Brasil

Trump atropela a Turquia. E sobra para o Brasil


Sanções do presidente americano (à esq.) contra Erdogan provocam queda da lira turca e afetam mercados; Bovespa e real também sofrem pressões


  Por João Batista Natali 13 de Agosto de 2018 às 14:35

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


O mercado brasileiro atravessa momentos agitados, em razão de um imenso desconforto internacional provocado pela Turquia.

Em uma semana, o Ibovespa caiu 4.535 pontos (estava a 76.546, ao meio-dia desta segunda-feira). E o dólar subiu de R$ 3,76 para R$ 3,85. O dólar mais caro encarece importados, do trigo a máquinas, e pressiona a inflação.

As bolsas europeias também abriram no vermelho no primeiro pregão da semana. Paris caia 2,4%, Milão, 2,5%, e Frankfurt, 0,5%. Tóquio, Hong Kong e Xangai também fecharam o pregão em queda.

E ainda sofriam os grandes bancos europeus, como o UniCredit, o BNP Paribas, o BBVA e o ING.

Na própria Turquia, as coisas andavam ligeiramente mais calmas.

Mas isso porque o governo turco injetou US$ 6 bilhões para tentar frear a queda da lira turca, que só na última sexta-feira (10/8) havia se desvalorizado em 14%. Nos dias anteriores, a desvalorização foi de 32%.

Como nos contos policiais em que o culpado é o mordomo, mais uma vez a máscara cabe direitinho no presidente Donald Trump. Ele desencadeou a crise ao sobretaxar as exportações turcas de aço e alumínio.

Racionalmente, esse tipo de agressão seria pouco compreensível por penalizar um aliado da Otan, que ajuda os Estados Unidos no combate ao terrorismo islâmico e que soma força com os americanos na Guerra Civil da Síria.

É bem verdade que a Turquia não perdoa Washington por seu apoio às milícias curdas, duramente reprimidas pelos militares turcos. Mas, por detrás do separatismo, os curdos estão na linha de frente do desmonte do Estado Islâmico em território sírio.

Acontece que a cabeça de Trump funciona com os parâmetros de um contador de província, e não com os de um estadista interessado em proteger aliados num cálculo geopolítico bem maior.

O contador, no caso, acredita que os Estados Unidos estão sendo agredidos no plano comercial, por exportadores de produtos industrializados e commodities, o que ameaçaria os empregos do trabalhador americano sem curso superior –perfil do grosso do eleitorado que em novembro de 2016 elegeu à Casa Branca o candidato republicano.

UMA LONGA HISTÓRIA

Em 2016, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan – em verdade, um semiditador – denunciou um plano interno de golpe de estado, supostamente fomentado por Fethullah Gulen, clérigo islâmico exilado nos Estados Unidos.

O governo de Ancara pediu para que ele fosse extraditado pelo então governo Barack Obama. O pedido foi engavetado pela Casa Branca.

Fethullah foi o bode expiatório para um expurgo de 80 mil militares, professores universitários, jornalistas e todos os demais adversários políticos de Erdogan.

Outro bode expiatório foi o pastor evangélico americano Andrew Brunson, que Trump, por uma questão de honra, quer ver repatriado.

Erdogan propôs trocá-lo por Fethullah Gulen, o que pôs abruptamente fim a um diálogo com uma delegação turca, há semanas, em Washington.

O Congresso americano tomou as dores de Brunson e vetou a entrega de caças F-35 para o governo de Ancara.

E como fica a Otan? Um pesquisador do Instituto Peterson de Economia Internacional disse à Bloomberg que Trump não mexerá uma palha para fortalecer uma aliança militar na qual ele não acredita.

EFEITOS NOS EMERGENTES

O fato é que a Turquia se tornou um novo laboratório no processo mundial de criação de crises que afetam outros emergentes.

No Brasil, pouco antes de assumir a Presidência, em 1995, Fernando Henrique Cardoso constatou isso de perto: o México quebrou e, em crise cambial, arrastou atrás dele o real e outras moedas.

A crise mais aguda no governo dele FHC ocorreu com a Rússia, em 1998. O Brasil precisou, então, fazer um empréstimo-ponte com o FMI para salvar sua moeda.

Os 13 anos de Lula e Dilma foram excepcionalmente vazios dessas tragédias cambiais. Some-se a isso o fato de o Brasil ter conseguido juntar reservas externas de US$ 380 bilhões, o que o torna invulnerável a pressões externas.

Aliás, ao contrário do reiterado pela retórica do PT, essa fortuna não foi juntada em razão da habilidade financeira dos economistas daquele partido. Ela foi o resultado de sucessivos superávits que o Brasil obteve com suas exportações de ferro e soja para a China.

É por isso, por exemplo, que a equipe de Michel Temer não se preocupou, em abril último, com as pressões do mercado sobre o peso argentino.

A pequena diferença está no fato de, com a lira turca, a tempestade ter adquirido dimensões globais. A rigor, o real não está ameaçado. Mas está atravessando uma pequena tempestade.

Isso se deve ao peso relativo da Turquia. Com 80,8 milhões de habitantes, o país – sucessor geográfico do Império Otomano, que implodiu com o fim da 1ª Guerra Mundial – enfrenta uma forte crise fiscal, e, para fechar suas contas, recorre com frequência a empréstimos externos.

Com a desvalorização da lira, essa dívida passa a ser bem mais árdua de ser paga. E é por isso que os bancos são os que mais sofrem nas bolsas de valores, de uma semana para cá.

 

FOTOMONTAGEM: Guto Camargo/Diário do Comércio sobre fotos divulgação da Guarda Nacional americana e do governo da Rússia.