o mercado de ações em cassino, no qual multiplicou seus ganhos em 2014 para perder boa parte deles, agora em 2015. Uma forma caipira de praticar a poupança.

O jornal britânico The Guardian transformou os números das exportações estrangeiras para a China, no primeiro semestre de 2015, em gráfico com o quanto cada país perdeu por não ter exportado o mesmo volume em dólares que no ano passado.

Os maiores “prejuízos” são da Austrália (US$ 25 bilhões) e do Japão (US$ 18 bilhões). A Alemanha deixou de exportar US$ 14 bilhões, mas não está muito longe do Brasil, com US$ 12,2 bilhões.

O que interessa, aqui, são os detalhes dessas perdas de renda com a exportação. A agência Reuters noticiou na semana passada que os chineses estão comprando, para a entrega em novembro, apenas metade da soja que importavam no ano passado, e que os novos contratos registram os menores preços em oito anos. Ruim para o Brasil.

Mas existem, na outra ponta do comércio externo, os preços dos manufaturados chineses dentro do mercado brasileiro. Segundo a Folha de S. Paulo, alguns importadores chineses já trabalham com uma revisão de preços para baixo, o que significa que se qualificam para vender maiores volumes.

Antes mesmo da crise da Bolsa de Xangai, pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), feita em 2014 e divulgada nesta quarta-feira (02/09) dava uma dimensão perfeita da concorrência de manufaturados chineses.

Entre as 2 mil empresas consultadas, 30% experimentavam a competição com produtos da China, e dessas, 45% diziam estar perdendo mercado, o que representa 14% do total de empresas.

Em outras palavras: agora, a indústria brasileira voltada ao mercado interno recuaria em proporções difíceis de quantificar de imediato. O que pode neutralizar as vantagens cambiais que essa mesma indústria, se voltada ao mercado externo, conseguiu acumular pela desvalorização do real.
 





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