Brasil

União do centro: uma ideia eleitoral a caminho do aborto


Plano de unificar as candidaturas presidenciais mereceu até manifesto, segunda-feira em Brasília, articulado por FHC. Mas divisões internas e ambições são muito fortes


  Por João Batista Natali 06 de Junho de 2018 às 15:05

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


O plano faria muitíssimo sentido. Com o crescimento eleitoral da direita (Bolsonaro) e da esquerda (Ciro Gomes), o centro apenas será viável se caminhar unido para o primeiro turno presidencial de 7 de outubro.

Mas isso está longe de ser o caso. Até pelo contrário, a hipótese é desdenhada por um dos interessados, Rodrigo Maia (DEM). Ele afirmou nesta quarta (6/6) que candidatura única “é conversa de bêbado”.

Sua reação demonstra que o manifesto lançado segunda-feira em Brasília, em favor de uma candidatura unificada, não teve poder de agregação. O documento tende a dividir bem mais que unificar, que era sua intenção original.

O manifesto, redigido por iniciativa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, menciona os pré-candidatos que poderiam desde agora juntar suas intenções de voto.

São eles, além de Rodrigo Maia, o ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), a ex-senadora Marina Silva (Rede), o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles (MDB), e o empresário Flávio Rocha (PRB).

CENTRO COMO PONTO DE EQUILÍBRIO

Mas, afinal, o que vem a ser o centro? Teoricamente, é a corrente que aceita o mercado e acredita no empreendedor, mas que, ao mesmo tempo, está convicta de que o Estado – mesmo reduzido – exerce um papel importante na inserção dos mais pobres à economia.

Historicamente, o centro desaparece em períodos da história marcados por radicalismos. Foi o exemplo, no Brasil da década de 1930, com o confronto entre integralismo e comunismo, e a instalação do Estado Novo como forma institucional autoritária e conservadora.

O colapso das ideologias tradicionais, a partir do final do comunismo na Europa (1989-1991), levou esquerda e direita, inicialmente, a se aproximarem do centro.

Mas essa lógica foi quebrada pelo despertar de partidos radicais de direita, que não foram estimulados por uma agenda econômica ou social interna a seus países. Eles reagiam à imigração.

São os casos recentes da Alemanha, Itália, Holanda ou Áustria.

No Brasil, a direita bolsonarista se apresenta como um anteparo à criminalidade, procurando destruir a agenda de direitos humanos que se tornou consensual, após a redemocratização de 1985.

No campo oposto, a esquerda passa por um momento de fragmentação. Lula ainda influencia o PT com a utopia da possibilidade de uma candidatura dele. Isso afasta o PC do B e deixa o Psol ressabiado. Quanto ao PT, ele está literalmente perdido.

FOTOS: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil e Roberto Stuckert/PR

É nesse quadro que uma candidatura de centro-esquerda, como a de Ciro Gomes (PDT) passa a exercer certo papel de aglutinação. Ele cresce nas pesquisas bem mais que as opções de candidatura petista que entrem no jogo, tão logo o delírio de Lula seja inviabilizado pela Justiça Eleitoral.

DIVISÃO NO CAMPO LIBERAL

As cinco candidaturas do centro fornecem, elas também, um quadro fragmentado, com os cinco nomes que procuram se sobrepor entre os demais para, sob a lógica da hegemonia, obterem a desistência e a adesão.

O personagem teoricamente mais credenciado para esse movimento seria o de Geraldo Alckmin. Mas ele carrega nos pés um chumbo que o impede de decolar.

Em desabafo na segunda-feira (5/6), durante reunião do PSDB, chegou a sugerir que o partido escolhesse outro nome. Hipótese obviamente descartada por simples falta de alternativa.

Alckmin está em contagem regressiva para um teste dramático. Será a pesquisa Datafolha a ser publicada neste próximo domingo (10/6). Se continuar oscilando entre 6% e 8% das intenções, ele poderá jogar a toalha.

A questão, no entanto, é saber se algum outro nome do centro terá fôlego para defender, com sucesso, plataformas como a reforma da previdência e a responsabilidade fiscal.

Excetuada Marina Silva, que corre em faixa própria, nenhum outro nome se aproximou dos reservatórios de intenções de votos para cumprirem um trajeto que viabilize a candidatura de um segundo turno.

Rodrigo Maia quer esperar até o final de julho, e visivelmente esquenta uma cadeira que será dada a um parceiro mais forte.

Meirelles patina entre 1% e 2%, não tanto porque o MDB é também o partido de Michel Temer. Mas porque ele tem pouca capacidade de empolgar multidões e por carregar, no currículo, o estigma de banqueiro.

Esse quadro é desalentador. Sobretudo para os investidores e para o meio empresarial. Um possível segundo turno entre Ciro e Bolsonaro é um grande pesadelo, que já produz, desde já, efeitos dramáticos no Bovespa e no câmbio.

IMAGENS: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil e Roberto Stuckert/PR