Brasil

Viagem reaproxima Israel após longo distanciamento


O presidente Jair Bolsonaro desembarcou em Tel Aviv na madrugada de domingo (31/03) para uma visita de três dias. Entenda o significado dessa reaproximação com o país do Oriente Médio


  Por Estadão Conteúdo 31 de Março de 2019 às 14:35

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Oswaldo Aranha é o nome de uma ruela perto do Mercado de Sarona, em Tel-Aviv. O ex-chanceler de Getúlio Vargas é um dos protagonistas da improvável criação de um Estado judeu na Palestina britânica.
 
Após a 2ª Guerra, como embaixador do Brasil na ONU, ele presidiu a Assembleia-Geral que aprovou o plano de partilha do território e abriu caminho para a criação de Israel, em 1948. 

Até os anos 60, o Brasil conseguiu se manter equidistante no conflito árabe-israelense, chegando até a esboçar alguma simpatia por Israel em votações no Conselho de Segurança da ONU, como a recusa em apoiar a proposta soviética de condenar o governo israelense por agressão aos vizinhos árabes na Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Os choques do petróleo, no entanto, marcaram a primeira guinada da relação brasileira com a região. A partir dos anos 70, para manter o fornecimento, o governo militar levantou a bandeira do pragmatismo e se alinhou com os árabes. foi período mais anti-Israel da história das relações exteriores do Brasil, principalmente na presidência do general Ernesto Geisel. 

No livro O Brasil do general Geisel, o cientista político Walter de Góes lembra um dos episódios mais marcantes da relação entre Brasil e Israel.
 
Em novembro de 1975, a Assembleia-Geral votava a Resolução 3379, que considerava o sionismo uma forma de racismo. Depois de sinalizar o voto favorável em uma comissão preliminar, Geisel quis mudar de opinião, mas ficou tão irritado com as críticas que recebeu dos EUA que mandou o chanceler Azeredo da Silveira manter posição e condenar o sionismo.

Com o colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria, a diplomacia brasileira voltou a buscar uma posição equidistante na região.
 
Embora muitas vezes crítico ao governo israelense em votações sobre direitos humanos na ONU, o Brasil teve gestos de conciliação. Em 2007, Israel foi o primeiro país a assinar um tratado de livre-comércio com o Mercosul. 

ANOS PETISTAS

Em 2010, Luiz Inácio Lula da Silva se tornou o primeiro presidente brasileiro a realizar uma visita de Estado a Israel.
 
Seu governo, no entanto, é criticado por muitos israelenses não pela aproximação com os palestinos, mas pelo apoio dado ao Irã.
 
Dois meses depois da viagem a Israel, Lula articulou com a Turquia um acordo nuclear com os iranianos bastante criticado pelas potências ocidentais.

O que já era percebido como ruim ficou ainda pior no governo Dilma Rousseff. Em 2014, após o Brasil emitir um comunicado condenando Israel pelo "uso desproporcional da força" em bombardeios à Faixa de Gaza, Yigal Palmor, porta-voz da chancelaria israelense, respondeu com um golpe abaixo da linha da cintura. 

"Esta é uma demonstração lamentável de como o Brasil, um gigante econômico e cultural, continua a ser um anão diplomático", disse Palmer -- que não parou aí.
 
"A resposta de Israel foi proporcional de acordo com a lei internacional. Isto não é futebol. No futebol, quando a partida termina empatada, você diz que é proporcional. Mas quando acaba em 7 a 1, é desproporcional", afirmou o porta-voz, tirando sarro com o trauma na Copa de 2014.

É contra essa hostilidade que Jair Bolsonaro trabalha a partir de hoje, em sua visita a Israel. Dada sua afinidade com o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, a tarefa parece mais fácil do que a missão de Tite à frente da seleção.
 
O Brasil abrirá um escritório diplomático em Jerusalém como extensão da embaixada em Tel-Aviv, anunciou neste domingo, 31, o ministro das Relações Exteriores israelense, Israel Katz, durante a visita oficial que o presidente Jair Bolsonaro realiza em Israel.

De acordo com o Itamaraty, parte da declaração lida em conjunto com o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, estabelece um escritório brasileiro para a promoção do comércio, investimento, tecnologia e inovação.

Inicialmente, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil havia informado à imprensa que o escritório seria instalado como "parte da embaixada" do Brasil em Israel, que fica em Tel-Aviv. Minutos depois, o comunicado foi alterado sem esse trecho.

FOTO: Alan Santos/PR