Brasil

Uma balbúrdia chamada PSDB


Tucanos batem cabeça em meio ao autoritarismo de Aécio Neves - suspeito de suborno da JBS -, que tirou Tasso Jereissati da chefia do partido. A confusão enfraquece a candidatura presidencial de Alckmin


  Por João Batista Natali 13 de Novembro de 2017 às 14:10

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A bagunça em que mergulhou o PSDB é péssima para o partido e para o projeto reformista que ele representa.

O senador Aécio Neves (MG), presidente afastado da sigla, deu um golpe interno quinta-feira passada (09/11) e depôs o presidente interino e seu colega de Senado, Tasso Jereissati (CE).

Em termos superficiais, Aécio defendia a permanência do partido no governo, e Jereissati queria uma ruptura, pelo contágio que Michel Temer operava na reputação tucana.

Mas, em profundidade, a questão era outra. Ex-governador de Minas e candidato presidencial em 2014, Aécio sofreu em maio a implosão de seu patrimônio ético.

Gravação entregue por Joesley Batista à Procuradoria Geral da República expôs o senador pedindo R$ 2 milhões. Seria, argumentou ele depois, honorários para advogados.

Mas a Polícia Federal rastreou parte desse dinheiro, entregue a um primo do senador e depositado na empresa de um outro senador mineiro, que tem por Aécio uma relação de vassalagem.

Aécio foi então suspenso de seu mandato, que ele apenas recuperou depois de confusa sessão do STF, que decidiu que seus ministros só poderiam punir parlamentares com a autorização da Casa legislativa a que eles pertencem.

Pelo menos três ilustres defuntos remexeram-se em seus túmulos: Tancredo Neves, avô do senador, e dois fundadores do PSDB – Mário Covas e Franco Montoro –que deram vida a essa costela de um PMDB, já em 1988 metido em nebulosas operações do ex-governador paulista Orestes Quércia.

Com sua imagem prestigiada pelo Plano Real (1994) e pelos dois mandatos modernizadores de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), o PSDB cresceu como uma antítese ao Partido dos Trabalhadores.

DO PARAÍSO DAS MUNICIPAIS AO PURGATÓRIO

A corrupção, com o Mensalão e o Petrolão, estigmatizava apenas o terreno petista. Essa imagem tornou-se no ano passado tão sólida que, nas eleições municipais, o PT perdeu 60% de suas prefeituras, enquanto o PSDB foi o mais beneficiado, com crescimento de 15% - e bem mais que isso em número de munícipes.

Mas eis que a Lava Jato se aprofundou, e os tucanos também estavam com mãos sujas. Não era apenas uma questão de financiamento eleitoral, com acusações sobre toda a cúpula do partido.

Eram também informações comprometedoras ao presidente da sigla, justamente Aécio Neves, em indicações a estatais mineiras e até sobre a federal Furnas.

Com isso, foi para o brejo a ideia de que tudo não passava de um jogo de acusações cruzadas entre delatores. O episódio Joesley demonstrou aos filiados do PSDB que Aécio estava tão comprometido quanto o mais aético dos petistas.

O pior é que ele sabia que, na Comissão de Ética do Senado, apenas se salvaria caso mantivesse uma relação bastante próxima com o presidente Michel Temer. Que, por sua vez, também se complicara em gravações com Joesley.

Mesmo assim o PSDB permanecia dividido com relação ao governo. O senador licenciado e ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, alertou para o fato de as divisões tucanas estarem alimentando a candidatura presidencial de Lula.

Essas divisões se materializaram quando a Câmara dos Deputados arquivou, em outubro, a segunda denúncia da PRG contra Temer. Dos 46 deputados tucanos, apenas 20 votaram a favor do presidente.

Esse quadro possui duas dimensões paralelas.

A primeira está na disputa pela candidatura tucana ao Planalto, dentro de um ano. Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, tem o maior cacife, sobretudo pelo apoio de FHC ao seu nome.

Mas o partido dividido o prejudica sensivelmente. Depois do affaire Aécio/Joesley, o eleitor tucano desconfia não estar diante do mesmo partido pelo qual Aécio, há três anos, quase derrotou Dilma Rousseff.

Essa falta de consistência não se resume a questões secundárias, como a disputa entre o senador Tasso e Marcondes Perillo, governador de Goiás, pela presidência da sigla.

É um jogo que hoje Alckmin, um terceiro nome providencial, tende a ganhar.

CONTAMINAÇÃO NÃO VEM DE TEMER; VEM E AÉCIO

A coisa vai mais a fundo. É a moralidade do PSDB que está em jogo. Nesse ponto, a contaminação ética não vem de Michel Temer. Vem de Aécio Neves.

A segunda dimensão para a imagem tucana é dada pela diminuição das simpatias pelo partido, diante de um quadro eleitoral no qual o PSDB não é mais um dos vértices da polarização.

Diante do embate entre Lula (esquerda) e Jair Bolsonaro (direita), o espaço liberal, ao centro, fica solto e flutuante na ausência de um concorrente tucano com retaguarda partidária mais sólida.

É diante da anemia tucana que surgem candidaturas inesperadas, como a de Luciano Huck, que pode se candidatar pelo PPS, tendo como vice o atual governador peemedebista do Espírito Santo, Paulo Hartung, um homem competente e que não traz nódoas de corrupção em sua biografia.

Huck jamais ameaçaria o governador de São Paulo ou o prefeito paulistano João Doria (aparentemente desgastado precocemente na corrida ao Planalto), caso a bandeira vistosa do PSDB não tivesse se transformado num trapo com menor respeitabilidade.

Há nisso também a dificuldade de um caminho de volta na cabeça dos eleitores. É mais fácil buscar novos convertidos do que a reconversão dos que deixaram de sentir apego sentimental pelo partido.

Mas será que apesar de tudo isso os deputados e senadores tucanos deixarão de votar as reformas nas quais sempre acreditaram? Certamente votarão, se vierem à votação. Mas isso já é uma outra história, que fica para uma outra vez.