Economia

A serviço da economia da vida real


O economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo, Marcel Solimeo, é homenageado pelo tempo e pela forma com a qual ajuda os empresários, por mais de meia década, a entender e enfrentar as complexidades da economia


  Por Rejane Tamoto 10 de Agosto de 2015 às 13:00

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


Economia pode ser uma ciência humana, mas para o economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Marcel Solimeo, a melhor definição é a vida real. Hoje, aos 78 anos, enquanto acompanha a esposa nas compras no shopping ou no supermercado, ele aproveita para observar o movimento dos consumidores no comércio - e, assim, confirmar o que ele já poderia saber a partir de números e estudos. Afinal, a economia está lá, no dia a dia dos negócios. 

Em setembro, Solimeo completa 52 anos na ACSP, marca histórica que lhe rendeu uma homenagem que será entregue pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB), na noite desta segunda-feira (10/08). 

Afinal, trata-se de uma trajetória marcada por muitos estudos e dedicação. Os desafios nesse período foram praticamente diários, ao traduzir e explicar ao empresariado o que fazer em cada uma das oito trocas de moedas que ocorreram no Brasil, bem como com os oito planos econômicos, as três Constituições e uma moratória. 

Por isso, quando Solimeo olha para trás, deixa transparecer que quase não viu esse tempo passar.

"A economia nunca deixou a minha rotina ficar monótona e ainda não deixa. Cada desafio exigia dedicação, me motivava a estudar mais, discutir e traduzir isso aos empresários. O que contribuiu muito foi o fato de eu ter trabalhado na indústria e no comércio antes de me formar em economia", conta. O que também pesou foi a afinidade com os valores e princípios da ACSP. 

Ter trabalhado no almoxarifado de uma varejista, depois numa indústria e numa fábrica de tecidos fez com que Solimeo entendesse as reais necessidades lá na ponta, que geralmente não aparecem nos relatórios técnicos tampouco são transmitidas nos bancos da universidade - no caso, a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA). 

Antes, ele fez um curso técnico de contabilidade e sua vocação foi descoberta por um dos professores. "Ele disse que eu tinha jeito para análise e sugeriu que eu cursasse economia. Aos 17 anos sai de Duartina, no interior paulista, para ganhar a vida na cidade de São Paulo. E as coisas foram surgindo", conta.  

No dia a dia da Associação Comercial, Solimeo lembra que aprendeu bastante com empresários e outros economistas nos diversos fóruns de debates dos quais já participou. "Só que a minha vantagem foi falar português em vez de economês", brinca. 

Isso também explica porque Solimeo é um economista que gosta dos jornalistas e sente-se à vontade em atendê-los. Mas a raiz disso vem de seu pai. "Ele era o jornalista literal porque fazia o jornal mesmo. Compunha, escrevia e tinha a tipografia", diz. Hoje, dos cinco filhos, uma exerce essa profissão. 

 

SOLIMEO, EM 1996: ORIENTAÇÕES CLARAS AOS EMPREENDEDORES. FOTO: DIVULGAÇÃO

 

Também pesa o fato de que Solimeo gosta de escrever. Somando os artigos assinados e os feitos como ghost writerpara mais de uma dezena de presidentes da ACSP e da Facesp (Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo), ele contabiliza mais de 2 mil textos. Eles estão em blogs, no Diário do Comércio e em outras publicações. 

Um dos preferidos é Os dois Brasis, que trata de um país virtual que é o visualizado no projeto de informatização dos dados das empresas pela Receita Federal; e do real, que revela a dificuldade do empreendedor de enfrentar a burocratização transferida para a era digital.

É um artigo inspirado na obra do sociólogo Jacques Lambert, que também compara o Brasil arcaico com o moderno, dinâmico e urbano. O outro é Gramsci e o Brasil, baseado no livro A Revolução Gramscista no Ocidente (Sergio Augusto de Avellar Coutinho). 

O prazer de escrever divide espaço com a paixão pelo futebol. Nos fins de semana, é certo que Solimeo passará algumas horas lendo jornais e revistas e redigindo algum artigo enquanto assiste a uma série de partidas. "Sou corintiano, mas gosto de acompanhar todos os times", diz. 

O momento terapêutico -  da mente e do corpo - ocorre mesmo quando ele próprio vai jogar a partida de futebol de salão no sábado pela manhã. "E olha que lá não tem outros da minha idade não. Poucos estão na faixa dos 60 anos, mas a maioria dos que estão nos times têm entre 25 e 30 anos", gaba-se. 

A ligação com o futebol é tão forte quanto a que ele tem com a leitura de livros de história e filosofia, apesar de se autodefinir eclético por também gostar de romances policiais. Hoje, na mesa de trabalho, tem à mão os títulos Sociedade da Confiança (Alain Peyrefitte) e A Governança da China (Xi Jinping), para refletir o momento atual, que foi o resultado de intervencionismo do governo na economia. 

Os preferidos são Elogio da Loucura (Erasmo de Roterdã) e Utopia (Thomas Morus). Católico, Solimeo aprecia também a leitura religiosa e, sempre que possível, recorre a citações de Santo Agostinho em seus artigos. "Mas economista tem que ler Santo Tomás de Aquino por causa da usura (cobrança excessiva de juros)", diz. 

AoDiário do Comércio, ele fala sobre os desafios para as micro pequenas empresas e a crise que o país atravessa atualmente. 

Entre 1970 e 1980, o senhor dedicou-se aos cursos de consultoria para micro e pequenos empresários. O que mudou na realidade deles, em termos de dificuldades enfrentadas?

Vejo que houve uma evolução institucional para as micro e pequenas empresas e o segredo foi simplificar e flexibilizar. E isso deveria ser estendido para a economia como um todo. Ainda assim, o sistema é complexo por causa da nossa estrutura tributária.

