Brasil

Urnas levam ao derretimento do regime bolivariano na Venezuela


Com a vitória da oposição a Cristina na Argentina, o Brasil de Lula e Dilma tende a ficar mais isolado


  Por João Batista Natali 07 de Dezembro de 2015 às 15:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


A vitória espantosa da oposição nas eleições legislativas da Venezuela, neste domingo (06/12), modifica a configuração política da América Latina, com desdobramentos ainda imprecisos no Brasil.

O regime bolivariano da Venezuela havia se tornado exemplar pela maneira verbalmente agressiva com que tratava os setores da sociedade que dele discordavam.

Hugo Chávez (1954-1913) se elegeu presidente em 6 de dezembro de 1998, iniciando o proceso de criação do chamado “socialismo do século 21”, que qualificava a oposição de “inimiga da pátria” e silenciava a mídia que se opunha ao governo.

Os primeiros resultados da votação que renovou o Parlamento unicameral de 165 cadeiras dava 99 eleitos à coligação oposicionista MUD (Mesa de Unidade Democrática), contra 46 ao situacionista PSUV (Partido Socialista Unificado da Venezuela).

Não eram ainda os resultados definitivos. Faltavam 20 deputados – três de distritos indígenas – que podem dar à oposição 113 cadeiras, contra 54 ao partido oficial.

Com isso, a MUD controlaría a maioria qualificada de três quintos do Parlamento, permitindo que ela indique um vice-presidente do Executivo e modifique a Constituição.

Estariam, assim, sensivelmente reduzidos os poderes do presidente Nicolas Maduro, eleito com uma diferença de dois pontos percentuais há quase três anos, contra o oposicionista Henrique Capriles. Maduro substituiu Chávez, que acabara de morrer.

O recuo dos bolivarianos ocorre pouco depois do segundo turno da eleição presidencial argentina, com a vitória de Maurício Macri em 22 de novembro. Ele tomará posse nesta quinta-feira (10/12), em substituição a Cristina Kirchner, que, a exemplo de Chávez e Maduro, não dialogava com a oposição e praticava a política do “nós contra eles”.

É um estilo semelhante ao de Luís Inácio Lula da Silva, eleito em 2002 para o primeiro de seus dois mandatos presidenciais no Brasil, e de sua sucessora, Dilma Rousseff, que hoje enfrenta dificuldades para preservar o mandato, com os primeiros passos do impeachment no Congresso.

Chávez e Maduro concebiam o Mercosul como um instrumento de oposição aos Estados Unidos. O argentino Macri havia se comprometido a sugerir a suspensão da Venezuela do bloco regional na conferencia de governantes, marcada ainda para este dezembro em Assunção, no Paraguai.

Mas nesta segunda-feira a futura chefe de sua diplomacia, diante dos resultados eleitorais do domingo, disse que a represália não seria mais necessária. A Argentina acusaría a Venezuela de descumprimento da cláusula democrática.

O Brasil se mantinha, nesta segunda, num eloquente silêncio sobre os resultados eleitorais de seu aliado venezuelano. Por volta das 13h30 não havia nenhum pronunciamento do Planalto, do Itamaraty ou mesmo comentarios reproduzidos pela Agência Brasil.

A vitória da oposição na Venezuela confirmou a declaração feita por Lula no mês pasado, durante conferencia internacional em Mendellin, na Colômbia, de que havia “um certo cheiro de retrocesso [das esquerdas]” no continente.

A perspectiva de lento reerguimento da Venezuela é positiva para a economia brasileira. Aquele país, que enfrenta uma inflação anual superior a 200% - os índices oficiais não são divulgados – terá em 2015 uma queda no PIB de 7%.

Maduro continuará por enquanto na Presidência e nada poderá fazer contra a queda nos preços do petróleo, em 50%, desde meados de 2014, o que fragilizou as exportações de seu país. O petróleo representa 96% das exportações venezuelanas. Mas é previsível que a Venezuela volte a atrair investimentos externos e abandone as exportações subsidiadas de petróleo à ditadura cubana.

Quanto ao Brasil, a sanidade financeira da Venezuela permitiría a cobrança atrasada de exportações que a revista Veja estima em mais de US$ 2 bilhões.

As afinidades políticas entre o Partido dos Trabalhadores e o PSUV também havia levado o Itamaraty a adotar uma “diplomacia silenciosa” com relação ao país vizinho, sem polemizar abertamente contra as constantes violações contra a democracia – como a prisão de opositores e a existencia de uma milicia partidária acusada de mais de 60 mortes nas manifestações de protesto do ano passado.

 

 

 

IMAGEM: Thinkstock

 






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