Economia

A Venezuela não está mais à beira do abismo. Já caiu nele


Crise é tão profunda que o ex-ministro venezuelano do Planejamento, Ricardo Haussmann, sugere uma intervenção militar externa para derrubar a ditadura de Nicolas Maduro


  Por João Batista Natali 03 de Janeiro de 2018 às 13:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Se um país vizinho entra em colapso, o problema não é só dele. É nosso também, porque desestabiliza uma de nossas fronteiras.

A Venezuela é o grande exemplo negativo. Atingiu o fundo do poço. A inflação nos dez primeiros meses de 2017 foi de 1.400%. Não há apenas desabastecimento. Há fome.

Um salário mínimo em 2012 comprava 52,8 mil calorias. Hoje só compra 7 mil, que não alimentam, nem precariamente, uma família de cinco pessoas.

Há três anos a ditadura não publica estatísticas. Mas o PIB per capita caiu 30% desde 2013, e a produção de petróleo – as maiores reservas mundiais são venezuelanas –também cai desde 2015, com poços e refinarias sucateados.

Em dezembro, a ditadura expulsou os embaixadores do Brasil e do Canadá. Por coincidência, países com dívidas a receber por obras públicas.

E também no mês passado Maduro acusou Portugal de ter boicotado a exportação de 20 mil toneladas de pernil para a venda subsidiada das ceias de fim de ano.

Mas Caracas não pagou os 40 milhões de euros pela carne, que acabou sendo entregue à vizinha Colômbia.

O The New York Times publicou recentes reportagens sobre o desmonte do sistema de saúde e seus efeitos no aumento da mortalidade infantil e de doenças que voltaram a ser endêmicas.

Até a TV bolivariana relatou no ano passado a morte, por desnutrição, de idosos internados num asilo de Caracas.

NÃO HÁ MAIS SAÍDA POLÍTICA

Paradoxo: com no mínimo 80% da população em oposição ao regime, Nicolas Maduro deverá ser reeleito em março para um segundo mandato, como sucessor do finado Hugo Chávez.

A receita da ditadura é simples: barrar a oposição.

Dos quatro partidos da Mesa de Unidade Democrática (MUD), três foram praticamente colocados na ilegalidade por não jurarem fidelidade a uma pseudo-Assembleia Constituinte formada em junho último, sem oposicionistas e sem o voto universal.

Uma variante da mesma receita vigorou na escolha dos governadores. A ditadura elegeu 18, e a oposição apenas quatro. Mas só três tomaram posse, porque o último se negou a aceitar a “Constituinte”.

Essa assembleia de mentirinha substitui em todas as atribuições a Assembleia Nacional, eleita em dezembro de 2016 e na qual a oposição levou dois terços das cadeiras.

Mas o colegiado unicameral não conseguiu publicar nenhuma lei. Foi considerado inidôneo pelo Supremo de 33 ministros – eram apenas 11, mas Chávez o completou com comparsas -, que funciona como o braço judicial do regime.

Duas outras eleições do ano passado também terminaram com a vitória de candidatos oficiais. Houve de tudo, como o descadastramento de eleitores hostis dos programas para a compra de comida subsidiada à cassação dos eleitos da oposição na capital.

Até 2016, os opositores se esforçaram para afastar Maduro por meio de um “referendo revogatório”, que ocorreria pela coleta sucessiva de assinaturas.

Mas o jogo foi interrompido depois da decisão da Comissão Eleitoral de descredenciar os partidos envolvidos. Enquanto isso, parte de seus dirigentes foi presa ou partiu para o exílio.

INTERVENÇÃO EXTERNA

A única conclusão é de que se esgotaram as vias normais para substituir o establishment bolivariano – comandado por burocratas e pela oficialidade corrupta do Exército.

A hierarquia fardada é acusada de associação com o crime organizado e atuaria, por meio do vice-presidente Tareck El Aissami (e a informação é da norte-americana DEA), no mercado da cocaína.

Eis que surgem nas últimas horas duas surpreendentes informações.

A primeira saiu na edição de janeiro e fevereiro da revista Político, especializada em política externa americana.

Segundo ela, o presidente Donald Trump teria cobrado a “opção militar” na Venezuela em encontros com presidentes da Argentina, Brasil, Colômbia e Panamá.

Pois a mesma ideia está presente em texto distribuído nesta terça-feira (02/01) pelo Project Syndicate, em Cambridge, e assinado por Ricardo Haussmann, ex-ministro do Planejamento da Venezuela (1992-1993), ex-economista chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento  e hoje professor em Harvard.

O que Haussmann propõe é relativamente simples. A Assembleia Nacional – a legítima – votaria o impeachment de Maduro e nomearia um governo de transição.

Este, por sua vez, faria um apelo à intervenção militar internacional para substituir o regime autoritário e corrupto dos bolivarianos.

Não seria uma solução submetida ao Conselho de Segurança da ONU, onde Rússia e China – os dois últimos aliados de Maduro – têm poder de veto.

Mas não é uma coisa simples.

Na Colômbia, o presidente Juan Manuel Santos recebeu o Nobel da Paz por negociar o fim das guerrilhas das Farc, e dificilmente colocaria tropas a serviço da deposição do chavismo.

No Brasil, Michel Temer até conseguiria o apoio da alta oficialidade do Exército. Mas compraria uma briga homérica com o Partido dos Trabalhadores, que apoia a ditadura venezuelana.

Maurício Macri? Difícil imaginar, pois o presidente argentino complicaria seus planos de reeleição e, com o histórico da aventura militar nas Malvinas (1982), daria argumentos incômodos à oposição peronista.

E Donald Trump? Os Estados Unidos têm hoje na Coreia do Norte uma pulga bem mais importante para se coçar.

Queimar um cartucho com a Venezuela também levaria a uma divisão aguda entre os latino-americanos, com o fortalecimento do nacionalismo no Uruguai, Bolívia ou Nicarágua.

A verdade é que a ditadura bolivariana não tem legitimidade e, em caso de eleições livres, ela cairia como um castelo de cartas.

Mesmo que não se acompanhe por uma intervenção militar sugerida por Haussmann, o projeto – noticiado nesta quarta-feira (03/01) em Caracas apenas pelo jornal de oposição Tal Cual – põe lenha na fogueira de uma discussão infinita sobre a democracia na América Latina.

IMAGEM: Fotos Públicas