Economia

Altos e baixos na economia sinalizam incertezas para 2021


Apesar da melhora em alguns setores, recuperação da confiança do consumidor é pontual: com o fim do Auxílio Emergencial, preocupação é com a desaceleração da atividade no 1º semestre


  Por Karina Lignelli 10 de Novembro de 2020 às 07:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


A agricultura ainda está num bom momento, assim como o e-commerce, que deve ampliar mais sua participação recorde em 2020 com a proximidade da Black Friday, no próximo dia 27 de novembro. 

Com ligeira desaceleração após os primeiros meses de quarentena, os supermercados se animam com o fim do ano e acumulam alta de 4,5% de janeiro a setembro, acima dos 2,45% projetados no pré-pandemia. 

Mas há desafios para alguns setores, como alta nos preços em dólar, escassez de insumos e equipamentos para produção industrial e agrícola, seca e incêndios do Centro-Sul, que atrasaram o plantio da próxima safra, assim como a elevação nos preços dos alimentos, que impactam as vendas na ponta. 

A iminência do fim do Auxílio Emergencial no próximo dia 31 de dezembro, porém, é o que mais preocupa, pois deve resultar na desaceleração da atividade no 1º semestre de 2021.

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Essa é a perspectiva de alguns empresários que participaram da reunião on-line do Comitê de Avaliação de Conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). 

Historicamente, a pedido dos participantes dessa reunião, seus nomes não são divulgados. 

Mesmo com recuperação da confiança do consumidor, que fechou outubro em 85 pontos, 12 a mais que em abril e maio, meses de isolamento social (dados do Índice Nacional de Confiança da ACSP), o indicador é altamente influenciado pelo pagamento do benefício provisório, segundo um economista da ACSP. 

A proximidade do novo ano, que faz com que tradicionalmente o brasileiro fique mais esperançoso, assim como a perspectiva de fim da pandemia e das medidas restritivas, ajudaram na recuperação, afirma. 

E isso, obviamente, deve influenciar as vendas do varejo que, segundo projeção dos economistas da ACSP, iniciou a pandemia com perspectiva de fechar o ano em queda de 8%, mas agora deve recuar só 2,2%.

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"Não são perspectivas positivas, mas menos desfavoráveis do que se previa no começo", afirmou o economista, reforçando que a melhora nas condições de crédito e da soma da transferência de renda à massa salarial tem ajudado na recuperação do setor varejista. 

A expectativa, pelo menos por enquanto, é que a confiança do consumidor continue aumentando até o fim de 2020, e que o crédito se mantenha em condições mais favoráveis.

Mas ainda há o desemprego muito elevado, que não vai se reverter de forma muito rápida, assim como o fechamento de lojas, que deve continuar nesse cenário quando se pensa no pequeno comércio.   

O CUSTO DA ALIMENTAÇÃO 

Nos supermercados, que devem fechar o ano com alta de 4% a 5% "em um cenário de covid", segundo um representante do setor, o Auxílio puxou a alta de 12% nas vendas de janeiro a agosto em regiões mais dependentes do benefício, como Norte e Nordeste, onde o desempenho era fraco há pelo menos 10 anos.  

Em sua avaliação, o benefício teve impacto relevante no momento atual, pois ajudou o consumidor a garantir a compra de alimentos e bebidas e vem mantendo o faturamento do setor em níveis elevados. 

A preocupação, porém, é com a alta dos preços dos alimentos, que subiram 12% nos últimos 12 meses, e de 8,3% de janeiro a setembro. O impacto dessa alta no consumo deve ser ainda maior após o fim do Auxílio. 

"Estamos negociando com a indústria, mas sabemos que é um problema que vai muito além de negociações ou  reajuste de margens", afirma. "Embora o faturamento tenha aumentado, o custo também aumentou. É um cenário relativamente preocupante, e não vemos melhoras pelo menos no curto prazo."

