Economia

Apesar de desaceleração mensal, inflação segue elevada


Se a inflação encerrar 2016 muito distanciada do limite máximo da meta anual (6,5%), poderia adiar o início da redução dos juros, segundo economistas da ACSP


  Por Redação DC 09 de Setembro de 2016 às 18:56

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


A inflação oficial continua desacelerando em termos mensais, apesar de ainda permanecer em patamares bastante elevados.

A perspectiva dos economistas da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) é que o indicador continue cedendo diante do quadro atual de ociosidade e do recuo da taxa de câmbio, embora possa mostrar alguma resistência devido à pressão dos preços dos alimentos

Segundo eles, na medida em que termine 2016 ano muito distanciada do limite máximo da meta anual (6,5%), poderia postergar o início da redução dos juros por parte do Banco Central.

Em agosto, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), considerado a medida oficial da inflação, subiu 0,44%, desacelerando frente a 0,52% registrado em julho.

Apesar dessa desaceleração, a variação do IPCA de agosto foi o dobro da observada em 2015, levando o resultado acumulado em 12 meses acelerar entre julho e agosto de 8,74% para 8,97%.

A avaliação é a de que a inflação está mais “espraiada” na economia, pois a porcentagem de itens da cesta básica que sofreram aumento de preço alcançou a 63,5% no mês, ante 59,5% verificado em julho.

De acordo com a análise, houve também maior elevação do chamado “núcleo” da inflação, medida que não considera a influência dos preços de alimentos e energia.

Influíram no resultado do mês a menor elevação dos preços de alimentação e bebidas, refletindo a queda dos preços (deflação) das matérias primas agrícolas, ocorrida durante os dois últimos meses, além da menor elevação dos preços dos transportes.

Os economistas observam que houve aceleração na inflação medida pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI), calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), que passou de uma deflação de 0,39% em julho para uma alta de 0,43% em agosto, gerando maior aumento do índice anualizado (acumulado em 12 meses), que passou de 11,23% para 11,27% durante o mesmo período.

O principal responsável por esses resultados foi o avanço do Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), principal componente do IGP-DI, que refletiu os efeitos da intensificação do aumento dos preços das matérias primas agrícolas (IPA AGRO), cuja alta em 12 meses passou de 27,37% para 27,74%, respectivamente, refletindo a forte “quebra” de safra em relação a agosto de 2015.

PRESSÕES PERSISTEM SOBRE O IPCA

O economista da Rio Gestão de Recursos Bernard Gonin aponta que a inflação de serviços está desacelerando em ritmo muito fraco.

"Serviços, que dependem da atividade, na verdade aceleraram, e isso vai contra o que o BC espera", diz, lembrando que a inflação de serviços no acumulado de 12 meses avançou em agosto, apesar de a leitura mensal ter desacelerado, na margem.

"O IPCA de agosto, assim como o IPCA-15 de duas semanas atrás, veio próximo ao esperado pelo mercado, mas sua cara não é muito boa. Reiteramos que os preços de alimentos continuam pressionando o índice, ainda que em menor escala do que o observado no mês anterior. Os serviços também não dão trégua", resume o Banco Fator.

Para a consultoria britânica Capital Economics, o IPCA de agosto torna um corte de juros na próxima reunião do Copom, em outubro, ainda mais improvável.

"A ata da última reunião do Copom deixou claro que as autoridades querem, entre outras coisas, ver evidências de que o aumento na inflação de alimentos é temporário. O mercado está atualmente precificando uma chance de corte de 0,25 ponto porcentual em outubro, mas o dado de hoje torna isso improvável", diz o texto.

"Se o BC fosse tomar sua decisão baseado somente na inflação de agosto, provavelmente voltaria a adicionar em seus documentos que não existe espaço para afrouxar a política monetária", acrescenta o ex-diretor do BC e sócio da Schwartsman & Associados Alexandre Schwartsman.

O analista lembra que, obviamente, o Copom não vai tomar sua decisão baseado somente na inflação de agosto. Entretanto, se o IPCA-15 e o IPCA de setembro não mostrarem desinflação mais forte, será difícil justificar um corte na reunião de outubro.

"Nós acreditamos que novembro é o ponto mais provável para o começo do ciclo de afrouxamento", aponta.

Já o economista do Banco Pine Marco Caruso aponta que a inflação de alimentos desacelerou de 0,80% no IPCA-15 para 0,30% no índice fechado de agosto, e diz que há espaço para recuar mais, uma vez que esse comportamento atual está refletindo a deflação no atacado registrada dois meses antes.

"Pelas minhas contas, ainda tem espaço para alimentos perderem mais força no IPCA de setembro", comenta. Ele estima que a inflação deste mês deve ficar em 0,35% e diz que esse número pode ser revisado para baixo.

O economista da 4E Consultoria Thiago Curado chama atenção em particular para a alimentação domiciliar, com destaque para o recuo no mês passado de 5,6% no feijão carioca, que ainda acumula alta de 136,57% no ano e 160,25% em 12 meses.

"A partir de setembro e nos próximos meses abre-se espaço para inflação negativa no grupo alimentação por conta de queda nos preços de alimentação domiciliar", argumenta, embora concorde que a inflação de serviços desacelera em ritmo fraco.

Leandro Negrão, economista do Bradesco, avalia que a pressão em serviços em agosto foi pontual e não deve se repetir.

"Foi algo pontual por causa da Olimpíada. Nem a pressão nos núcleos nem os serviços devem mudar a confiança do BC", comenta.

O banco tem um cenário benigno para a inflação, com "riscos mais baixistas que altistas", e acredita que até outubro haverá evolução nas negociações da medidas fiscais entre governo e Congresso, contribuindo para o início do ciclo de distensão monetária.

IMAGEM: Thinkstock

Atualizado às 20h40