Economia

A economia vai bem, mas cenário político preocupa


A produção registra números excelentes, como o crescimento em 15% na venda de veículos e R$ 2,1 bilhões vendidos na Black Friday. Mas a sucessão de Temer é a grande incógnita, segundo o Comitê de Avaliação de Conjuntura da ACSP


  Por João Batista Natali 30 de Novembro de 2017 às 16:39

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Embora a base de comparação de 2016 traga desempenho muito baixo, em razão da recessão herdada do governo Dilma Rousseff, os números mais recentes da indicam um crescimento razoável da economia.

Mesmo assim, há incertezas no horizonte, provocadas pelos cenários ainda esquisitos sobre as eleições presidenciais de 2018.

Ao lado deles, teremos no próximo ano o fim provisório da euforia provocada pelo agronegócio.

Foi esse, em resumo, o quadro esboçado nesta quinta-feira (30/11) pelo Comitê de Avaliação da Conjuntura, que se reúne mensalmente na Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

É um encontro organizado pelo Instituto de Economia Gastão Vidigal, que pertence à entidade e que tem como superintendente o economista Marcel Solimeo.

O encontro foi dirigido por Edy Luiz Kogut, coordenador do comitê e membro do Conselho Superior da ACSP.

Em termos puramente econômicos, o retrato do país é de recuperação, com o crédito da pessoa física em alta de 4,3%, segundo dados de outubro, e com o da pessoa jurídica ainda em ligeira queda, de 1,4%.

A indústria sobe 0,4%, o varejo ainda cai 0,6% (resultado superior ao anterior) e as consultas ao Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC) aumentam 3,2%.

No varejo restrito, que não leva em conta veículos e material de construção, há um crescimento das vendas de 1,8% no prazo de um ano, até setembro.

OS EFEITOS DA BLACK FRIDAY

Foram significativos os números do comércio eletrônico na última versão da Black Friday. As vendas cresceram 10,3% em valores medidos em reais e em 14% em números de pedidos.

Entre quinta e sexta-feira, foram 3,8 milhões de pedidos, totalizando R$ 2,1 bilhões.

Um quarto do faturamento veio dos smartphones. Outro quarto veio de eletrodomésticos, e um décimo de produtos de informática.

De modo geral, a Black Friday postergou as vendas que seriam feitas no início de novembro e antecipou as vendas previstas para o Natal.

Para os veículos, o crescimento em outubro foi de 15%. O grosso das vendas se destinou às locadoras, que renovaram pesadamente suas frotas, aproveitando-se dos estoques das montadoras. Sem as locadoras, o crescimento se situou entre 1,6% e 1,9%.

O setor de papel e embalagens teve duas vertentes interessantes. A primeira delas se refere ao crescimento das embalagens para o e-commerce. A segunda diz respeito à matéria prima destinada à higiene pessoal, em que o Brasil consome, per capita, cinco quilos por ano.

No setor imobiliário, em outubro foram alugados 91 mil metros quadrados, em levantamento que também leva em conta o saldo das instalações desocupadas. Desse montante, 49 mil metros quadrados foram registrados no Estado de São Paulo.

O aluguel de escritórios de alto padrão registrou em outubro 23 mil metros quadrados, com um acúmulo, a partir de janeiro, de 238 mil.

Detalhe curioso. Alugaram-se grandes armazéns, não porque as empresas passaram a precisar deles, mas porque elas, para reduzir custos, concentraram num só local armazéns menores que antes utilizavam.

ELETRODOMÉSTICOS E VEÍCULOS

No setor de eletroeletrônicos, o terceiro trimestre de 2017 registrou uma alta na linha branca de 17,2%, se comparado ao mesmo período do ano anterior. Em aparelhos de TV, o crescimento foi de 43,4%, e no de aparelhos portáteis, de 30,6%.

Entre os empresários do setor, uma sondagem revelou que 36,7% acreditam que o mercado vai melhorar, 63,3% que ele permanecerá estável, e pela primeira vez nenhum dos entrevistados disse acreditar que haveria piora.

Mas vejamos a agricultura, que tende a desapontar os economistas que contavam com constantes números positivos (o único que apresentou crescimento em 2016).

Há a previsão de uma queda de 5% na produção de grãos, previsão que poderá se agravar diante de questões climáticas que afetam os Estados do Paraná e Mato Grosso.

O setor do açúcar e do álcool se beneficiou de uma majoração no preço do etanol, que ocorreu na esteira do aumento do petróleo refinado, provocado pelas tensões entre a Arábia Saudita e o Irã – fator que a Petrobras levou em conta para seus reajustes nas refinarias.

O açúcar também registra um benefício indireto, com um aumento de US$ 0,13 a libra peso no mercado de Nova York.

A carne bovina, no entanto, sofre com os efeitos de um ano cheio de más notícias, como a Operação Carne Fraca, um desastre para a credibilidade do produto brasileiro, e pelo escândalo da JBS.

O preço da carne de boi é hoje 3% inferior ao de três anos atrás.

Para as carnes de frango, a boa notícia (para o consumidor) está na queda em 10% do preço do milho. O país produzirá 97 milhões de toneladas este ano, consumido 57 milhões. O que não for exportado tende a empurrar os preços para baixo.

PRESIDENCIAIS: UM PONTO DE INTERROGAÇÃO

Mas todas essas informações devem ser colocadas na perspectiva das incertezas políticas que o Brasil experimentará com a contagem regressiva para as eleições presidenciais.

Há então alternativas. Uma delas – assinalou um dos participantes do conselho – está no desempenho da esquerda. Se Lula não puder se candidatar, essa corrente não tem outro nome com fôlego para o segundo turno.

Jair Bolsonaro não é apenas uma percentagem de intenção de votos. Ele é o sintoma de um descontentamento da população com a política tradicional.

Não se sabe, tampouco, os efeitos das redes sociais entre os eleitores. Serão maiores que nas eleições passadas, mas com o peso negativo produzido pela consciência sobre a proliferação das fake News (notícias falsas).

Sobre o candidato que poderá ganhar espaço por ocupar o centro político do tablado, por enquanto o governador Geraldo Alckmin está em posição vantajosa.

Mas ele perderá esse estatuto caso não apresente até março intenções de voto bem acima dos dois dígitos. Caso isso não ocorra, o nome do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, se transformaria em alternativa.

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