Economia

A Europa está em pedaços após a debandada britânica


Alemanha rejeita a possibilidade de britânicos manterem o livre comércio com a União Europeia. Chances de um novo referendo para os arrependidos são praticamente nulas.


  Por João Batista Natali 28 de Junho de 2016 às 15:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


A situação continua confusa e instável na União Europeia, desde o referendo desta quinta-feira (23/06), em que o Reino Unido decidiu deixar o bloco. É um jogo no qual são todos perdedores.

As bolsas se recuperaram um pouco nos pregões desta terça-feira. Londres teve alta de 2,64%. Mas prevalecem os efeitos do terremoto que prevaleceu desde o anúncio dos resultados das urnas, na madrugada de sexta.

Em valor de mercado, os bancos europeus perderam US$ 114 bilhões, e as empresas não financeiras, US$ 2,1 trilhões.

Os efeitos na economia brasileira são apenas por enquanto indiretos. Uma queda no crescimento da economia europeia afetaria o comércio internacional, bloquearia investimentos e atrasaria, por aqui, a volta de um PIB positivo.

Mas o fato é que políticos, empresários sociedade no bloco europeu têm dificuldades para superar o clima de ressaca, a partir de um resultado nas urnas com o qual poucos contavam.

A mídia brasileira, bem mais que a britânica, mencionou o abaixo-assinado com mais de 3,5 milhões eleitores que pediam uma nova votação. O conjunto de arrependidos impressiona pelo tamanho, mas não há base legal para chamar os eleitores de volta às urnas.

No campo político, o primeiro-ministro britânico, David Cameron – que convocou o referendo e fez campanha pela permanência na União Europeia – está demissionário e não pretende conduzir as negociações complicadas do divórcio.

Mas ele só será substituído na chefia do governo em outubro, quando seu partido, o Conservador, tem marcada convenção. Daqui até lá se abre um vazio dentro do qual outras lideranças conservadoras procuram tirar uma casquinha.

A principal delas é Boris Johnson, ex-prefeito de Londres (2004-2016) e partidário da separação. Ele foi o grande aprendiz de feiticeiro. Não jogou para ganhar, mas para perder – o que já lhe daria a visibilidade pública para chegar a primeiro-ministro.

Pois ele publicou nesta terça um artigo em que propõe “um novo tipo de relacionamento” dos britânicos com a Europa, dentro do qual seria mantida a zona de livre comércio. Ou seja, liberdade de vender aos clientes do bloco a metade das atuais exportações britânicas, mas sem as demais contrapartidas.

A resposta foi dada horas depois, no Parlamento alemão, pela chanceler Angela Merkel. Ela disse que “a liberdade de movimentação pela Europa é indivisível”.

Em outras palavras, se os britânicos quisessem manter o fim das fronteiras para o tráfego de mercadorias, deveriam também mantê-las para a circulação de pessoas.

É justamente o nó da questão xenofóbica que durante a campanha do referendo a ultradireita soube explorar. Esses setores não queriam que assalariados do Leste Europeu – sobretudo poloneses e romenos – mantivessem a liberdade de trabalho no mercado britânico.

É uma aspiração insustentável, disse o Financial Times, já que os britânicos não perdiam empregos com a chegada dos estrangeiros, e tampouco ocorreu, por causa deles, um achatamento de salários.

A oposição trabalhista se esfacelou. Ela é liderada por Jeremy Corbyn, bem mais à esquerda que o eleitorado social democrata de seu partido. Nesta terça, 172 deputados (contra 40) pediram que ele deixe a liderança.

Está também em jogo a manutenção da unidade do Reino Unido. A Escócia está abertamente disposta a se separar da Inglaterra e do País de Gales para se manter na Europa.

A primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, deve ir nesta quarta a Bruxelas para expor seu roteiro. Ela quer obter por referendo a independência do país, para em seguida aderir ao bloco europeu.

Caminho parecido pode ser seguido pela Irlanda do Norte, disse uma das líderes do Sinn Fein (partido autonomista), Martina Anderson. Um dos planos seria unir-se à República da Irlanda, com a qual a Irlanda do Norte divide a ilha europeia ao lado da Grã-Bretanha, e que já é um dos membros do bloco europeu.

Em termos regionais, abre-se um período de incertezas em que as previsões são difíceis. Países como a Espanha (com a Catalunha independentista) e a Itália (Liga Norte) terão maiores dificuldades para administrar seus velhos regionalismos.

Em outras palavras, a Europa começou a caminhar em sentido contrário ao de 1958, quando seis países deram a largada para o Mercado Comum Europeu – entre eles, França e Alemanha -, com o objetivo de juntar recursos naturais, indústrias e, sobretudo, evitar uma nova guerra.

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