Economia

Após sete altas, Copom mantém Selic em 14,25% ao ano


A decisão unânime era esperada pelo mercado e representa uma pausa para observar os efeitos dos apertos promovidos até agora


  Por Rejane Tamoto 02 de Setembro de 2015 às 20:46

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu nesta quarta-feira (02/09), por unanimidade, manter a taxa básica de juros da economia (Selic), em 14,25% ao ano. 

Com isso, a autoridade monetária concluiu o longo ciclo de elevação da taxa básica de juros, iniciado há mais de dois anos. A expectativa é de que a Selic permaneça no patamar de 14,25% ao ano até o primeiro semestre do ano que vem. A taxa ainda é a mais elevada desde agosto de 2006.

A expectativa de analistas de mercado era que a taxa seria mantida, principalmente depois que o Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas do país) do segundo trimestre foi divulgado na semana passada, revelando uma recessão ainda mais grave do que a estimada pelo governo e pelo próprio setor privado.

Alencar Burti, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), diz que a decisão era esperada devido à recessão, que afeta a economia brasileira e vem se agravando rapidamente, principalmente por causa da incerteza em relação ao ajuste fiscal.

“Entendemos que a política de aumentar juros para conter a inflação já superou o limite do razoável e que, agora, o BC precisa começar, o mais rapidamente possível, a reduzir a taxa Selic. Por fim, o governo precisa demonstrar claramente que está cortando despesas de custeio e não investimentos”, diz Burti.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avaliou como "acertada" a decisão do Banco Central de interromper o ciclo da alta dos juros. 

"A indústria acredita, no entanto, que o elevado nível da Selic -mantida em 14,25% ao ano- contribui para a deterioração da atividade econômica, com impacto no mercado de trabalho e na renda das famílias, afetando a dinâmica futura da inflação", afirma a entidade em nota.

A CNI aponta que, para superar a crise econômica, o país precisa de uma política fiscal "assertiva e de uma agenda pró-competitividade". 

"As dificuldades recentes no campo fiscal, com reduções sucessivas da meta fiscal e tentativas frustradas de corte de gastos, causam desapontamento nos agentes e mitigam a credibilidade da política econômica, tornando, assim, o ajuste mais longo e mais custoso", informa.

O fim do aperto da política monetária, por parte do Banco Central, deixa agora exclusivamente nas mãos da política fiscal (o corte de gastos e os aumentos de arrecadação) a responsabilidade para a melhora dos indicadores.

INFLAÇÃO

O Copom já havia indicado, em comunicado, que a taxa básica de juros ficaria inalterada daqui para a frente. 

“O comitê entende que a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para o centro da meta (de 4,5%) no final de 2016”. 

Para 2015, a estimativa da equipe econômica é que a inflação pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechará o ano acima do teto, em 9,25%.

Até julho, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o IPCA acumula alta de 9,56% em 12 meses.

Para o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, as expectativas de inflação ainda não convergem para o centro da meta em 2016, que é o foco do Banco Central. As projeções ainda estão acima do centro da meta, em 5,51% ao ano, segundo o relatório Focus.

Na proposta orçamentária de 2016, enviada pelo governo ao Congresso na segunda-feira (31/08), a projeção de alta do IPCA para o próximo ano é de 5,4%, ainda longe do centro da meta. 

Por isso, Perfeito esperava mais uma alta de 0,25 ponto percentual nesta reunião. Ele diz que também há a pressão da valorização do dólar sobre a inflação.

Desde a última reunião do Copom, em julho, a cotação do dólar Ptax (uma média do mercado usada em exportações) deu um salto. Passou de R$ 3,34 no dia 29 de julho para R$ 3,73 nesta quarta-feira (02/09).

"Parece uma boa notícia não subir a taxa de juros agora, mas talvez fosse melhor subir um pouco para baixar mais no ano que vem. Com a decisão de manter, minha projeção, que era de uma Selic a 11% ao ano em 2016, passou para 13% ao ano.Vai demorar mais para baixar o juro no próximo ano", afirma. 

A taxa Selic é o principal instrumento do Banco Central para manter a inflação sob controle. Quando o Copom aumenta a Selic, o objetivo é conter a demanda aquecida. 

Os juros mais altos causam reflexos nos preços, porque as taxas elevadas encarecem o crédito. O peso dos juros na recessão, no entanto, ajuda a inflação a baixar a partir do começo do ano que vem. 

"O Banco Central manteve a taxa Selic hoje para fazer uma pausa e aguardar a repercussão dos aumentos feitos até agora. Hoje, já temos uma taxa real de juros (descontada a inflação) muito alta", diz o economista-chefe da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento, Nicola Tingas. 

Ele diz que a inflação, na ponta, tende a baixar no ano que vem, o que dá uma condição técnica para o Banco Central fazer essa pausa no ciclo de alta.

"Agora será preciso observar a parte fiscal e o comportamento do dólar, que influenciam esse quadro. O mercado espera que o Banco Central jogue os juros para baixo assim que a inflação baixar, mas não é bem assim. Será preciso observar câmbio, o aumento de juros nos Estados Unidos e como ficará o prêmio de risco no Brasil no ano que vem", avalia.

*Com informações de Agência Brasil e Estadão Conteúdo

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