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Mesmo com os excelentes preços em dólar e a projeção de crescer entre 2% e 3% em 2020, alguns problemas ligados ao agronegócio brasileiro - como a seca e os incêndios que afetaram do Centro-Sul ao Amazonas - sinalizam como deve ser o comportamento dos preços nos próximos meses. 

Segundo um representante do agronegócio, essas questões atrasaram o plantio - em especial da safra de milho, que o Brasil precisava ampliar para atender ao consumo interno. 

"Teremos uma área maior, mas em condição de produtividade menor", afirmou. 

Tudo isso, mais o forte aumento das exportações, têm puxado a alta de preços. "Estamos em meio à uma inflação de alimentos, e com perspectiva de não ter uma safra tão grande quanto esperávamos."  

INDÚSTRIA E VAREJO 

Com crescimento de 30% entre abril e agosto, mas ainda 2,5% abaixo de 2019, a indústria tem apresentado um comportamento bastante heterogêneo, segundo um empresário do setor presente à reunião da ACSP. 

Enquanto alguns segmentos cresceram 10% na pandemia, como fumo, bebidas e móveis, outros tiveram queda muito forte, em torno de 20% em relação a 2019, como veículos, vestuário e calçados. 

Nesse cenário, o setor tem enfrentado dificuldades na compra de insumos, como papelão e plástico, e altas expressivas de preços de matérias-primas coladas ao dólar.

"Mas não é uma escassez estrutural, e a perspectiva é que se normalize no início de 2021", afirmou. 

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O que chama a atenção, segundo o empresário, é que os dados de confiança ficaram muito fortes em outubro, com alta do indicador sobre as condições atuais - um dado muito ligado ao Auxílio Emergencial, que aumentou a massa de rendimentos em 3% durante a pandemia, segundo dados da PNAD do IBGE. 

"Normalmente, a expectativa era sempre menor no curto prazo, e mais favorável ao futuro. Mas isso se inverteu", afirmou ele, que acredita que essa percepção deve arrefecer no 4º trimestre e iniciar 2021 em desaceleração. Além disso, o 13º dos aposentados e do setor público já foi pago, lembrou.

"Com isso, mais o fim do Auxílio, vamos perder um pouco de fôlego", disse o representante da indústria.  

Para um especialista em varejo presente à reunião, segmentos como vestuário e itens de uso pessoal tiveram forte crescimento entre as classes C e D na pandemia, alimentados pelo Auxílio Emergencial.

Agora, com o valor do benefício caindo pela metade, esse movimento deve arrefecer ainda mais. "A grande preocupação é daqui para frente, quando esse consumidor, que não é precavido, pagará eventuais parcelas que fez nos meses anteriores e vai deixar de comprar - o que reduzirá ainda mais as vendas do varejo."

COM AJUDA DA BLACK FRIDAY

Já o e-commerce, cujas transações globais aumentaram 21% com a pandemia, segundo um especialista no setor presente à reunião da ACSP, terá incremento de 27% com as festas, entre outubro e dezembro. 

No Brasil, sem contar o Mercado Livre - um importante player do setor - o faturamento cresceu 35% em nove meses, e no 3º trimestre, os consumidores únicos chegaram a 23 milhões - alta de 60% ante 2019.  

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As expectativas com a Black Friday, que deve faturar 27% a mais do que a edição 2019, ou R$ 4,1 bilhões, segundo a Ebit|Nielsen, são mais do que positivas, destacou o especialista. 

Porém, a estimativa é que os descontos desse ano sejam menores, devido à forte desvalorização do real, que deve pressionar os produtos importados, e também ao grande número de vendas ao longo de 2020. 

"Os estoques dos varejistas com preços antigos estão muitos baixos, e quando repõem, compram em dólar e os valores já vêm muito altos", disse. "Mesmo assim, a Black Friday promete ser sucesso com a participação do varejo off-line e dos shoppings." Dedos cruzados. 

IMAGEM: Pixabay





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