Brasil

Valeu a pena gastar R$ 39 bilhões com a Olimpíada?


Pesquisa do Datafolha responde implicitamente que não. O país poderia ter direcionado essa fortuna para projetos prioritários


  Por João Batista Natali 19 de Julho de 2016 às 13:34

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Os Jogos Olímpicos que serão abertos no Rio em 5 de agosto custarão para os cofres brasileiros R$ 39,1 bilhões. Valerá a pena?

Não, responde pesquisa nacional do Datafolha, publicada nesta terça-feira (19/07). E os números são muito eloquentes.

Há três anos, o mesmo instituto constatou que 64% eram a favor do megaevento. Hoje, são 40%. Em tendência contrária, apenas 25% eram contra, subindo agora para 50%.

Para 63%, a Olimpíada trará mais prejuízos que benefícios. E em três tópicos específicos (organização dos jogos, segurança pública e sistema de transportes para turistas), os brasileiros disseram sentir mais vergonha que orgulho.

Essa fotografia é bem diferente da que foi revelada em outubro de 2009, quando o então presidente Lula defendeu a candidatura brasileira de maneira quase patriótica. “Os Jogos Olímpicos do Rio serão inesquecíveis, pois estarão cheios da paixão, da alegria e da criatividade do povo brasileiro.”

Na esteira de Pequim (2008) e já à espera de Londres (2012), a ideia do governo era colocar o Brasil na mídia e se beneficiar com uma imagem que se acreditava ser apenas positiva. Foi o mesmo espírito que levou o país a disputar – e conquistar – o direito de sediar a Copa do Mundo de 2014.

Mas depois tudo começou a dar errado. A começar da imagem do próprio governo a partir de 2015, com a popularidade em queda de Dilma Rousseff e as investigações da Lava Jato, que atingiam em cheio o PT e qualquer projeto a ele associado. Com isso, as Olimpíadas continuaram a ser uma bela cereja, mas em cima de um bolo estragado.

Veio ao mesmo tempo a recessão, a diminuição das receitas públicas e a virtual quebra financeira doEstado do Rio. O evento esportivo de dimensões mundiais exigia um fluxo de investimentos – que cresceu em R$ 400 milhões em janeiro último -,que os governos não tinham mais condições de pagar.

Só em 2015 o orçamento das Olimpíadas chegou a dar dois saltos de R$ 500 milhões cada um, o que distanciava ainda mais do orçamento inicial de 2009, pelo qual a brincadeira ficaria em R$ 29 bilhões, ou R$ 10 bilhões a menos que o custo atual.

Em termos comparativos, a Copa de 2014, apesar dos elefantes brancos que criou com estádios superfaturados, ficou em R$ 27,1 bilhões.

E se há nisso algum consolo, o Brasil gastará, com seus R$ 39,1 bilhões de agora, menos que gastou Londres com os Jogos Olímpicos de há quatro anos. Foram R$ 65,3 bilhões, mas dentro de um Reino Unido de economia e população bem mais ricas que as brasileiras.

Um dos argumentos dos defensores do projeto das olimpíadas está na mobilização de um exército de trabalhadores para executar, por exemplo, os R$ 7 bilhões em arenas para as competições. Mas com quantia idêntica seria possível contratar a mesma mão-de-obra para projetos menos provisórios e de maior utilidade para a população.

Fala-se também em legado. Ou seja, obras que a população herdará. Uma estimativa nesse tópico está em R$ 24,6 bilhões. Mas o problema óbvio está no fato de uma quantia tão imensa ter podido ser gasta em outros programas – saúde, segurança, moradias ou educação –, ou então para melhorar a logística e a infraestrutura com imensa carência nacional.

Há nisso tudo um outro faz-de-conta que procura embalar o patriotismo dos bem-intencionados. Trata-se da ideia de que nem tudo são investimentos públicos. A iniciativa privada entra no Plano de Políticas Públicas carioca (metrô, Porto Maravilha), por meio de PPPs (parcerias público-privada).

A questão, no entanto, é que o dinheiro foi direcionado com base nas exigências dos Jogos Olímpicos e não nas necessidades urbanas e sociais da população como um todo.

Uma coisa é o metrô com estação na porta de um estádio. Outra, bem diferente, é o transporte de qualidade para as populações de periferias que sentirão o cheiro das Olimpíadas apenas se ligarem a televisão para assistir as disputas das provas.

Em resumo, é como se o Brasil tivesse se comportado como o pai de uma noiva de classe média, que promove no sábado uma suntuosa e nababesca festa de casamento, mas que, na segunda-feira seguinte, reúne-se com os credores para parcelar as dívidas assumidas pelas décadas seguintes.

A hotelaria ganhará dinheiro, os restaurantes estarão cheios de turistas, e o comércio carioca tem condições de sair ganhando. Mas será que isso basta para calcular uma relação conveniente entre custo e benefício? Logicamente que não.

E não estamos falando de zika vírus, de riscos de terrorismo, da poluição da baia da Guanabara ou de outros problemas, que entraram por uma porta, saíram pela outra e que ficam para a história de uma outra vez.

ILUSTRAÇÃO: Thinkstock






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