Brasil

Vice de Bolsonaro prega reformas e desburocratização


Em palestra na ACSP, o general Hamilton Mourão desfiou um ideário liberal, sem esquecer as sequelas que ameaçam o País, como a corrupção e o narcotráfico


  Por Redação DC 18 de Setembro de 2018 às 14:05

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


"Qualquer governante que assumir no dia primeiro de janeiro terá de encarar a questão do ajuste fiscal como um touro desembestado", disse o general Hamilton Mourão, vice na chapa do candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL), em palestra na Associação Comercial de São Paulo (ACSP), na manhã desta terça-feira (18/09).

Segundo suas previsões, se nada for feito, o estado brasileiro não terá como pagar até mesmo despesas obrigatórias, como salários e benefícios.

Em duas horas de sessão, coordenada pelo presidente em exercício da ACSP, Roberto Ordine, Mourão discorreu sobre os temas que desafiam o País, propugnando por reformas capazes de equilibrar as finanças, desregulamentar a economia e impulsionar os negócios.

Na primeira parte de sua palestra, Mourão se debruçou sobre a situação do Brasil na América Latina. Disse que poucos países têm tantas fronteiras terrestres como o Brasil -são nove-, o que causa preocupação sobre a vigilância e, tendo morado dois anos na Venezuela, explicou como o país foi convertido em uma ditadura com as ferramentas da democracia, por meio da adesão de militares.

"Quero deixar claro que jamais seremos uma Venezuela. Nossas forças armadas jamais serão cooptados para um projeto totalitário desta natureza", afirmou.

Também abordou aspectos que envolvem o combate à criminalidade, presente tanto no andar de cima -"a turma do colarinho branco, que desvia recursos" -, como nas comunidades carentes, que a seu ver estão sob o jugo do narcotráfico.

"É preciso que o Estado entre lá para dotar as comunidades de esgoto, equipamentos de saúde, de modo que se possa separar essa população dos grupos armados." Não apenas isso: para Mourão, o estado deve conferir títulos às residências para inserir a população marginalizada no sistema capitalista a fim de que todos possam ter crédito com base em um ativo.

Ao se referir às críticas que sofreu por afirmar que nos lares dessas comunidades onde só existem mães e avós -porque os pais estão presos ou vinculados ao crime organizado -crianças e adolescentes são cooptadas pelo narcotráfico, Mourão disse que não quis criticar as mulheres.

"É uma constatação: elas saem para trabalhar como faxineiras e cozinheiras e não têm com quem deixar os filhos porque o estado não está presente para dar uma creche ou uma escola em período integral e as crianças viram presa fácil do narcotráfico."

Para Mourão, a polícia vive hoje "o pior dos mundos", ao citar o combate desigual contra as narcoquadrilhas, tanto no terreno jurídico quanto nos investimentos em infraestrutura necessários para fazer frente à criminalidade.

Ele falou de maneira ácida sobre o "caos político" que prepondera no País, com um excesso de legendas partidárias que impedem os eleitores de se identificar com seus propósitos.

"Os políticos se esqueceram de praticar a política com P maiúscula", afirmou. "O conceito de direita e esquerda, que remete à Revolução Francesa, já deveria ter sido sepultado, criou a dicotomia entre o bem e o mal, mas, infelizmente temos corruptos nos dois espectros".

Favorável à reforma tributária, o general citou o impostômetro, atualmente na casa de R$ 1,3 trilhão, para dizer que os impostos representam hoje 37% do Produto Interno Bruto (PIB), quando especialistas em tributos indicam que num país como o Brasil o percentual não deveria ultrapassar 23%. Se todos pagassem impostos com menor carga tributária, a arrecadação seria ainda superior. Foi aplaudido pela plateia.

Em sua palestra, Mourão pregou um estado transparente, com avaliação dos serviços públicos, e, portanto, do desempenho dos servidores, e agências reguladoras tocadas por profissionais competentes e compromissados, o que resultaria em menor regulamentação. Também atacou o excesso de burocracia, que faz com que um registro de propriedade industrial demore até dois anos para ser obtido.

Questionado pelo empresário Alfredo Cotait Neto, presidente em exercício da Facesp (Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo) sobre demandas e questões que hoje preocupam os empresários do setor, como o eSocial, Mourão disse que, de fato, há excesso de regulamentação. "São questões que estão, sim, em nossa ordem do dia", afirmou. 

A sanha legisferante transformou o país em um paraíso para os advogados, de acordo com o candidato. "23 leis federais são aprovadas a cada dia, resultando em 6 milhões de páginas", disse.

Para que o Brasil possa atrair capital de investimento será necessário tornar as regras mais claras. Se for eleito, disse ele, Bolsonaro irá enxugar o governo e reduzir o número de ministérios.

Questionado sobre o papel da imprensa, Mourão se declarou totalmente favorável à liberdade de expressão. "As críticas aos governos devem ser feitas, do contrário só haveria por aqui jornais como Pravda e Granma", disse, ao se referir aos veículos dos partidos comunistas da Rússia e de Cuba.