Temos um espírito empreendedor que tem se manifestado, mas que poderia ser maior. O Fisco joga todas as exigências burocráticas e informatizadas para a estrutura empresarial, em grande parte formada por micro e pequenas empresas. A lei joga custos e riscos para as empresas cumprirem, sob o risco de pagar multas por atraso e por erro.

Veja o e-Social, que vai pegar até o microempreendedor individual. Saiu um decreto para simplificar o cumprimento pela microempresa, mas se você olhar ainda é uma loucura. Em vez da simplificação da burocracia, tivemos a informatização da burocracia, que a tornou ainda mais complexa. Para uma pequena empresa cumprir todas as obrigações eletrônicas, tais como o SPED, ECF, Nota Fiscal Eletrônica e Siscomex, é necessário contar com um batalhão de especialistas. 

Do que resulta a recessão atual?
A crise atual é conjugação de várias crises. É muito difícil fazer qualquer previsão porque estamos em um cenário de incerteza política, o que dificulta imaginar qual será a trajetória econômica. A gente trabalha com cenários. É como dizem, a tempestade perfeita, que reúne as crises política, administrativa, de ética e econômica.

A econômica tem características que nunca vimos anteriormente, porque desarranjou todos os setores. Houve desorganização do sistema de preços, de todo o setor elétrico, sucroalcooleiro e intervenção no preço da energia e dos combustíveis, além de uma expansão artificial da indústria automobilística, que não tem sustentação pelo tamanho do mercado.

A política fiscal foi desestruturada, com desonerações e incentivos quando o Estado já não tinha condições fiscais. É uma situação bastante complicada e que está atingindo fortemente o setor empresarial. Agora, vai atingir os trabalhadores. 

O que esperar do ajuste fiscal?
O ajuste fiscal já não era o ideal, mas se considerava que fosse possível. Não só a redução da meta fiscal para 0,15% do PIB (Produto Interno Bruto) foi frustrante, mas também a possibilidade de descontar R$ 26 bilhões. Isso significa pedir licença para matar. Provavelmente teremos um déficit fiscal. E no ponto em que já estamos, com taxa de juros lá em cima, vai aumentar a dívida pública. 

Qual é a saída?
Saída sempre tem e pode ser mais lenta ou mais rápida, mais dolorosa ou menos dolorosa. O problema é a ligação com a crise política e policial. Não se sabe quanto tempo levará para terminar.

A recuperação, a meu ver, possivelmente virá pela agricultura e pelo aumento da exportação e substituição da importados, caso o câmbio se firme. O câmbio flutua, mas o empresário precisa saber qual a faixa de flutuação para fazer as contas e ter um parâmetro. Para saber se compra no exterior ou no Brasil se o dólar oscilar entre R$ 3,20 e R$ 3,40 por exemplo. 

O que também pode contribuir para a recuperação são as licitações de obras públicas, desde que o governo consiga agilizar a realização delas, já que o mercado não está tão favorável como no passado. É preciso implementar prazos para as licenças. 

E a confiança também é importante nesse processo?

Sim, é preciso restabelecer a confiança, mas isso está ligado ao desdobramento político. Com mudança ou sem mudança, a confiança precisa voltar.

O problema é que o governo acenou com uma reforma administrativa, mas só falou em cortar ministérios, quando na verdade existem 23 mil cargos de nomeação, muitos deles ligados a barganhas políticas, que acabam propiciando desvios. É como dizia o Padre Vieira no Sermão do Bom Ladrão: quando você nomeia alguém que não está qualificado para o cargo, você é responsável pelo que ele fizer. Afinal, essa pessoa rouba o cargo de alguém habilitado.

A questão passa também pela Petrobras, que ainda tem de trabalhar com 30% de conteúdo nacional sob o argumento de proteger a indústria brasileira. Não se desenvolve tecnologia com um protecionismo dessa magnitude. Algum grau de proteção é preciso ter, mas com metas de redução gradativa. A Coreia do Sul dava subsídio para exportar, mas com metas.

É preciso abrir a economia brasileira porque retrocedemos nesse campo, voltamos e fechamos. O empresário não investe sem perspectiva e o consumidor não gasta com medo do futuro. Crescer de verdade implica uma grande reformulação não só na área fiscal, mas também na tributária, trabalhista e na abertura da economia.

 

MARCEL SOLIMEO (O QUARTO, DA ESQUERDA PARA A DIREITA) EM MISSÃO COREANA EM 1977. FOTO: DIVULGAÇÃO

A crise será longa?
Creio que esta será a crise mais longa. Tivemos, quase integralmente no período do governo Lula, o bônus demográfico e o bônus externo das commodities. Esse foi um recurso extra e temporário que entrou no Brasil, só que o governo elevou as despesas de forma permanente.

Agora, para fazer o ajuste é mais difícil. É como uma pessoa que ganhou um bônus e elevou os gastos permanentes ao nível desse valor. O dinheiro do bônus acaba e essa pessoa terá de comprimir as despesas que já foram incorporadas ao orçamento familiar, como o curso de inglês e o clube dos filhos. Cortar é mais difícil.

Nosso problema agora é parar de cair e estancar o desemprego. Já a variável política é imprevisível e dificulta a projeção. O fato é que, em matéria de invenção na política econômica, já fizemos de tudo. Não há novos erros a serem cometidos pois a presidente Dilma acabou com os últimos que faltavam.

Agora, posso aposentar porque acho que não há erros novos. Mas ainda tenho como dívida a organização de um livro com os artigos sobre como sobreviver às crises que passamos (nos últimos 50 anos), para o caso de um dia elas acontecerem novamente.  

FOTOS: Paulo Pampolin/Hype e Divulgação





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